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Alto Minho

2017-12-16 às 06h00

José Paulo Silva

A expressiva vitória eleitoral - que retirou à oposição representatividade no executivo municipal - conduzirá a uma maior exigência por parte dos munícipes, reconhece Vítor Pereira. Em entrevista à rádio Antena Minho e ao Correio do Minho o reeleito autarca de Paredes de Coura quer consolidar o tecido industrial, criar mais emprego e propiciar um ambiente cultural único que contribua para a fixação de mais jovens no concelho.

A expressiva vitória eleitoral - que retirou à oposição representatividade no executivo municipal - conduzirá a uma maior exigência por parte dos munícipes, reconhece Vítor Pereira. Em entrevista à rádio Antena Minho e ao Correio do Minho o reeleito autarca de Paredes de Coura quer consolidar o tecido industrial, criar mais emprego e propiciar um ambiente cultural único que contribua para a fixação de mais jovens no concelho.

P - Nas ultimas eleições autárquicas foi reeleito presidente da Câmara Municipal de Paredes de Coura (CMPC) pelo Partido Socialista que elegeu os cinco vereadores ficando o executivo municipal courense sem qualquer representante da oposição. Esperava este resultado eleitoral?
R- De inicio não, mas durante a campanha eleitoral comecei a sentir que de facto o resultado podia ser histórico como aliás aconteceu. É um resultado que acarreta também mais responsabilidades para o exercício deste segundo mandato. Eu diria que é um resultado que é do tamanho da nossa humildade.

P - O facto de a oposição não ter qualquer vereador eleito pressupõe a uma mudança na sua forma de gerir o Município?
R - Seria insensato alterar. O sucesso é sempre efémero e esconde sempre, dentro dele, o fracasso e por isso vamos governar como fizemos nos primeiros quatro anos. Os resultados eleitorais foram maravilhosos, mas conseguir trazer uma empresa para Paredes de Coura e captar investimentos, dá-nos mais orgulho.

P - Mas não haver eleitos de outras forças políticas no executivo municipal não prejudica o debate das ideias?
R - Eu tanto governo com maior conforto eleitoral como com menos. Não acho estranho. No primeiro mandato, com vereadores da oposição o ambiente não era tenso e era até de bom convívio político. O que vou dizer pode ter até algum sentido evangélico, mas eu acho que ninguém sabe o suficiente para não compreender os outros. Aquilo que me realiza é governar muito bem em Paredes de Coura e deixar marca. Ser um presidente da Câmara para visitar a filarmónica no dia do aniversário, fazer umas obras nas freguesias dá para vencer eleições, mas hoje o perfil do autarca tem de ser diferente. Eu sinto-me um presidente empresário.

P - Conseguiu nos quatro anos do primeiro mandato colocar em prática essa visão que tem do exercício do poder politico autárquico?
R- A inteligência é transdisciplinar. Uma vez estava numa mesa com um ministro e com o embaixador do México ao meu lado. Estávamos a conversar sobre investimentos e a partir de certa altura o embaixador só estava a falar comigo porque a minha formação permitiu-me conversar sobre personalidades mexicanas ligadas as artes e à cultura. O ministro perguntou-me qual era a minha forma- ção e eu respondi que era em História, um curso que não serve para nada, mas que tem muito sucesso a captar investimentos e a simpatia de embaixadores (risos).

P - No primeiro mandato conseguiu ser o “presidente empresário”, angariador de investimentos para o concelho?
R- Sim até porque grande parte do nosso sucesso eleitoral teve a ver com a captação de investimento. Muitas vezes associa-se a captação do investimento à interioridade, à geografia, ao mundo rural.

P - Ao presidente da CMPC têm chegado intenções de investimento nas novas tecnologias?
R - Essas intenções nascem da criação de um ambiente propício a esse objectivo. Ao presidente da CMPC cabe transformar a realidade, mas depois tem de o comunicar. Se Paredes de Coura surge como um território criativo, dinâmico, naturalmente que as pessoas quando andam a procurar um investimento, procuram também criar um contexto que seja amigo do projecto de investimento que nós estamos a fazer.

P- Iniciativas que o Município tem dinamizado como a ‘Escola do Rock’ o ‘Coura Vegetariana’ ou o ‘Paredes de Coura Fan Weekend’ não foram criadas de forma inocente, destinaram-se a criar o tal ambiente para que novas gerações possam vir para Paredes de Coura?
R - A pergunta é pertinente. Não é um procedimento inocente. Nós queremos governar de forma tradicional, mas também abrir a governação a modelos alternativos de desenvolvimento.

P - Como sucede na musica, Paredes de Coura quer assumir-se como um concelho alternativo?
R - Alternativo sim! Não ‘hostilizamos’ a tradição, mas estamos abertos ao futuro.

P - Porque é que na sua opinião os empresários, ainda hesitam em investir em Paredes de Coura?
R - Os produtos das empresas do sector automóvel não são de grande volume e por isso o seu transporte não exige muitos camiões. Estamos a perder investimento com as empresas que produzem produtos de maior dimensão porque as acessibilidades são um dos grandes constrangimentos de Paredes de Coura. As acessibilidades a Paredes de Coura revestem-se de uma dupla importância: para captar e diversificar o tecido empresarial e ainda para consolidar as empresas já instaladas nos parques industriais. O tecido empresarial courense está muito dependente do setor automóvel e do calçado e convém diversificar a oferta e empresarial e o tipo de emprego. Precisamos por isso de uma ligação de Paredes de Coura (parques industriais) à A3 (autoestrada Porto/Valença). Isso sim, seria uma grande vitória eleitoral. Ficaria muito desiludido se não viéssemos à ter acessibilidades melhoradas. Se forem ás áreas empresariais de Paredes de Coura, o transito está caótico porque cada vez temos mais funcionários e precisamos de algum dinheiro para reparar de forma conveniente, as estradas.

P - O que é que falta para que um jovem empreendedor, alguém ligado ás novas tecnologias se possa fixar em Paredes de Coura, crie uma empresa, desenvolva um projecto?
R - Tem de ter um ambiente que do ponto de vista tecnológico não seja diferente de trabalhar por exemplo em Braga. Estamos a criar condições para que isso aconteça. Temos um projecto de habitação a custos controlados para receber essas pessoas e ter uma programação cultural ligada as artes e aos espectáculos menos episódica e que crie hábitos. O território tem de ser atractivo senão os jovens não vêm.

P - Essa perspectiva concorre com um conceito que tem recusado que é do fatalismo geográfico.
R - Eu respondo com uma frase do Walt Disney: “gostamos do impossível porque lá há menos concorrência”. O futuro será sempre daqueles que correrem riscos e muitas vezes a boa governação surge mais dos desafios do que propriamente de procurar soluções para os problemas. Pode parecer arrogância, mas ser presidente de câmara só por ser não vale a pena. Não se trata de fazer para deixar uma marca, mas fazer algo pelo concelho com o intuito de o transformar. Para sobreviver temos de assumir o risco. Eu sei que é perigoso, é ser um pouco funambulo, mas para mim a política não deve ser enfadonha.

P - Disse nesta entrevista que a captação de novos investidores passa, por exemplo, pelo reaproveitamento do antigo mercado municipal.
R - Estamos a criar condições para a instalação de empresas de âmbito agrícola, terá uma ou outra de cariz tecnológico. Estamos a requalificar vários espaços em Paredes de Coura. Mais importante que os espaços é depois seduzir os empresários a instalarem-se no concelho. Havia um empresário de Paredes de Coura sedeado numa outra cidade que não conseguia encontrar um espaço para colocar os seus dez engenheiros informáticos. Eu propus imediatamente a ocupação de um espaço no centro de Paredes de Coura, onde existiu o restaurante Conselheiro, que em duas semanas ficou pronto a ser utilizado. Acontece que depois o mesmo empresário, no concelho onde estava instalado, deu o prazo de um mês para ter as novas instalações caso contrário mudava-se para Paredes de Coura. O processo foi desbloqueado nesse município e os dez engenheiros não ficaram em Paredes de Coura.

P - Está a dizer aos jovens recém-licenciados que pretendam criar as suas empresas que tem um espaço disponível no centro de Paredes de Coura (risos)?
R - Não estava a pensar nisso, mas obrigado pela ajuda (risos).

P - Este segundo mandato é o da transformação?
R - É um mandato mais exigente, de concretização no terreno de muito do trabalho que foi feito nos últimos quatro anos. A governação é dinâmica. Muito do trabalho que fizemos está agora a dar frutos. A ligação da A3 à sede do concelho foi algo que começou a ser trabalhado no quadriénio anterior. Vamos ter uma escola completamente nova, um investimento de 2,5 ME. Vamos trabalhar na reabilitação urbana. Com uma escola nova, com um ambiente cultural mais dinâmico e criativo, com a ligação à autoestrada …

P - A ligação à A3 é para ser concretizada nestes próximos quatro anos?
R- O concurso tem de ser lançado nestes quatro anos, quanto à conclusão da obra não posso estabelecer datas. É importante ultrapassar todas as dificuldades relacionadas com os pareceres técnicos das várias entidades. O prazo de execução da ligação rodoviária será de 24 meses.

P - Como é que a autarquia courense se posiciona no acesso ás verbas do Portugal 2020?
R - Eu tenho uma visão que não é muito comum em relação aos fundos comunitários. Imaginem que o Município de Paredes de Coura durante quatro anos recebe seis ou sete milhões de euros em fundos comunitários, mas são verbas que recebemos em ‘gavetas’. Pode ser utópico, mas eu tenho alguns investimentos que são estratégicos para o concelho, mas não há avisos para esses investimentos e por isso não os posso efectuar. Não vou inventar projectos só para ter acesso ás verbas. Preferia que se desse mais liberdade ás câmaras que teriam um plano simples de candidatura de projectos. Por exemplo em Paredes de Coura queremos investir na industria, nesse caso 60% dos fundos comunitários atribuídos seriam para essa área. No fundo andamos a candidatar-nos a pequenas verbas, mas do ponto de vista estrutural não existe uma capacidade instalada de alavancagem de grandes projetos.

P - Mas com esse 'colete de forças' o que é a autarquia de Paredes de Coura tem feito?
R - Concorremos ao que nos parece ser mais interessante para o desenvolvimento do concelho. Não alinhamos em candidaturas para a recuperação de edifícios se depois não tivermos projectos culturais ou outros, nem pessoas para desenvolver iniciativas. O orçamento da câmara não dá para tudo e por isso temos de ser inteligentes e estratégicos nos investimentos. Para 2018 o Orçamento da CMPC vai passar de 11,5 ME para 14,5 ME em grande parte graças aos fundos comunitários.

P - A descentralização de competências é bem-vinda?
R - Até vou confessar uma coisa (risos): quando foi o referendo para a regionalização até votei contra, era bastante mais novo. A discussão na altura foi muito dramática, muito maniqueísta país não estava preparado e perdeu-se uma grande oportunidade.

P - Se o referendo fosse hoje votava a favor?
R - Eu acho que sim, mas que seja uma descentralização a sério, que vá directamente para os Municípios e que seja feita com recursos. Mesmo dentro do Norte do país também há muito centralismo.

P - Que áreas é que seriam prioritárias para essa descentralização?
R - A saúde, a educação. Se quiserem fazer transferência de competências só para reparar edifícios, não obrigado! Não quero ser um mestre de obras. Queremos também capacidade de decisão financeira. Em diversas matérias o Município pode ter capacidade de decisão politica até porque as deliberações camarárias são enquadradas pela lei, muitas delas no domínio do ambiente, da gestão empresarial...

P - Na área da saúde por exemplo?
R - Então não podiam? Há muitas autarquias que estão no terreno em parcerias com outras instituições ligadas á saúde e ao social, a apoiar as populações. Poder ser a câmara a contratar enfermeiros para os centros de saúde? Sim! Mas façam um quadro legal rigoroso para que isso possa acontecer.

P - Transferência de competências para os Municípios com capacidade de decisão política e com verbas?
R - Sim em relação a capacidade de intervenção política já quanto ao envelope financeiro a acompanhar a transferência de competências não tenho grande otimismo quanto às verbas a transferir.

P - O Tribunal de Paredes de Coura que no passado foi encerrado de acordo com critérios - muito contestados - de pouco movimento processual, voltou a abrir. Está satisfeito com a solução encontrada?
R - A população está confortável com a decisão tomada. Há poucos dias saiu uma noticia em que o Tribunal de Paredes de Coura era, ao seu nível, dos que tinha maior fluxo processual. Aparentemente só iram ser julgados em Paredes de Coura processos crime e o cível dependeria da vontade do Juiz. O que está a acontecer é que diversos julgamentos têm acontecido no nosso Tribunal porque criámos um conjunto de condições dignas de conforto que leva muitas vezes o Juiz de Valença vir até Paredes de Coura porque tem espaço aceitável. Nós Município, fizemos obras no Tribunal, apesar de uma burocracia imensa, e conseguimos por menos dinheiro colocar o imóvel em condições de prestar serviço aos cidadãos.

P - Conseguiu convencer muito da diáspora de Paredes de Coura a voltar ás origens e trazerem alguma capacidade de investimento?
R - Nós temos uma geminação com Cenon perto de Bordéus reparei que há muita gente ativa. Temos de continuar a fazer o trabalho, que não conseguimos, de motivar esses portugueses a regressarem novamente para Paredes de Coura.

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