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Braga

2020-07-13 às 06h00

Marta Amaral Caldeira Marta Amaral Caldeira

São marido e mulher, partilham o dia-a-dia no ofício que os juntou no amor e no trabalho: a arte da cestaria, em Esporões. As suas peças de arte são exportadas para o mundo.

É bem mais que o amor aquilo que une Rosa e Manuel Oliveira. Casados há 33 anos, a vilaverdense e o bracarense dedicam-se à arte da cestaria, num ateliê montado nos baixos da sua casa. É lá, no número 14 da Rua das Granjas, na freguesia de Esporões, que passam os dias, ‘tecendo’ com as mãos talentosas verdadeiras peças de arte em vime. Algumas delas são para exportar para o estrangeiro para grandes marcas de moda. Por aqui a pandemia não fez estragos e todos os dias continuam a laborar com a energia que podem para executar o máximo de peças por dia.
Juntos, já passaram por muito. Hoje, vivem condicionados pelas ‘leis do mercado’, mas graças à sua vontade, persistência e ‘amor à arte’, continuam a fazer aquilo que mais gostam: o artesanato. Começaram por fazer cestas para vender para as feiras, mas, actualmente, trabalham directamente com algumas empresas e fashionistas realizando os mais diversos artigos e produtos em vime, desde camas de bebé a pochetes e malas que toda a mulher gosta de usar. Natural de Esqueiros, Vila Verde, foi com os tios, seus padrinhos de baptismo, que Rosa aprendeu na juventude a arte da cestaria. “Ainda fui aprender costura e bordados mas não me fascinou como a cestaria. E tal como eu aprendi, também os meus irmãos aprenderam e trabalhámos juntos durante muito tempo”, recorda a artesã, lembrando que esta era uma actividade muito rentável e que estes eram produtos com grande ‘saída’ no mercado. “Havia uma grande procura”, disse.
Os cestos de vime usavam-se em tudo. Nos lares e nos cafés e restaurantes, em vários tipos de labor, com cestos maiores e mais pequenos. Depois foi a moda dos móveis. Tudo podia ser feito em vime, desde cadeiras e cadeirões, a mesas e arcas, malas e até os pescadores tinham por tradição usar um cesto apropriado em vime para colocar o isco e levar a cana. “Chamava-se cacifre”, atira sentada no banco em que passa horas a fio a entrelaçar as fitas de vime, já vergadas e amaciadas para serem transformadas em coisas novas, coisas da moda.
Rosa tinha 25 anos quando encontrou Manuel. Já era, então, uma profissional da cestaria. Ele, cerca de quatro anos mais velho, era maleiro em Braga. Trabalhava na antiga ‘Malas Ferreira’, em Infias. Os interesses eram comuns e foi já casada que Rosa se estabeleceu por conta própria e as encomendas eram tantas que Manuel passou também a dedicar-se 100 por cento à arte, fazendo companhia à mulher. Já lá vão 15 anos. Hoje trabalham com algumas empresas e clientes em nome individual, nomeadamente de Santa Maria da Feira, Penafiel, Famalicão e Guimarães e para marcas de moda internacionais.
Pelas suas mãos já passaram dezenas de milhar de peças em vime, de várias dimensões, mas mantendo sempre o mesmo estilo de execução precisa e consistente, tornando cada peça uma peça única. “Temos muito orgulho naquilo que fazemos, embora gostássemos que este nosso trabalho, tão antigo, tão típico, tão nosso, fosse um pouco mais reconhecido, pois temos todo o interesse em divulgá-lo junto das novas gerações”, afiançam. “Estamos aqui todos os dias. Trabalhamos neste ofício de que tanto gostamos e gostaríamos de passar esta mensagem aos mais novos. Já recebemos visitas e estamos sempre de portas abertas, seja a escolas, seja a instituições, para partilhar a nossa arte”.

“É uma arte bonita, não é?”. Para Rosa e Manuel Oliveira, o artesanato “tem todo o valor do mundo”. “Devia era ser mais divulgado, até junto das escolas”, diz o casal, que garante ter sempre as portas abertas para receber visitas e interessados em assistir, ‘ao vivo e a cores’, a uma aula de artes e ofícios de longa tradição no país. Confessam, todavia, a tristeza de ver poucos a manter a actividade até aos dias de hoje.
“Aprendi muito ao lado da minha esposa, desde que decidi ficar a trabalhar com ela nesta nossa oficina, apoiando-a neste projecto dedicado a uma arte tão bonita quanto esta da cestaria. Já somos tão poucos a dar continuidade a esta arte... mas quando gostamos realmente de algo, como me aconteceu neste caso, há que agarrar na oportunidade e tentar ir mais além”, contou Manuel, garantindo que foi a melhor escolha que poderia ter feito na vida, apesar de ter que batalhar muito.
“Nessa altura em que eu decidi vir trabalhar com a minha esposa, tínhamos mesmo que ‘dar o salto’ porque os plásticos vieram mudar muito o estilo de vida e hábitos das pessoas... O negócio agravou ainda mais com o surgimento das ‘lojas de 300’ e com artigos mais baratos, mas sem a qualidade do nosso produto. Isso é inigualável em qualquer arte artesanal”, disse. “Os artesãos deixaram de ter encomendas e o mundo do artesanato começou a cair... mas nós decidimos que íamos dar a volta”.
E a volta aconteceu até porque havia uma família para sustentar. “A nossa única hipótese era ir atrás do mercado e batemos a muitas portas até que conseguimos o interesse de uma empresa de Santa Maria da Feira que nos pediu uma encomenda uma linha de artigos para bebé. Foram cinco mil peças que criámos para essa primeira encomenda e foi aí que se deu a nossa reviravolta”.
Nessa altura valeu-lhes o apoio de João Silva, antigo e conceituado cesteiro de Esporões, que trabalhou na arte até aos 87 anos, precisamente até há um ano atrás. Apesar da idade, o artesão lembra-se bem da época de ouro da cestaria, que sempre foi o seu ofício num grande armazém/loja que outrora existiu na Rua de S. Mar- cos. “Chegaram lá a trabalhar mais de 40 homens e mais de 30 mulheres”, lembrou. “Eu ainda trazia trabalho para casa e acabei por montar a minha oficina também, onde sempre trabalhei a partir do momento em que me reformei até há bem pouco tempo”, lembrou.

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