Correio do Minho

Braga, quarta-feira

- +
Trabalhar de mãos dadas com o medo e a falta dos abraços
Câmara Municipal da Póvoa de Lanhoso apoia famílias no pagamento da água

Trabalhar de mãos dadas com o medo e a falta dos abraços

Monumentos minhotos recebem 1,3 ME para obras de requalificação

Trabalhar de mãos dadas com o medo e a falta dos abraços

Braga

2021-02-22 às 06h00

Patrícia Sousa Patrícia Sousa

Nos lares com pessoas com deficiência, as auxiliares de acção directa têm sido os “anjos da guarda” de todos. Na linha da frente, com medos e muitos receios, conseguem cuidar e amar mesmo sem o que lhes faz mais falta: o abraço. A questão emocional será uma cicatriz difícil de curar.

“Não é o que você faz, mas quanto amor você dedica no que faz que realmente importa.”
Madre Teresa de Calcutá

Têm sido tempos difíceis. Mas há quem dê as mãos ao medo e vá trabalhar todos os dias para cuidar de pessoas com deficiência. Medo de levar o vírus para dentro da instituição e infectar os jovens e os adultos, muitos deles acamados e frágeis. Medo de infectar a própria família. Mas o que mais custa, dizem, é não dar abraços. A falta do toque será o mais difícil de cicatrizar.
Manuela Gomes trabalha no lar de Lomar da Associação Portuguesa de Pais e Amigos do Cidadão Deficiente Mental (APPACDM) de Braga desde 1998 como ajudante de acção directa. “Tem sido um verdadeiro desafio, todos os dias são diferentes”, afirmou Manuela Gomes, confidenciando que “é gratificante chegar ao final do dia” e sentir que cumpriu a missão. “Estou mesmo muito satisfeita, é prazeroso e sentimo-nos úteis”, assegurou.
No início da pandemia, o Lar de Lomar teve um surto. “Praticamente fomos todos apanhados desprevenidos. Quase toda a equipa ficou infectada e eu fui uma das piores. O último teste que fiz foi em Junho e só regressei em Julho”, lembrou.

Passados todos estes meses, as ajudantes de acção directa continuam a ter “todo o cuidado”. “Não quero levar o vírus para casa, mas também não quero ter a responsabilidade de o trazer para cá. Estamos todos a trabalhar no bom sentido para continuar a combater esta pandemia”, garantiu Manuela Gomes.
Como o lar está inserido numa quinta, os clientes tiveram sempre a oportunidade de sair para o exterior e fazer actividades ao ar livre. “Quando está bom tempo saímos para a quinta e isso ajuda os nossos meninos. Tentamos fazer da melhor forma para que corra tudo bem e eles estejam bem”, contou.
Para Fernanda Miranda, que trabalha há cerca de dois anos na Associação de Pais e Amigos das Crianças Inadaptadas (APACI), em Barcelos, “é complicado descrever por palavras” tudo o que se está a viver.

“Temos altos e baixos. A pressão aumenta quando cá fora a situação se complica. A minha responsabilidade enquanto potencial foco de infecção também aumenta. Esses momentos são de alguma pressão”, confidenciou a auxiliar de acção directa, sabendo que pode ser “a causa de levar o vírus” para a instituição. “Os nossos utentes estão isolados desde o início e tem sido uma estratégia positiva. Por isso, se vier a acontecer um foco de contágio será sempre de fora para dentro, pode haver uma excepção no caso de hospitalização de algum dos utentes”, constatou a auxiliar de acção directa.
A ideia de levar o vírus para o lar foi, em alguns momentos, “penosa” e, no início, foi essencial afastarem-se dos utentes. “Foi o que mais me custou. A ideia de não poder estarmos tão próximos como gostaríamos é terrível. São utentes que gostam muito do contacto físico, de abraçar e de tocar e ter que recusar esse contacto é confuso e é estranho”, partilhou Fernanda Miranda, admitindo que, às vezes, “é uma avalanche de emoções e sentimentos muito estranhos”.

O “mais difícil de gerir”, confessou a colaboradora do lar, é a relação com os utentes mais autónomos. “Aqueles utentes que têm alguma percepção da realidade, mesmo que distorcida, têm dificuldade em perceber que não podemos tocar nem aproximar, que não podemos abraçar nem ter o contacto que tínhamos antes”, relatou a auxiliar de acção directa, referindo que “é notório que estas alterações nas rotinas e nos afectos lhes estão a causar muito desconforto e alguma instabilidade”.

Fernanda Miranda contou que nos meses de Março e de Abril do ano passado houve “um sentimento mais forte”. A auxiliar de acção directa justificou: “a alteração dos procedimentos de higienização trouxe tanta preocupação no sentido da protecção de todos, que acabávamos por ‘roubar tempo’ e ‘desviar atenção’ do nosso trabalho aos utentes para esses detalhes. Trocar equipamento de protecção individual e ter que desinfectar tudo e mais alguma coisa a toda a hora acabou por ser quase paranóico e perturbador”. Hoje continua a ser assim, mas passou a ser rotina. “No início foi muito complicado, era muita pressão e o nosso objectivo enquanto cuidadores é manter em segurança e saúde os nossos meninos”, garantiu.

Também Lurdes Silva, que trabalha há 15 anos no lar da APACI decidiu ‘agarrar os touros pelos cornos’ desde o primeiro dia. “Não tenho medo, fazemos sempre o nosso melhor e esperamos que passe rápido, porque não é fácil. Temos de estar sempre preparadas, o que me custa mais psicologicamente é a falta do toque, o não poder abraçar nem brincar com eles como fazíamos”, contou emocionada.
“Os nossos meninos são tão necessitados de afecto e sentem falta do toque e do abraço”, desabafou, contando que lhe custa ouvir os mais autónomos dizerem que já não querem dar abraços. “Eles sentem falta do toque e do abraço e isso é o que mais me incomoda e me deixa mais de rastos”, assegurou.

Hoje, os utentes já percebem melhor a situação. “Para ajudar a atenuar, chego ao pé deles e dou um abraço a mim e até danço e eles ficam logo todos contentes. Temos que arranjar técnicas para que eles não sintam a falta do nosso afecto”, referiu a colaboradora, confidenciando que tem “muito orgulho” e gosta muito do trabalho que faz.

Há “cicatrizes” a curar entre a resiliência de quem cuida

Os tempos não têm sido fáceis para as instituições, sobretudo aquelas que têm a valência de lar residencial para pessoas com deficiência. Maria José Bastos, coordenadora do lar residencial da APACI, em Barcelos, confessou que os colaboradores que estão no terreno “vivem com a incerteza e com o medo que o vírus possa entrar a qualquer momento, por mais cuidados que se tenham”.
Utentes e colaboradores já levaram a segunda dose da vacina, mas nem isso os deixa tranquilos. “As colaboradoras estão no terreno todos os dias e o receio de vir trabalhar e trazer o vírus para cá ou levar para casa é terrível e vivem com um medo constante”, confirmou.
Com nove auxiliares de acção directa e 24 utentes em lar, a situação “ainda se está a gerir”. “Muitos dos utentes estavam habituados a ter uma vida praticamente normal, desde fazer compras a actividades no exterior e de um dia para o outro dizer-lhes que não podiam sair do lar não foi fácil”, lembrou Maria José Bastos, recordando que alguns utentes entraram mesmo “em processo de negação”, acreditando que estavam a ser castigados por alguma situação.

“Não foi fácil, sobretudo, para os utentes que estavam habituados a ir ao fim-de-semana a casa”. Com o tempo, “começaram a aceitar melhor”.
No futuro, a coordenadora do lar sabe que “terá muitas cicatrizes para curar na relação com os utentes e com a família”. Maria José Bastos explicou: “vamos ter que trabalhar o regresso à família, porque estão quase há um ano sem sair do lar, e sente-se uma ânsia extrema de liberdade e vamos ter que gerir tudo isso de forma doseada e com muita calma”.

Também o animador socio-cultural referiu que o “mais complicado” de gerir é a questão emocional e a factura a pagar no futuro será muito elevada, sendo que a questão física também não pode ser descurada. “Os utentes perderam actividades e rotinas e muitos deles já estão mais debilitados e outros até ganharam peso”, contou Carlos Sousa.
As videochamadas têm ajudado a dar “alguma normalidade” aos utentes, mas por outro lado também ficam “mais instáveis”.
Sobre a “resiliência das colaboradoras que estão desde a primeira hora na linha da frente”, Carlos Sousa realçou o trabalho que está a ser feito. “Temos um serviço que funciona 24 horas e as colaboradoras têm medos e receios, mas continuam a cuidar de todos. Não abandonaram o barco e tudo fazem pelo bem dos utentes”, aplaudiu.

“Falar com familiares é importante”

O Lar de Lomar da APPACDM de Braga acolhe 20 jovens com elevado défice cognitivo, “nove meninas e 11 meninos”, uns mais dependentes do que outros. “Os meninos do Lar, que funciona no primeiro piso, são muito dependentes e, durante o dia, frequentam o Centro de Actividades Ocupacionais (CAO), procurando ali desenvolver algumas actividades lúdicas e outras”, contou a directora do CAO, Isabel Martins.
As visitas, que já estiveram canceladas, foram retomadas, tendo sido criadas condições.
“Os familiares têm uma sala devidamente preparada. É muito bom, porque eles vêem e falam com os familiares e é muito importante para eles”, garantiu. Quando as visitas não são, de todo, possíveis, é-lhes proporcionado o contacto com os seus familiares, através de videochamada.
“É uma felicidade que só visto”, confirmou Isabel Martins.

Deixa o teu comentário

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.

Bem-vindo ao Correio do Minho
Permita anúncios no nosso website

Parece que está a utilizar um bloqueador de anúncios.
Utilizamos a publicidade para ajudar a financiar o nosso website.

Permitir anúncios na Antena Minho