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Porta Nova fomenta humanismo nos estudantes de Medicina
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Porta Nova fomenta humanismo nos estudantes de Medicina

Entrevistas

2022-06-13 às 06h00

Marlene Cerqueira Marlene Cerqueira

Associação de Voluntariado foi criada por estudantes de Medicina da UMinho, promovendo estágios internacionais e assumindo como missão tornar a Medicina em Portugal cada vez mais inclusiva.

Citação

Fomentar o humanitarismo nos estudantes de Medicina da Universidade do Minho, através do voluntariado internacional e nacional, é o grande objectivo da Associação de Voluntariado Porta Nova.
A Porta Nova nasceu há quatro anos como um projecto de voluntariado informal dedicado a missões internacionais, estando há dois oficializada como associação e desenvolvendo agora projectos internacionais em países dos PALOP, assim como projectos em contexto nacional, pois “a medicina humanitária começa aqui, onde vivemos” explica Célia Patrícia Araújo, presidente da Direcção.
Os projectos internacionais são a face mais visível de um amplo portfolio de iniciativas levadas a cabo pela Porta Nova.

Durante o Verão, a pausa lectiva é aproveitada pelos alunos de Medicina que integram a Porta Nova para realizar estágios hospitalares em países africanos como a Guiné-Bissau, Angola, São Tomé e Príncipe e Moçambique.
“Todos os anos levamos entre 12 a 16 estudantes de Medicina com frequência de anos clínicos (do 3.º ao 6.º ano) a participar nestes projectos internacionais”, explica Célia Araújo, realçando que “estes estudantes têm oportunidade de aprender durante o estágio, de contactar com uma realidade completamente diferente”, pois nesses países a medicina pratica-se com uma enorme escassez de recursos.
Os alunos vão para esses estágios e são confrontados com uma realidade muito diferente da que conhecem cá, desde logo porque ficam a coabitar nas comunidades onde vão realizar o projecto “e lidam com as mesmas dificuldades da população local, como a falta de electricidade, a falta de água canalizada, todas as dificuldades que aquela comunidade tem. Isso obriga a uma adaptação cultural que também nos faz crescer enquanto pessoas e não apenas enquanto futuros médicos”, explica.

Na Porta Nova todos têm consciência que, enquanto associação de voluntariado, a sua acção “está muito limitada” face às necessidades que encontram nos locais onde realizam os estágios. No entanto, estes estudantes também tentam fazer a diferença levando com eles material para tratamento médico que angariam na Escola de Medicina. “Sabemos que somos uma gota num oceano, mas naquilo que fizermos a diferença já é muito bom”, salienta.
Até agora, a Porta Nova já doou cerca de 600 kg de material médico, e a missão é continuar a trabalhar de forma a diminuir a desigualdade nos acessos aos cuidados de saúde que se sentem nestes países.
Além do voluntariado internacional, a Porta Nova também desenvolve projectos de voluntariado nacional, realça Célia Patrícia Araújo.

“O nosso grande projecto, pode dizer-se, é trabalhar no ensino para a saúde, para um medicina mais inclusiva, e fazer com que os nossos estudantes se sintam capacitados para trabalhar numa medicina centrada no doente e não na doença”, explica a estudante de Medicina.
E porque a Medicina Humanitária “começa aqui, no sítio onde vivemos, os nossos voluntários organizam e integram também variados projectos de voluntariado nacionais, promovendo uma onda de solidariedade na nossa universidade e comunidade”.
No ano passado, o grupo de Voluntariado Local foi capaz de sensibilizar para o dever social da dádiva de sangue e contribuir para salvar vidas, aliando-se ao Banco de Sangue do Hospital de Braga e organizando dádivas de sangue numa fase em que por questões pandémicas existiu uma redução de cerca de 30% nas doações em Portugal.

“Apadrinhamos 23 crianças institucionalizadas, recolhemos 800 bens de material escolar para as mesmas, e ainda começamos o planeamento e organização de uma actividade conjunta com a Filhos da Memória, que visa melhorar o apoio e a qualidade de vida das pessoas com doença de Alzheimer e dos seus cuidadores. Já durante este ano, realizamos recolhas de bens para a Ucrânia, livros escolares e histórias infantis para Moçambique e, tivemos também a oportunidade de organizar e dar formações a jovens refugiados, em parceria com a Associação Adolescere”, descreve a presidente da Porta Nova.

Quatro projectos levam futuros médicos a Angola e Guiné-Bissau

Neste Verão, os voluntários da Porta Nova vão concretizar quatro projectos internacionais, na Guiné-Bissau (em Bafatá, Gabu e Catió) e em Angola. Com eles pretendem levar todo o material médico que conseguirem angariar, estando a decorrer, até 18 de Junho, uma campanha com esse objectivo.
“Nestes países todo o material necessário à consulta, deve ser assegurado pelo doente”, explica a presidente da Porta Nova, exemplificando que se um doente se cortar e precisar de ser suturado tem de esperar que os familiares comprem e entreguem o material necessário.

Para maximizar o impacto dos projectos da Porta Nova nessas comunidades, está a ser feita uma recolha de material médico para contribuir para a melhoria dos cuidados de saúde nestes locais.
A recolha, a decorrer no átrio da Escola de Medicina da UMinho, visa angariar: scubs e batas descartáveis, luvas, luvas estéreis, termómetros, testes de gravidez, suplementos alimentares, soros de re-hidratação oral, pensos de queimaduras, pomadas de cicatrização, compressas, compressas estéreis, gazes, álcool etílico 70%, anti-séptico, desinfectante, iodopovidona, soro fisiológico, pomadas de antifúngicos e pomadas e corticóides.
Participar nos projectos internacionais é o grande objectivo dos alunos que integram a Porta Nova, embora não o único.

João Serafim recorda que quando se inscreveu nesta associação o seu objectivo era conhecer um contexto diferente. Enquanto estudante de Medicina não queria terminar o curso sem participar numa experiência que lhe dê a conhecer como é ser médico num contexto em que o acesso à saúde é muito diferente do português. “A minha expectativa é ver como é que, enquanto profissional de saúde, me posso adaptar e como é que posso ajudar nesses contextos. Também vai servir para eu perceber como é que reajo em situações limite”, acrescenta o estudante de Medicina, que acredita que sairá deste projecto “uma pessoa diferente em termos profissionais e pessoais”.
Também Diogo Nogueira confessa que o que o motiva na Porta Nova é a oportunidade para se expor a uma realidade desconhecida. “Isso vai afectar-me enquanto futuro profissional de saúde, pois vou lidar com situações em que os cuidados de saúde são completamente diferentes. Da mesma forma em que, como ser humano, vou ter de aprender a lidar com as emoções numa intensidade maior do que cá. Espero crescer como pessoa e como futuro profissional de saúde”, partilhou.

Já Luana Passos conta que encara a Porta Nova como “tudo aquilo” que defende na Medicina Humanitária, lembrando que a Medicina Humanitária “começa cá”, em Portugal. “Esta associação dá-nos uma formação importante, não só enquanto futu- ros profissionais de saúde, mas como pessoas”, acrescenta.
Por seu lado, Gonçalo Santos partilha que olha “para a Porta Nova como a razão primária” que o fez seguir Medicina: “ajudar os outros e lutar pela igualdade” no acesso à saúde.
“A Porta Nova está a dar-me uma nova visão do mundo eu não tinha”, admite Daniela Martins. Esta aluna realça que além dos projectos internacionais, a associação confere experiência também a outros níveis, nomeadamente aquele trabalho que não se vê tanto, mas que é essencial, como a angariação de fundos para os projectos internacionais.

Maria Silva, que concorda com os colegas, salienta que integrar a Porta Nova “não é fácil”, desde logo pela entrega que exige e pela conciliação com um curso tão exigente como Medicina.
“O nosso sonho é ajudar lá fora, mas não nos podemos esquecer de ajudar também cá”, diz Pedro Azevedo, aluno que lembra que “em Portugal também existem pequenas Áfricas” e a que “a Porta Nova ajuda a adquirir competências para lidar com essas situações”. Recorda, em particular, o gratificante que foi participar numa unidade curricular opcional sobre Medicina Humanitária, onde foram abordados os cuidados de saúde nos trabalhadores do sexo, reclusos, toxicodependentes e comunidade cigana. “Foi uma iniciativa que contribuiu para perceber importância de uma medicina mais humanizada”.

Associação quer envolver todos os estudantes na Medicina Humanitária

Inicialmente, a Porta Nova tinha o desejo de formar e orientar os seus voluntários a praticarem uma Medicina Humanitária, mas à medida que os anos passam, a motivação aumenta, e com ela o desejo de expandir esse mote à restante comunidade da Escola de Medicina. Nesse contexto, a Porta Nova implementou o congresso PN Talks, que já conta com quatro edições. Neste congresso, abordam-se temas de cariz humanitário, de forma a providenciar aos futuros médicos ferramentas para a prática de uma Medicina inclusiva, centrada na pessoa, ao invés da doença.
Apesar dos poucos anos função, a associação continua a evoluir de forma a contribuir para a educação médica dos estudantes e, este ano, em parceria com o Projecto Bússola, organizou as Jornadas PN Equality. Durante cinco semanas, mais de 100 estudantes de Medicina da UMinho, reuniram-se para abordar temas relacionados com a comunidade LGBTQIA+ e a sua experiência no contexto de saúde, discutindo estratégias para melhorar e corrigir as falhas que esta comunidade sente.

“A nossa missão será sempre tornar a Medicina em Portugal cada vez mais inclusiva, formando e educando não só os nossos voluntários, mas toda a comunidade interessada. Podemos ainda ter uma voz pequena, mas esta, a cada iniciativa que realizamos, a cada projecto internacional que integramos, aumenta cada vez mais”, refere Célia Patrícia Araújo, presidente da Direcção, acrescentando: “Somos apenas um grupo de estudantes, e sabemos que não conseguimos mudar o mundo sozinhos, mas se alertarmos e educarmos as pessoas à nossa volta, talvez o consigamos com a ajuda delas”.

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