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Raul Cunha: "Estou disponível para consensos com a oposição"
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Raul Cunha: "Estou disponível para consensos com a oposição"

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Entrevistas

2018-01-13 às 06h00

Rui Alberto Sequeira

Raul Cunha foi reeleito presidente do Município de Fafe sem maioria absoluta. Independente pelo PS, teve o seu nome imposto pela direcção nacional do partido levando a uma cisão nos socialistas fafenses.

Raul Cunha foi reeleito presidente do Município de Fafe sem maioria absoluta. Independente pelo PS, teve o seu nome imposto pela direcção nacional do partido levando a uma cisão nos socialistas fafenses. Afirma-se disponível para negociar consensos com a oposição, num mandato que privilegia o investimento com recurso ao financiamento comunitário.

P Nas autárquicas de 2013 venceu por 17 votos de diferença, mas sem maioria absoluta. Uma vitória que repetiu nas últimas eleições sendo reeleito para um segundo mandato, uma vez mais com indefinição até ao fim em relação à obtenção da maioria absoluta, que acabou por não conseguir. Usando uma terminologia muito própria do futebol pode afirmar-se que foram dois actos eleitorais impróprios para cardíacos.
R É verdade. Quer em 2013, quer em 2017, foram eleições muito disputadas e até um pouco atípicas. Por circunstâncias variadas manifestou-se a força dos grupos alegadamente independentes e criaram dinâmicas que deram origem a este resultado em 2017, que, apesar de tudo, foi mais folgado do que nas eleições de 2013.

P Ainda assim voltou a não obter uma maioria absoluta para governar a Câmara Municipal de Fafe (CMF).
R Não conseguimos a maioria que achávamos que merecíamos e para a qual trabalhámos durante quatro anos. As circunstâncias muito especiais que rodearam a última campanha eleitoral acabaram por provocar este resultado.

P Na sua opinião e pela experiência que teve por ter governado a edilidade de Fafe com maioria relativa no primeiro mandato, tendo feito um acordo pós-eleitoral com o PSD, acha que o concelho perde em não ter um executivo monocolor?
R É útil haver maiorias e consensos quanto às opções a nível partidário na acção politica nos municípios. Temos de nos concentrar na melhoria da qualidade de vida dos nossos concidadãos, passando por cima de algumas divergências pontuais ou divergências ideológicas de fundo Em Fafe tem existido a capacidade de se criarem consensos para resolver os problemas na acção política quotidiana.

P Apesar de ter conseguido esses consensos, deixou alguma coisa por fazer pelo facto de não ter tido uma maioria absoluta no anterior mandato?
R- Eu não posso dizer isso! O que não conseguimos concretizar foi ou por falta de tempo, ou por falta de oportunidade. Nós temos um tempo para fazer obra e seguramente quando chegarmos ao fim do nosso mandato não estará tudo feito. Há que criar prioridades. As prioridades principais têm de se definir à volta do Quadro Comunitário que está neste momento em plena execução. Temos de nos concentrar nisso.

P Desta vez optou não por fazer um acordo pós-eleitoral que permita governar a CMF com maioria absoluta?
R Não é por falta de disponibilidade nossa.

P Quem é que tem de dar o passo para uma aproximação de posições?
R Eu já dei. Falei com o dr. Antero Barbosa que foi o candidato à câmara de Fafe pelo movimento FS. Tivemos uma conversa afável e ambos percebemos que é necessário deixar passar algum tempo para clarificar posições.

P As clivagens no PS em Fafe que resultaram da contenda eleitoral são profundas? Ou é necessário mudar alguns actores para que se verifique essa aproximação?
R Eu sou católico e sei perdoar. Eu fui acusado nos quatro anos do primeiro mandato de me envolver, como independente, alegadamente de forma abusiva na vida interna do PS e queria neste mandato manter-me mais distante. As pessoas que estavam na Comissão Política de Fafe do Partido Socialista, neste momento não podem votar, nem ser candidatos a nível interno porque concorreram contra o PS. O que eu sei é que parece haver duas listas, de dois candidatos, um mais alinhado com os órgãos nacionais e outro menos alinhado.

P Gostaria, até para poder completar o seu projecto politico para Fafe, de ser candidato dentro de quatro anos com um PS unido à sua volta?
R Uma das confusões que rodearam o ultimo acto eleitoral foi eu ter manifestado a minha indisponibilidade para ser outra vez candidato à câmara e depois ter sido convencido a recandidatar-me, respeitando a orientação do Congresso do Partido Socialista que ia no sentido dos presidentes que estavam em exercício de funções e em condições de o fazer, recan- didatarem-se novamente. Não estou agarrado ao lugar, mas naturalmente gostaria de dar continuidade a projectos que estão em curso no concelho, mas não assumo nenhum compromisso em relação ao futuro.

P Como é que antevê a convivência com a Assembleia Municipal (AM) e com o seu presidente José Ribeiro?
R Normal. Cada um tem as suas competências. Nós sabemos que a CMF está muito marcada pela personalidade do dr. José Ribeiro. Como o próprio disse na AM, ele foi tudo na câmara: funcionário, foi vereador, vice-presidente, presidente. Depois de quatro anos de retiro sabático regressou como presidente da AM de Fafe. Mas cada um tem a suas funções definidas pela lei e se cada um respeitar as suas competências não haverá qualquer dificuldade. É evidente que aquela relação de cumplicidade e de afecto que existia entre nós, esmoreceu; temos uma relação cordial.

P Pela forma como decorreu a primeira Assembleia Municipal deste novo mandato, acredita que o relacionamento institucional vai ser tranquilo entre os dois órgãos autárquicos?
R Acredito que sim, se respeitamos as competências e nos respeitarmos como pessoas.

P Admite dar pelouros com peso politico aos vereadores da oposição, se estes se mostrarem disponíveis para os receber?
R Sim, sem qualquer preconceito. A última campanha eleitoral não foi tanto uma discussão de projectos políticos para o desenvolvimento do concelho, porque tinha havido a aprovação uns meses antes do plano e orçamento por unanimidade. Não existem divergências de fundo entre as forças políticas concelhias. O que houve foi discussões sobre questões de personalidade, de processos

P - Se fizer um acordo com o único vereador do PSD certamente irá atribuir-lhe pelouros, mas no caso do FS que tem quatro representantes, admite ir mais além na redistribuição de funções a tempo inteiro?
R - É um processo que terá de ser conversado e resultará da negociação que houver. Terá de existir um acordo politico global e não a chamada pesca á linha. O presidente da Câmara só pode nomear dois vereadores. Todos os outros são nomeados pelo órgão que é a Câmara Municipal.

P - O orçamento do Município de Fafe para este ano é de 36,5 ME. Juntamente com o plano de actividades, reflecte uma continuidade de 2017?
R - Este orçamento espelha um pouco da nossa visão do que está em causa neste mandato. Executar os projectos que estão no terreno e que foram preparados no anterior mandato. Consolidar a intervenção e o apoio social, consolidar a política de descentralização e de transferência de recursos para as freguesias (4ME) e para as colectividades e associações (2 ME). Queremos aproveitar o actual Quadro Comunitário para executar obras. É uma pena distrairmo-nos em disputas paroquiais sobre questões de poder e deixarmos passar ao lado a oportunidade para aproveitar o financiamento da União Europeia.

P - Se a situação politica continuar como até agora corre-se esse risco?
R - Eu farei tudo o que puder para que isso não suceda. Penso que do lado da oposição existirá o mesmo sentido de responsabilidade. Poderá existir alguma divergência mais de forma do que de conteúdo, num ou noutro projecto, mas nas grandes apostas para Fafe estamos de acordo. São projetos que já estão no terreno: a requalificação da Escola Secundária e do Centro Educativo Carlos Teixeira. Temos a execução do nó de acesso à zona industrial de Arões/Golães.

P - A industria têxtil em Fafe tem acompanhado a modernização e a evolução do sector?
R - Certamente. Têm surgido empresas com jovens empresários muito dinâmicos. Recentemente o primeiro-ministro visitou uma fábrica na nossa zona industrial de Socorro que foi a maior exportadora (+ de 48 ME) do norte do país. Daí a importância de fazermos nascer a zona industrial de Regadas que faz fronteira com um parque industrial já situado no concelho Felgueiras.

P Na declaração de voto, a propósito do orçamento e do plano de actividades para 2018, os vereadores na oposição Fafe Sempre criticaram a falta de estratégia de desenvolvimento económico capaz de ser atractivo ao tecido económico para gerar emprego e criar riqueza no concelho. Como é que avalia estas criticas?
R Esse reparo é um pretexto para se poder dizer alguma coisa. Faz parte da disputa politica e quando muito poderia ser uma autocritica. As pessoas que constituem o movimento Fafe Sempre, são no fundo, as que estiveram na vereação nos anos anteriores, quando o dr. José Ribeiro era presidente da Câmara. Temos uma estratégia e uma definição politica que é sermos um concelho amigo das empresas, desde a primeira hora. Temos iniciativas no terreno com resultados concretos para atrair investimento. Quando construímos o nó de acesso á zona industrial de Arões estamos a criar condições para que as empresas se instalem. O FS dizia que se a obra não fosse financiada pelo governo, não a executaria. Eu entendo que a obra é tão importante que se o Município tem possibilidade de a fazer com recursos próprios deve construir o nó rodoviário. Temos uma atitude activa sempre que os empresários nos procuram e acções que motivam o empreendedorismo. Conseguimos a instalação do Contact Center da Altice em tempo de crise.
P Qual é a radiografia que faz do concelho de Fafe em matéria de saneamento básico?
R Não temos a cobertura que gostaríamos. Será um assunto recorrente em futuras campanhas eleitorais Não é possível recuperar o atraso que tínhamos num estalar de dedos. No mandato que terminou fizemos um investimento que ultrapassou os dois milhões de euros. Deixo um apelo aos fafenses, àqueles que têm a rede à porta para que se liguem ao sistema.

P No mandato que terminou no final do ano passado, apesar de não ter muito dinheiro dos fundos europeus, a autarquia fafense fez algum trabalho no parque da cidade. Ainda há muito a fazer?
R Nós optámos politicamente por não fazer a obra do parque da cidade de uma só vez porque iria consumir muitos recursos financeiros, necessários para outros projectos prioritários. Durante estes quatro anos fizemos sempre algum trabalho no parque da cidade para ir fazendo a sua requalificação. Mas ainda precisa de investimento.

P Apesar de muitas obras virem a ser financiadas fundos europeus, a CMF tem de ter também capacidade financeira para pagar a sua parte do bolo.
R Herdei a CMF com uma boa saúde financeira. Está estável e tem uma boa capacidade de endividamento. Durante a última campanha eleitoral disseram-se muitas mentiras e uma delas era que a câmara estava muito endividada. A autarquia tem uma divida estrutural que anda à volta dos quatro milhões de euros. Ainda assim tivemos de honrar uma série de compromissos na ordem dos seis milhões de euros e com os quais não estávamos a contar.

P Há pouco estávamos a falar da regeneração urbana, vai manter-se o piso empedrado do final da etapa em Fafe da Volta a Portugal em bicicleta?
R Esse empedrado é um ex-libris (riso). Foi outra conquista o facto da Volta poder terminar na praça 25 de Abril com o piso empedrado.

Porta aberta a consensos globais

P O único vereador eleito do PSD poderia contribuir para formar essa maioria, como aconteceu no anterior mandato.
R A porta ainda não está completamente fechada.

P A recente votação no executivo municipal que levou a que o orçamento e o plano de actividades da câmara fosse aprovado com os quatro votos dos vereadores do Partido Socialista, a abstenção dos quatro eleitos do movimento Fafe Sempre (ligados á direcção da concelhia socialista em Fafe) e o voto contra do vereador social democrata pode ser indicativo quanto ao futuro desenho de entendimentos na governação do Município?
R Na prática acho que sim. Seria mais natural. Nós e os elementos do Fafe Sempre somos da mesma família ideológica e partidária. Alguém a brincar dizia que: neste momento o PS em Fafe tem oito vereadores e apenas um do PSD. De facto, há um grupo que sempre se identificou com o Partido Socialista, mas que nestas eleições zangou-se com o PS. Eu acho que aquela votação indicia essa proximidade. Mas mesmo o PSD, que votou contra, utilizou um argumento em que apenas criticou questões de pormenor e não as opções de fundo expressas no orçamento e no plano de actividades. Temos de ter em consideração um aspecto importante, neste momento em Fafe quer o PS, quer o PSD estão num momento de definição politica. Haverá eleições para as estruturas concelhias e há aqui um interregno com alguma indefinição que impede a assunção de compromissos. Este processo pré-eleitoral nos partidos não tem impedido entendimentos na gestão politica quotidiana.

P Não fecha a porta a um entendimento com o vereador do PSD?
R -Nem com o movimento Fafe Sempre (FS). O FS sabe que tem do meu lado a porta aberta para se tiverem, disponibilidade nos sentarmos e conversar. Nós neste momento estamos com alguma dificuldade de gestão da CMF porque temos os vereadores socialistas sobrecarregados. Estão todos com muitos pelouros. Seria uma atitude de preocupação com o bom resultado do trabalho da autarquia, resolvendo melhor os problemas dos fafenses se eles estivessem disponíveis para colaborar connosco. A nível local é preciso que exista uma clarificação na estrutura concelhia do PS.



Rally no Norte com o contributo de Fafe

P O Rally de Portugal voltou ao norte e Fafe tem um dos troços icónicos da prova. O retorno financeiro para os municípios onde decorre o Rally esta já estudado e comprovado. Relativamente a Fafe esta competição veio trazer benefícios mais duradouros por exemplo ao nível do turismo?
R Fafe beneficiou com o Rally de Portugal e ajudou a que viesse para o norte. O prestigio do Município, ser conhecido, ser falado - por boas razões tem reflexos. Tudo aquilo que possa ajudar a projectar o nome de Fafe deve-o ser em todas as vertentes e não só a nível mais imediato, como é o caso do turismo. O festival da Vitela Assada à moda de Fafe, tem um impacto que vai mais além do que os dias em que decorre o evento. A oferta hoteleira que temos com mais qualidade é no turismo de habitação; estão a ser feitos investimentos para melhorar a oferta na cidade.

P Voltando ao Rally de Portugal!
R- O rally de Portugal regressou ao norte como resultado de Fafe ter mostrado que a prova - aqui - é mais espectacular, tem mais espectadores e tem segurança. Como é que nós fizemos isso: através do Fafe Rally Sprint, com a CMF durante três anos a suportar sozinha os custos da competição. Foi a partir da realização desta iniciativa que foi possível convencer as diversas entidades a trazer para a região o Rally de Portugal.

P- O financiamento continua a ser um problema?
R Mesmo que não tenha um apoio de entidades estatais, os municípios onde há etapas não podem perder um evento que tem um impacto financeiro muito importante. Agora é preciso dizer que é injusto que quando veio para o Norte, o Rally de Portugal tenha perdido o apoio de um milhão de euros do Turismo de Portugal, por opção do anterior governo. Coube à CCDR-N fazer um esforço para suprir esse corte. Nesta altura há negociações para que seja garantido o investimento, no futuro. O Rally de Portugal tem uma dimensão nacional.

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