Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Se a pessoa estiver informada é mais fácil aceitar a morte
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Se a pessoa estiver informada é mais fácil aceitar a morte

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Entrevistas

2018-04-03 às 09h08

Patrícia Sousa

Reanimar? é a primeira obra do médico António Maia Gonçalves, que faz uma reflexão sobre várias questões éticas da vida e da morte, que se colocam em sede de Cuidados Intensivos.

A morte é a curva da estrada. Morrer é só não ser visto. Se escuto, eu te oiço a passada. Existir como eu existo.
in Fernando Pessoa

Porque é preciso desmistificar o ambiente hospitalar e deixar a mensagem que os profissionais de saúde procuram dar um ambiente muito humanizado aos doentes, o médico António Maia Gonçalves decidiu publicar o livro Reanimar?. O livro é uma reflexão sobre as questões éticas da vida e da morte que se colocam em sede de Cuidados Intensivos. Mas há mais motivos para o autor se ter aventurado neste projecto: a bioética é para as pessoas, não tem interesse se ficar apenas na faculdade e no hospital. Depois há muita confusão instalada e a pessoa precisa de paz e se estiver informada é mais fácil aceitar a morte.
Com prefácio de Mário Cláudio, a obra conta histórias reais e concretas de pacientes com que o médico viveu momentos limite. De resto, o livro expõe a realidade de quem vive no limite da vida e com a vida no seu limite.
Especialista em Cuidados Intensivos, António Maia Gonçalves dirige, actualmente, a Unidade de Cuidados Intensivos e Medicina Interna da Casa de Saúde da Boavista, no Porto, e exerce também no Hospital de Braga, onde dirige a formação.

Uma pessoa chega aos cuidados intensivos normalmente por causa de uma doença súbita e inesperada. Imagina-se uma mãe que vê um filho nos Cuidados Intensivos, quando o viu a sair de casa de manhã para ir para a faculdade, começa por questionar o médico. E António Maia Gonçalves continua: normalmente, o doente está ventilado e entubado e é assustador. Compete ao médico transmitir que o doente está a ser bem tratado, cuidado e confortável. Essa é a paz que se pode dar nestes momentos de grande aflição.
E como é dar as notícias más. Há técnicas que se aprendem, mas depois na realidade cada caso é um caso. Temos sempre que ter alguma franqueza e verdade para dar as notícias. Temos que dar tempo às pessoas para ir gerindo a informação e às vezes temos que adaptar o discurso a cada pessoa, porque a capacidade de absorver a informação também não é igual, explicou o médico, garantindo que sofre muito mais a família que o doente, por isso, tenta-se apoiar muito a família. Até porque, ainda de acordo com António Maia Gonçalves, ver uma pessoa em coma ligada às máquinas e com um tubo na garganta é assustador. Mas quando os familiares vêm o ambiente de tranquilidade e serenidade que se vive nos Cuidados Intensivos acabam por ter alguma tranquilidade.

Sobre a reanimação, o médico contou que se iniciam as manobras e se ao fim de 20 a 30 minutos não estão a ter sucesso é muito fácil tomar a decisão, porque clinicamente isso é indicador da irreversibilidade da situação. Difícil é, confirmou o autor da obra, decidir não reanimar e quando se decide isso. Aqui o médico foi peremptório: teoricamente devia estar escrito no processo de pacientes com doenças crónicas, que não se devia iniciar manobras de reanimação. A verdade é que raramente isso está explícito no processo. Temos de tomar essa decisão e não é fácil, porque há situações que não se devem reanimar. É má prática fazê-lo, porque isso é obstinação terapêutica, encarniçamento, distanasia. Como uma decisão dessas não tem reversibilidade, deve ser muito bem ponderada e, na dúvida, reanima-se, defendeu o médico.

Outra temática abordada no livro é a eutanásia. Acho que as pessoas têm medo é da distanasia ou do encarniçamento terapêutico. Acho que há muita confusão nas pessoas em relação à eutanásia. Não faz sentido nenhum participar numa coisa que se chama suicídio assistido. Há uma grande confusão. As pessoas têm todo o direito de ter a sua opinião, mas têm de se informar devidamente sobre isso, desafiou.
O médico aproveita também para falar do testamento vital, porque considera que surgiu quase como um sinal de modernidade, mas a informação que passa é descontextualizada. E justificou: o médico tem, em consulta, obrigação perante um doente crónico de o consultar se numa fase avançada da doença quer ser sujeito a determinadas práticas médicas. Aqui faz todo o sentido. Agora, uma pessoa que tem 40 ou 50 anos e é saudável não faz sentido nenhum tomar uma decisão dessas. Por isso, o autor deixou o desafio: se tivermos informados, tomamos decisões mais acertadas.

O que devia ter sido uma hora feliz não foi e não é fácil lidar com isso

A obra conta muitas histórias de doentes que o médico António Maia Gonçalves seguiu durante mais de 20 anos, mas há histórias que foram momentos de grande tensão. E o médico destaca aqui uma história que foi muito dura e que aconteceu ainda no Hospital S. Marcos.
Ainda estava há pouco tempo no hospital e, no fim de um turno de 24 horas de serviço fui chamado à sala de emergência e era um menino com três ou quatro anos, que estava em paragem cardio-respiratória. E António Maia Gonçalves continuou: lido muito mal e é para mim desconfortável quando se trata de crianças e ainda por cima era um hospital em que estava há pouco tempo, depois estavam lá os pais, sendo que a mãe estava grávida de final do tempo. Não foi nada fácil. No meio dessa insegurança toda contou com uma enfermeira santa que o ajudou, mas ao fim de 30 a 40 minutos percebeu que não ia ter sucesso. Vim cá fora falar com os pais. A mãe começou a entrar em trabalho de parto e recusava qualquer apoio. O pai estava completamente devastado. O pai não disse nada e eu fiquei ali sentado ao lado dele sem dizer nada. Ao fim de algum tempo, disse que tínhamos de ir lá cima para ajudar a mulher, recorda, ainda emocionado com a história.
Aquele momento, continuou o médico, que deveria ser uma hora feliz não foi de facto uma hora feliz. Passados três anos, o pai foi ao hospital falar com o médico. Este é o melhor presente que um médico pode ter. Quando uma coisa correu mal e passados uns anos a família vem ter connosco dá muita paz ao profissional, confidenciou.

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