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Vêm aí as comunidades de energia renovável

Entrevistas

2020-11-07 às 07h00

José Paulo Silva José Paulo Silva

Raul Cunha, engenheiro do Ambiente, acredita na expansão das comunidades de energia renovável em Portugal. Em entrevista ao Correio do Minho/Rádio Antena Minho, o director geral da empresa dst solar considera que Portugal é um bom exemplo no aproveitamento das energias renováveis. Sustenta que a meta de 80% de produção de electricidade com base em fontes renováveis, prevista para 2030, passa pela massificação do autoconsumo através de centrais fotovoltaicas.

P – Sendo Portugal um país em que o sol brilha durante muitos dias do ano, por que é que este recurso natural ainda não é tão utilizado como em países aparentemente menos solarengos?
R – Portugal tem sido um bom exemplo nas energias renováveis e um bom exemplo também no aproveitamento da energia solar. Existe enquadramento regulatório desde 2008. Nesse ano apareceu o primeiro regulamento para a chamada microprodução, que permitia a uma família ter na sua habitação uma pequena central fotovoltaica. Em 2011, apareceu nova legislação designada de minigeração. As unidades industriais passaram a poder produzir e vender à rede electricidade com base em energias renováveis. No início de 2015, entrou em vigor aquela que foi, de algum modo, a revolução no sector, a liberalização do sector, de modo que cada consumidor de energia, residencial, de serviços ou industrial, pudesse produzir a sua própria energia eléctrica e utilizá-la para consumo próprio. Este enquadramento regulatório tem vindo a funcionar com alguma agilidade, com plataformas electrónicas que têm funcionado bem. Permitiu ao sector evoluir ao longo destes dez anos. Em função dos desafios que temos poder--se-ia ter feito mais e haver uma maior penetração das energias renováveis.

P - O que impede uma maior massificação do autoconsumo energético? Questões financeiras? Enquadramento legal?
R - Do ponto de vista das unidades industriais, que são os grandes consumidores de energia, tem-se notado, nos últimos anos, uma maior procura. Na zona do Vale do Ave, temos registado que as grandes empresas do sector têxtil procuram, de forma muito activa, as soluções de produção solar fotovoltaica.

P - Nesta fileira industrial, os custos de energia têm um peso muito relevante...
R - Exactamente. Elevados custos de energia que afectam a sua competitividade. Concretizando: durante o dia, uma unidade industrial pagará aos seu comercializador por megawatt/hora entre os 100 e os 120 euros. Esse mesmo megawatt/hora, se for produzido numa estação fotovoltaica, custa 40 a 50 euros. As soluções de autoconsumo têm permitido a grandes empresas em Portugal utilizarem a energia fotovoltaica para serem mais competitivas, em projectos com períodos de retorno abaixo dos cinco anos. Ao mesmo tempo, têm aumentado a sua sustentabilidade, têm-se tornado mais verdes. Muitos clientes de empresas exportadoras já têm a preocupação de perceber se estas já têm a energia renovável.

P - O sector fotovoltaico tem evoluído muito nos últimos tempos?
R - A evolução não é tanto no plano tec- nológico, mas mais a nível do preço. A capacidade instalada aumentou muito. Em 2008, quando falávamos em microprodução, cada quilowatt instalado custava cinco mil euros, hoje custa 500 euros. Há aqui uma mudança de paradigma verdadeiramente revolucionária, que veio permitir que a tecnologia solar se massificasse. O Governo lançou o leilão solar em 2019 e 2020. Os produtores que ganharam esses concursos comprometem-se a vender a energia a 20 euros por megawatt, muito abaixo dos preços de mercado.

P - Há cerca de um ano foi feita a revisão da legislação que enquadra o autoconsumo. O que é que mudou deste então?
R - A grande novidade do novo decreto-lei foi o aparecimento do conceito das comunidades de energia. No decreto-lei anterior estes sistemas funcionavam de forma isolada, isto é, cada indústria e cada residência tinham os seus próprios sistemas e produziam para si próprios, vendendo à rede a energia excedentária. O conceito de comunidade de energia veio alterar isso. Num condomínio residencial ou industrial podem ser instaladas várias unidades de produção de energia solar e os diferentes produtores podem partilhar e armazenar energia entre si. Qual é a grande vantagem? Posso fazer um contrato com o meu vizinho para lhe vender energia excedentária a um preço um pouco mais alto do que venderia à rede. O meu vizinho estará a pagar-me a um preço mais baixo do que pagaria a um comercializador. A energia solar fotovoltaica, se usada no âmbito de uma comu- nidade de energia, optimiza o seu funcionamento e, do ponto de vista económico, passa a ser ainda mais interessante e competitiva.

P – Partindo do trabalho da sua empresa, já há experiências interessantes de comunidades de energia, empresariais e residenciais?
R - Sim. Estamos a desenhar projectos. No próprio ‘campus’ da dst está em implementação uma comunidade de energia renovável. Temos um ‘living lab’ para ver como as coisas podem vir a funcionar.

P - Não há comunidades de energia a funcionar?
R - Estão a ser preparadas. No início do próximo ano estarão a ser implementados no terreno alguns projectos.

P - Há mais interesse da comunidade empresarial ou de condomínios residenciais?
R - Os empresários são mais activos na procura destas soluções, porque o custo de energia é-lhes bastante penalizador. No sector industrial, tudo o que seja reduzir custos energéticos é bem vindo.

P - As comunidades de energia são um conceito bastante interessante para os vulgarmente chamados parques industriais?
R - Esses parques industriais serão concerteza os principais clientes deste novo conceito. Nos parques existe mais facilidade para implementar este novo conceito que vive da proximidade geográfica. Dizer que qualquer pessoa consumidora de energia pode ser também produtora, na sua residência, num pequeno comércio, numa pequena ou grande indústria. Qualquer pessoa que tenha um contrato de compra de energia pode também produzir energia eléctrica solar. O procedimento é simples numa plataforma electrónica que tem funcionado. A nova legislação trouxe alguma simplificação para as pequenas instalações até 30 quilowatts. E estão isentas de taxas.

P - A entidade reguladora (ERSAR) levantou algumas dúvidas quanto à justeza dessas isenções, que poderão diferenciar consumidores. Tem opinião sobre esta matéria?
R - Aproveito essa pergunta para falar daquilo que são os nossos desafios. As empresas de energias renováveis têm dois objectivos: contribuir para que os seus clientes sejam mais competitivos e, por outro lado, contribuir para a descarbonização da economia e para a transição digital.

P - O autoconsumo energético que peso pode ter nesses processo de descarbonização?
R - Temos em Portugal um documento enquadrador, que é o Plano Nacional de Energia e Clima (PNEC) 2030, que define um conjunto de objectivos. O grande objectivo é reduzir a emissão de gases com efeito de estufa entre 45 e 55%, quando comparado com 2005, ou seja, em 25 anos. É um objectivo desafiador. Se o partirmos em objectivos mais pequenos, prevê-se que a energia renovável seja 47 % do total em 2030. Em 2016, íamos em 28%. Se partirmos ainda mais, para 2030 temos comos objectivos que 80% da produção de electricidade tenha como base fontes renováveis;?que o sector dos transportes tenha 20% de utilização de energia renovável; que, no contexto do aquecimento/arrefecimento das casas, 38% tenham como base fontes renováveis. Temos, nesta altura, 5 500 megawatts de energia eólica instalada, 7 000 megawatts de energia hídrica e só 1000 megawatts de energia solar. Percebe-se que os locais com potencialidade para a produção de energia eólica e hídrica estão mais ou menos ocupados. O caminho de ampliação da produção de energia renovável para cumprirmos os objectivos do PNEC terá de passar pela energia solar. O leilão solar vai permitir a instalação de grandes parques com a instalação de grande potência num período muito curto, mas o autoconsumo tem grandes vantagens, desde logo porque a produção é junto ao local de consumo, não havendo necessidade de sobrecarregar as redes de transporte. Em vez de ocuparmos solo, utilizamos telhados que são áreas mortas. O autoconsumo tem vantagens e potencial para ser utilizado de uma forma mais massiva do que tem sido até agora, contribuindo para que o país atinja os seus objectivos do ponto de vista climático e para que as empresas sejam mais competitivas e criem mais emprego. Os objectivos a que Portugal se obrigou a cumprir são muito ambiciosos. Facilmente se percebe que, do ponto de vista regulamentar e do ponto de vista técnico, haja incentivos para que as pessoas e as empresas possam, de uma forma tão massiva quanto possível, recorrer a fontes renováveis para produzirem a sua energia. Neste momento, a prioridade do Governo é, naturalmente, a covid-19 mas, daqui a algum tempo, o tema das alterações climáticas surgirá como a principal preocupação.

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