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UMinho trabalha num plano de normalidade condicionada
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Entrevistas

2020-09-01 às 06h00

José Paulo Silva José Paulo Silva

Ano lectivo é preparado na Universidade do Minho com vários cenários alternativos para fazer face à evolução da pandemia. Reitor admite que aulas presenciais não serão possíveis para todos.

P - O ano lectivo findo foi completamente atípico para as instituições de ensino superior. Olhando para trás, que balanço faz?
R - Foi um ano difícil. Na ocasião em que apresentámos no Senado Académico o nosso plano de contingência, quando a epidemia se ia perfilando, recordo algum ar de cepticismo com que alguns membros olhavam para esse plano. Fomos percebendo, mesmo não entendendo muito bem o que podia vir a significar a pandemia e os seus impactos, que a nossa reacção seria tanto mais adequada quanto tivesse havido o necessário planeamento. Foi por isso que decidimos avançar com a comissão encarregada de elaborar e gerir o plano de contingência. Isso criou-nos alguma consciência sobre as medidas que valia a pena tomar. Não quer dizer que não passámos momentos difíceis, porque tudo se desencadeou de uma forma muito rápida, mas tínhamos balizas do que deveríamos fazer. Quando decidimos assumir que, até final do ano lectivo, a nossa actividade de ensino iria ser sobretudo não presencial - fomos das primeiras instituições a fazê-lo - a preocupação foi construir referenciais de alguma estabilidade.

P - Houve grandes perdas a nível da qualidade do ensino?
R - O projecto de educação da Universidade do Minho (UMinho) é presencial, não somos uma universidade de ensino à distância. É a esse normal funcionamento que aspiramos regressar tão depressa quanto possível. A verdade é que tivemos de dar uma resposta de emergência, com todos os problemas que isso traz. Foi um processo extremamente rápido. Numa semana passámos de regime presencial para regime à distância. Isto não se faz sem perdas. A situação era crítica. Numa primeira fase, por decisão governamental, tivemos de encerrar edifícios; numa segunda fase, por decisão nossa, suspendemos a actividade lectiva presencial. Entre essa decisão e a entrada num regime de alguma normalidade mediaram muitos poucos dias. A resposta que a UMinho deu foi muito boa. Tenho uma convicção muito forte sobre aquilo que são os ganhos para a formação de nível superior que decorrem não apenas duma relação directa entre os estudantes e os professores, mas também do alargamento de experiências que decorre para os estudantes do envolvimento num conjunto diversificado de práticas culturais, recreativas e desportivas.

P - O sentido de ‘campus’ perdeu-se?
R - Exactamente. O sentido de ‘campus’ como nós o fomos construindo perdeu-se. É bom que reconheçamos que houve coisas que se perderam, mas nós estávamos numa situação de absoluta emergência. O que importa avaliar é se, nessas circunstâncias absolutamente novas, a instituição foi ou não capaz de reagir de forma a salvaguardar o essencial. Sinto-me orgulhoso daquilo que a UMinho foi capaz de fazer.

P - No período mais agudo da pandemia, muita gente pensou que o ano lectivo estaria perdido…
R - Esse pensamento atravessou a mente de muitas pessoas. Se não tivéssemos tido a capacidade de resposta que tivemos, o cenário teria sido bastante pior. Com perdas que as houve, face a situação inesperada, a UMinho reagiu muito bem. Fomos capazes de perceber muito rapidamente que a mobilização dos professores em novas modalidades de ensino que requeriam formação tinha de ser garantida. Julgo que parte do nosso sucesso terá passado por aí. Não quero dizer com isto que não tenha havido situações críticas, mas numa avaliação global, aquilo que fizemos foi muito e fizemo-lo bem. Ter feito aquilo que fizemos permitiu-nos equacionar, em meados de Junho, aquilo que vai ser o novo ano lectivo. Já vamos mais bem preparados.

P - Tendo em conta a incerteza sobre a evolução da pandemia, como é que a UMinho está preparada para o próximo ano lectivo?
R - No final de Julho refizemos o nosso plano contingência, definindo vários cenários e medidas que decorrem dos impactos potenciais que a pandemia pode vir a ter na nossa actividade. Podemos vir a ter um cenário mais favorável, de uma nova normalidade, em que disporemos de vacina e a utilização quase normal dos espaços, até uma situação de quase suspensão da nossa actividade lectiva presencial. Entre os dois extremos, consideramos outros dois cenários, um de normalidade condicionada, que é o que estamos a procurar desenhar para os primeiros tempos do próximo ano lectivo, e outro em que o ensino à distância tem um peso muito significativo.

P -?A declaração do período de contingência a partir de 15 de Setembro veio alterar os cenários?
R - O cenário em que estamos a trabalhar é o de normalidade condicionada. Queremos colocar ênfase forte na actividade presencial, mas sabemos que o conjunto de regras definidas pelas autoridades de saúde nos impõem constrangimentos, sobretudo ao nível da utilização dos espaços.

P - É possível quantificar o peso que terá o ensino não presencial?
R - Não. Temos cursos de natureza muito diversificada. Cursos com uma elevada intensidade laboratorial requerem maior presença dos alunos. Isto não se pode resolver com uma regra universal para todos os cursos. Melhor do que ninguém, as unidades orgânicas saberão encontrar a forma adequada de operacionalizarem as orientações da UMinho. Queremos privilegiar o ensino presencial. Por isso alargámos a semana lectiva ao sábado e o horário normal passou a ser das 8h00 às 20h00. E fizemos a mobilização de todos os nossos espaços para as actividades de ensino e investigação. Isto permite-nos encarar com alguma segurança e expectativa de sucesso esta opção, que é muito reforçada nos estudantes de 1.º ano de licenciatura e mestrado. Um estudante que chega ao ensino superior aspira ser envolvido num conjunto de práticas lectivas e outras que se estruturam na base das relações pessoais presenciais.

Parece haver desinteresse em resolver problema do alojamento estudantil

P - Parte dos estudantes que vão entrar este ano na UMinho necessitarão de alojamento. O problema da UMinho, se já era premente, ganhou agora nova dimensão. Que respostas podem ser dadas?
R - A este respeito, evoluí de um nível de preocupação muito elevado para a convicção de que vamos ser capazes de responder de uma forma não penalizadora para os estudantes. Estará lembrado do momento em que responsáveis do sector disseram que não se poderia pensar na coabitação de estudantes no mesmo quarto. Um cenário desses seria desastroso, seria reduzir a nossa capacidade em 50%. Apesar de termos um número elevado de camas, também temos um número elevado de bolseiros. As camas que temos não são suficientes. Felizmente, a Direcção-Geral de Saúde veio dizer uma coisa diferente:?é preciso atender às distâncias, mas é possível ter mais do que um estudante por quarto. Já estávamos a trabalhar nesse cenário e começado a planificar intervenções nas residências. Já houve validação das autoridades de saúde, o que nos deixa mais confortáveis.

P - Independentemente da pandemia, há uma carência efectiva de alojamento estudantil em Braga e Guimarães.
R - O Governo lançou o plano de alojamento para estudantes do ensino superior há dois anos, que, no nosso caso, não teve qualquer impacto. Estamos como estávamos. Podemos vir a estar pior se aumentar o número de estudantes. Isso é mau. O que seria desejável era o Estado assumir, definitivamente, a necessidade de um programa de construção de residências universitárias. Os custos com alojamento são muito pesados para as famílias. Seria bom que houvesse iniciativa privada capaz de complementar a oferta do Estado. Sei que há vários projectos em desenvolvimento, mas o que é certo que não estamos, objectivamente, diferentes do que estávamos há um ano em matéria de alojamento estudantil. Isso é mau.

P - Em Braga, a solução Fábrica Confiança até que ponto é equacionada pela UMinho?
R - Neste momento não é, muito francamente. Quando foi lançado o programa nacional de alojamento, foram identificados dois edifícios: a antiga Escola D. Luís de Castro e o edifício do Exército em S. Tecla, que apareceram elencados num decreto-lei. São edifícios propriedade do Estado que poderiam mais facilmente transformados em alojamento, mas nada aconteceu. O país tem feito um esforço muito grande de recrutamento de estudantes, mas há sempre um risco, se estivermos dependentes da oferta privada em termos de alojamento. Infelizmente, este problema não está a ser adequadamente resolvido. Parece haver algum desinteresse, não se percebendo a gravidade da situação.

P - Não antevê soluções transitórias que possam responder ao aumento das necessidades de alojamento?
R - Estive recentemente com o presidente da Câmara Municipal de Guimarães e esse foi um dos assuntos de conversa. Foi aventada pelo Governo a possibilidade utilização de alojamento local disponível. Mas este anúncio até agora foi inconsequente. Vínhamos já trabalhando com a Câmara Municipal de Guimarães no sentido de perceber se havia disponibilidade dos agentes de alojamento local para serem parte da resposta a esta necessidade. A?Câmara está a fazer o levantamento e pode daí sair uma solução, provisória que seja.

P - A pandemia agravou os problemas financeiros da UMinho?
R - A UMinho tem um orçamento fortemente devedor das actividades de investigação e de prestação de serviços. Quando a economia tem quebra abruptas como a que está hoje a passar, não se pode esperar que a UMinho fique imune. Há aqui um impacto que nós não temos ainda condições de avaliar na sua totalidade, mas que vai ser expressivo. Com o previsível agravamento da situação económica do país, que vai afectar a capacidade das famílias em terem os seus mais novos a estudar, vai haver um impacto sobre a receita de propinas.

P - Esse impacto já se verificou?
R - Neste início de Setembro vamos ter capacidade para avaliar esse impacto. Onde o impacto vai ser também expressivo é ao ao nível dos estudantes estrangeiros. Estamos a perceber um agravamento da situação em vários países onde habitualmente a UMinho capta estudantes. Vamos ter por aí alguma quebra. Há um conjunto de factores que contribuem para a redução das nossas receitas. Também é verdade que houve despesas que a UMinho deixou de fazer, mas não compensaram a perda de receitas, porque os nossos custos assentam muito nos recursos humanos.

Concurso nacional
Universidades sem recursos humanos para acolher todos os candidatos

P - Como académico, vê alguma explicação para o aumento de candidatos ao ensino superior no actual contexto?
R - Há um conjunto de factores. Tem havido, nos últimos anos, um contínua superação dos números de candidatos, o que traduzirá um reconhecimento social acrescido da educação superior. Outro factor decorre do processo de candidatura ao ensino superior, designadamente os exames do ensino secundário com resultados positivos em disciplinas onde, tradicionalmente, havia taxas de insucesso elevadas. Acho esta subida importante, porque significa que mais pessoas teremos qualificadas ao nível superior.

P - Tem alguma expectativa de qual será o aumento do número de alunos da UMinho no próximo ano lectivo?
R - Não sabemos ainda. É importante sabermos quais são as vagas que vão ser ocupadas por estudantes internacionais, considerar o nosso histórico, fazer uma projecção e alocar novas vagas a alguns dos nossos cursos. O que acontece é que, em alguns casos, não temos recursos humanos suficientes para acomodar todos os estudantes que gostariam de engrossar nas universidades.

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