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Braga, quinta-feira

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Paulo Brandão: "Exigência do público tem aumentado"

Rock turco esta sexta-feira no Theatro Circo

Entrevistas

2018-04-21 às 06h00

Rui Alberto Sequeira

Na passagem dos 103 anos do Theatro Circo, o director artístico Paulo Brandão sublinha o trabalho permanente para corresponder com qualidade a um público que já aprendeu a confiar nas propostas culturais da sala de espectáculos bracarense. O Fórum Braga, o S. Geraldo e a candidatura a Capital Europeia da Cultura são outros temas presentes nesta entrevista.

P O Theatro Circo celebra hoje 103 anos de existência, um momento que é assinalado de forma especial.
R Temos tido sempre o cuidado de ter uma programação, atenta, que vá ao encontro do gosto do público, mas que seja também uma programação que arrisque. É isso que temos neste sábado (21 de Abril). Apresentamos uma componente muito direccionada para as crianças e para as famílias durante a manhã e a tarde. À noite temos As Canções de Leonard Cohen, que junta David Fonseca, Jorge Palma, Mazgani, Márcia, Miguel Guedes e Samuel Úria. Todos eles já passaram pelo Theatro Circo, mas agora estão todos juntos num mesmo espetáculo que agrada a todos. No final temos o Videomapping. Pela primeira vez vamos usar a fachada do Theatro Circo para projectar imagens da autoria de João Martinho Moura com a música de António Rafael dos Mão Morta.

P O dia de aniversário do Theatro Circo culmina uma programação desenhada para Março e Abril.
R Na verdade cada vez programamos com mais antecedência. Já estamos a programar para 2019 e há projectos para 2020.O mercado tem estado a mudar as exigências são maiores mesmo ao nível de comunicação. Por exemplo a ideia do Videomapping surgiu na Noite Branca do ano passado.

P Braga é hoje uma cidade media arts reconhecida pela UNESCO.
R Sim, também há essa ligação.

P Do que disse sobre o dia de aniversário do Theatro Circo fica a ideia que se aproveitam estes momentos para fazer uma programação fora da caixa, como se costuma dizer agora.
R Esse é sempre o objectivo da nossa programação, fazer a diferença quer a nível regional, quer nacional e mesmo no plano internacional. Recentemente o Theatro Circo foi convidado a participar no FIME, uma feira que internacional de música que existe em São Paulo (Brasil). O Theatro Circo vai estar representado para mostrar aquilo que fazemos aqui em Braga, com os músicos brasileiros. Queremos ser uma estrutura viva, atenta e fazer diferente.

P - No passado dizia-se que programação do Theatro Circo era feita para nichos de público. Considera que o Theatro Circo mudou nesse particular?
R Não sei se foi o Theatro Circo se foram as pessoas. Há cada vez mais uma maior exigência, há mais informação, as pessoas conhecem os projectos.
Depois existe também uma habituação á programação. Eu diria que neste momento há muito publico que arrisca ver projectos que não conhece tão bem, na área da música, do teatro, do cinema. O público sabe que nós não vamos defraudar as expectativas, no sentido lato, porque sabe que escolhemos projectos que têm uma boa produção, que são nomes consolidados, mesmo sendo em muitos aspectos desconhecidos. Foi o caso do israelita Asaf Avidan que actuou na passada sexta--feira no Theatro Circo e que teve a sala esgotada.

Objectivo da nossa programação é fazer a diferença

P Essa é uma particularidade da programação do Theatro Circo, trazer artistas que estão fora do circuito mais comercial.
R Sim. Nós ás vezes temos a percepção quando um nome vai crescer. Há todo um historial de casos que confirmam essa tendência. Temos o caso do Benjamin Clementine que fechou o último festival de Paredes de Coura e tinha já lotado o Theatro Circo. Eu dou exemplos na área da música para as pessoas perceberem melhor a nossa estratégia: quando os nomes estão em crescimento e nós percebemos que aquele artista pode funcionar, que vai ter público e que vai ser um nome consolidado, tentamos colocá-lo na nossa programação e conseguimos fazer isso com sucesso. Isto acontece não apenas na música, mas também no teatro, na dança ou em outras áreas artísticas.

P O Paulo Brandão desde que assumiu há quatro anos a direcção artística do Theatro Circo tem colocado um grande enfase na dança. Tem conseguido criar um público?
R Ainda na passada quinta-feira (19 de Abril) tivemos o Vítor Hugo Pontes com Margem. O único espectáculo que teve lugar foi em Lisboa e agora no Theatro Circo. É um espectáculo que junta muitos miúdos em palco, alguns deles de Braga e segue parte do livro Capitães da Areia de Jorge Amado. Isto para dizer que temos um projecto importante a nível nacional, com um coreógrafo novo. Temos investido nesta área da dança e posso adiantar que no próximo ano vamos regressar com o ciclo A dança, dança-se com os pés que surgiu a primeira vez em 2015, ano do centenário do Theatro Circo. Vamos repetir em 2019 com uma programação internacional e nacional que seja apelativa. O Theatro Circo tem vindo a desenvolver programação que ocupa alguns espaços que não são preenchidos em Braga. Em Maio vamos ter o ciclo de piano Respira. É um ciclo muito alternativo.

P - Acontece também com o cinema. Há um projecto de uma programação alternativa com filmes fora dos grandes circuitos de distribuição.
R - Ainda recentemente fui ver o filme O Capitão, um filme polaco que tinha o pequeno auditório com capacidade para pouco mais de 200 pessoas, cheio. O cinema é algo muito particular na vida do Theatro Circo porque tem um público muito heterogéneo em matéria de faixas etárias.

P - Na sua opinião deverá haver uma programação própria para evitar uma eventual sobreposição de ofertas?
R - Só posso falar como observador. Se olharmos para estruturas idênticas não há essa vertente. O Altice Arena, por exemplo, não tem programação própria. O Coliseu no Porto tem alguma e é algo recente. Para haver programação própria é necessária uma equipa de palco e de equipas de produção, comunicação entre outros aspectos. Parece-me muito mais acertado o Fórum Braga pensar primeiro na rentabilização dos espaços para espectáculos ou outras produções culturais. Na Casa da Música, a área da música não erudita, cerca de 90%, é feita com aluguer de sala, não é feita com programação própria, mas nós lemos como sendo feito.

P - O Theatro Circo pode projectar alguma da sua programação para o Fórum?
R - Nós podemos programar no Fórum, sim. Além de sermos uma entidade que pode alugar a sala, temos colaborado e sido consultados - porque o Theatro Circo tem experiência - sobre algumas dúvidas que surgem por exemplo a nível técnico e programático por exemplo.

P - No plano de actividades do Theatro Circo para 2018 é apontada a necessidade de criar alguns limites á utilização do Theatro para actividades não culturais. A existência do Fórum vai aliviar o Theatro Circo dessa procura?
R - Tenho algumas dúvidas! Braga é uma cidade que está a crescer, temos cada vez mais brasileiros como espectadores e, portanto, eu entendo que esse crescimento vai continuar com que a sala continue a ser solicitada. Todos os dias chegam até nós pedidos para a utilização da sala. As pessoas não têm muitas as vezes a noção, mas os espaços do Theatro, devido á sua beleza, são solicitados para sessões de fotografia de moda, conferencias de imprensa, apresentação de produtos, etc...

P - Isso não o choca enquanto director artístico?
R - Não. É difícil, ás vezes, responder a tantas solicitações, mas acho que ajuda as pessoas a perceberem o Theatro Circo. Como funciona, para que serve, qual o objectivo do Theatro em matéria de programação e se calhar levar as pessoas a pensar que existem iniciativas que não tem sentido fazerem-se ali. Há outros espaços na cidade que tem vindo e devem continuar a ser aproveitados até para as áreas artísticas e de palco. O Fórum vai certamente contribuir para redimensionar o Theatro Circo. Claro que há aspectos que vão ter de ser repensados. Podemos ter um espectáculo para 10 mil pessoas no Fórum Braga e nós termos uma sala, igualmente cheia, com 800 espectadores.

Fórum Braga

P - Como é que esta estratégia de programação do Theatro Circo, vai concorrer com o Fórum Braga que tem espaços para grandes espectáculos?
R - O Theatro Circo e eu particularmente, ficamos contentes por Braga ter um novo espaço para espectáculos que vai permitir programar acontecimentos culturais de maior envergadura. É mais uma opção que as pessoas têm. No Theatro Circo não podemos ter os Thirty Seconds to Mars (n.d.r. concerto em Braga a 11 de Setembro) mas era um espectáculo que eu certamente escolheria para o Theatro.

P - O Theatro Circo não vai perder com esta valência do Fórum Braga?
R - Temos de ser realistas, alguma coisa vai perder, mas na minha opinião tem muito mais a ganhar. Para já o Fórum Braga não terá programação própria.

Espaços culturais em Braga devem se complementar

P E Braga tem capacidade para acolher tantos espaços culturais a trabalhar ao mesmo tempo?
R Eu penso que sim, que tem capacidade pata absorver um Fórum, um São Geraldo. Braga tem uma universidade muito activa que é um pólo de atração enorme e eu penso que a cultura é uma forma de conhecimento, de fazer evoluir as pessoas e por isso entendo que cada vez mais esses espaços são necessários.

P - Esta ambição de Braga ser CEC em 2027 pode justificar uma ideia que muitas pessoas vão discutindo da criação de um quarteirão das artes entre o Theatro Circo e o São Geraldo?
R (risos) Essa ideia vem mostrar que a Câmara de Braga está aberta ao contributo de todos e até dos jornalistas. A cultura não é só a área artística. Essa é a mais visível, sem dúvida. Ser CEC pode servir de alavanca não apenas para panorama artístico, mas para muitas outras áreas.

P A candidatura de Braga a Capital Europeia da Cultura vai influenciar a programação artística do Theatro Circo?
R Ainda é muito cedo para pensarmos nisso. Mas o Theatro Circo tem feito um esforço para fazer muitas produções de raiz, muitas coproduções. O ciclo de piano Respira é um exemplo de uma produção própria, a Máquina de Gelados também é uma produção nossa. Pessoas que estão no Theatro Circo participaram no Porto 2001 e em Guimarães 2012 e têm uma percepção do que foi feito nessas duas capitais da cultura.

P O sucesso do Theatro Circo vai condicionar o sucesso da candidatura de Braga?
R - Não! Não tem nada a ver

P Em 2014 passaram 40 mil espectadores pelo Theatro Circo, no ano passado foram 100 mil. O que é que na sua opinião explica este aumento?
R A explicação está no investimento, na energia, em quem trabalha no Theatro Circo, mas também no apoio das pessoas enquanto público, está na autarquia

P E está também na produção artística /cultural que é escolhida e apresentada.
R Claro que sim, mas eu também não posso falar em causa própria enquanto programador artístico. É um trabalho em que não estou sozinho.

S. Geraldo vai ter oferta complementar

P Fisicamente falando o Theatro Circo está de costas para o São Geraldo como é que olha para aquele espaço?
R Nós estamos também a trabalhar no projecto do São Geraldo.

P Mas como é que vê essa proximidade?
R Eu acho que o Theatro Circo precisa do São Geraldo e precisa a partir do momento em que o Município assume que o São Geraldo deve ser requalificado. O São Geraldo ficando junto ao Theatro Circo não vai ser certamente concorrencial e será complementar em termos de programação, como tem sido por exemplo o GNRation. Atenção: eu estou a falar enquanto mentor da programação do Theatro Circo e não estou a colocar o princípio de que é o Theatro Circo que está a liderar todos os processos. O São Geraldo; que terá ligação ás media arts; vai ser certamente pensado e pode até nessa perspectiva de complementaridade, a plateia ser de pé, isto é, não existirem cadeiras, algo que é uma impossibilidade no Theatro Circo.

Criação de públicos

P - Quando falou do cinema falou também do público que o vai ver. O Theatro Circo tem vários públicos até porque tem uma programação num mesmo espaço que dedicada a diversas formas de arte?
R - Quando fui programador na Casa das Artes em Famalicão trabalhei muito a área da música. No fundo viemos cobrir uma oferta que não existia na região e houve condições para criar uma programação mais alternativa e de nicho porque caso contrario não teríamos pessoas a movimentarem-se para a Famalicão, se a nossa aposta fosse apenas uma programação comercial. O Theatro Circo de 2006 até agora, também acabou por ser pioneiro porque no fundo criámos a oportunidade de ter uma casa que funciona, que trabalha de acordo com aquilo que são as directivas da autarquia de Braga, que na minha opinião tem tido um papel importante no trabalho feito com o Theatro. Eu acho que essa criação de públicos que vamos fazendo foi pioneira .Acredito que os diversos tipos de públicos que temos no Theatro Circo vem das franjas dos acontecimentos culturais que acontecem em Braga. Tudo o que seja a estratégia da criação de publico ou de públicos é talvez a área em que eu mais gosto de trabalhar. Sinto-me preocupado em que os projectos tenham gente a assistir

P - De onde vem o público que vai aos espectáculos do Theatro Circo?
R - Nós conseguimos saber através da compra de bilhetes pelo sistema online. A maior parte é de Braga, mas temos públicos de Famalicão, do Porto, de Coimbra de Lisboa, da Galiza e algumas pessoas vêm de outros países, quando temos um nome que o justifique. Pelas vendas que tivemos, no espectáculo de sexta-feira com o Asaf Avidam, tivemos pessoas provenientes de França. Em relação a Braga tenho a sensação que os bracarenses estão muito mais atentos e mais predispostos. Parece-me afastada essa ideia aveludada que o Theatro Circo não é um espaço para todos.

P - O Theatro Circo é uma empresa municipal, detido, a 100 % pela autarquia. Enquanto programador tem total liberdade para as suas escolhas?
R - Sim, total liberdade a programar, mas a minha responsabilidade não pode ser é total (risos). Tenho de ter noção do espaço onde estou e é uma responsabilidade muito grande porque envolve muito dinheiro, muitas pessoas...

P O poder político não é tentado a fazer sugestões em matéria de programação?
R Nunca tive nenhuma força estranha a indicar-me o que teria de fazer.

P Quem está ligado a actividade cultural/artística lamenta-se muitas vezes da insuficiência dos meios financeiros colocados á disposição. Neste caso o Paulo Brandão tem de conciliar as escolhas que faz com o sucesso financeiro da estratégia adoptada?
R- Temos a obrigação do ponto de vista logístico e de trabalho de cumprir com os 51% daquilo que investimos ou recebemos e temos conseguido. Isso faz com que queiramos ter publico. Esse trabalho de avaliação é quase diário. No final de cada mês verificamos se o trabalho que projectámos foi respeitado, se tivemos o público que tinham pensado, saber se no final do ano podemos investir ou não num determinado projecto; tudo isso conta.

Máquina de Gelados regressa em Agosto

P - Gostava de ter um financiamento mais elevado para trazer mais artistas, outros projectos?
R Claro quem é que não gosta. Mas não tem sido uma dificuldade. Estaria a fugir à verdade se dissesse que não gostaria de ter mais verbas para áreas onde teremos de investir. Tem existido abertura da administração do Theatro. Nós em agosto vamos ter novamente o projecto Máquina de Gelados e, entretanto, sugeri que em 2019 para além da sexta-feira abrirmos também aos sábados. Para isso vão ser necessárias mais algumas verbas. Nós sendo uma empresa municipal podemos ter mecenas, patrocinadores. Muito brevemente vamos tentar conseguir um financiamento para o Máquina de Gelados que é um projecto que queremos fazer crescer e que este ano vai ter muita gente de várias partes do mundo. Temos o apoio do Município, mas também temos de ser capazes de gerar receitas. Se nós conseguirmos as receitas quer dizer que existe um reconhecimento por parte dos mecenas e das pessoas em investirem no Theatro Circo e, percebem, que isso é uma mais valia. Se não o fizerem é uma má valia para nós porque percebemos que se calhar não temos assim tanta importância neste meio.

P A abertura do Theatro Circo à sexta-feira em Agosto foi uma aposta de risco?
R Hoje em dia as pessoas tiram férias ao longo do ano.

P - Mas muitas vezes são as próprias estruturas municipais ou estatais que estão paradas em Agosto devido a situações internas da sua organização.
P No Theatro Circo fizemos um compromisso: metade da equipa vai de férias, metade da equipa fica a trabalhar e tem funcionado. Acho que ninguém que desistir de fazer A Máquina dos Gelados, antes pelo contrário. O ano passado tivemos o apoio da Olá para que as pessoas quando saíssem dos espectáculos tivessem o seu gelado e este ano vamos continuar com essa ideia que torne apelativa a ida ao Theatro.

P Braga tem o desejo de ser Capital Europeia da Cultura (CEC) em 2027. Existe já um trabalho preparatório?
R Nós já estamos a trabalhar na candidatura. Houve duas reuniões há pouco tempo com o presidente da Câmara de Braga e com toda a vereação. Só daqui a dois anos é que é possível apresentar a candidatura, mas de qualquer maneira existe uma estratégia que tem de ser trabalhada. A autarquia sabe disso e está activa e o Theatro Circo está a empenhado e a colaborar.

P Do seu ponto de vista que avaliação faz desse objectivo que Braga traçou para 2027?
R O esforço vai ser grande. Decorre um trabalho preparatório e acho que é essa a estratégia que está a ser pensada. O trabalho que está a ser feito para a candidatura também vai servir a cidade. A programação é a parte visível, mas é preciso requalificar, informatizar, preparar os recursos humanos é preciso aprender, ir a outros sítios para ver como se faz.

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