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Pandemia esvazia plateias da Cultura

Entrevistas

2021-01-24 às 06h00

José Paulo Silva José Paulo Silva

Salas de espectáculo estão com encerramento forçado pela segunda vez em menos de um ano. Não se sabe quando voltarão a abrir as portas. No Minho, a prioridade dos programadores culturais é reagendar com a esperança de que o drama do confinamento não se transforme em tragédia.

Voltar a reagendar programação, depois da nova imposição de fecho das salas de espectáculo, é o desafio com que se debatem nesta altura os directores artísticos e gestores de salas de espectáculos e de outras estruturas de produção cultural da região minhota. Depois do confinamento de Março e Abril do ano passado, o sector cultural volta a paralisar, não se sabe até quando, sendo um dos que mais tem sido afectado pelas medidas de controlo da pandemia.
Com as agendas de espectáculos e serviços educativos suspensas, alguns agentes culturais dos distritos de Braga e Viana do Castelo procuram, através dos meios digitais, não perder o contacto com os seus públicos, embora seja convicção generalizada que o ‘online’ não substitui a experiência da Cultura ao vivo, nem tão pouco compensa os profissionais do sector das perdas que têm vindo a registar com os confinamentos à sua actividade.

“A Cultura deve voltar o mais cedo possível”, defende Paulo Brandão, director artístico do Theatro Circo de Braga, convicto, no entanto, que “as coisas vão demorar tempo a normalizar”. Paciência e resiliência são, para este responsável, as palavras adequadas para caracterizar o comportamento que os agentes culturais devem adoptar no actual quadro de suspensão da sua actividade.
Embora não o desejasse, o director artístico do Theatro Circo compreende a suspensão da actividade cultural presencial, dado o crescimento do número de infecções e de mortes provocadas pela covid-19.

Em Guimarães, Fátima Alçada e Ricardo Freitas, directores artístico e executivo d’A Oficina, respectivamente, alegam que, com o confinamento do ano passado, “o sentimento de injustiça que surgiu esteve relacionado com o plano faseado em que as salas de espectáculo, teatro e cinema foram os últimos espaços a reabrir, sem que houvesse uma justificação válida e coerente para isso relativamente a outros sectores de actividade”.
No entanto, compreendem que "ao dia de hoje o confinamento é justificado e inevitável, ao qual a actividade cultural não pode nem quer ser excepção”.

“Acreditamos que quando mais cedo todos respeitarem e cumprirem o actual confinamento, mais cedo todos teremos a possibilidade de retomar as nossas actividades”, assumem os responsáveis da estrutura responsável pela gestão do Centro Cultural Vila Flor e de outros equipamentos culturais em Guimarães.
Em Vila Nova de Famalicão, outra estrutura municipal, a Casa das Artes, viu-se igualmente obrigada a suspender a sua actividade, alertando o seu director, Álvaro Santos, que “o prolongamento da situação será um cenário ainda mais dramático”, não sendo suficientes os apoios do Estado aos artistas do “tipo rendimento mínimo”, pelo que há já “companhias a trabalhar fora da actividade artística para sobreviverem”.

Reprogramar em tempo de sobressalto

De portas fechadas desde o dia 15 de Janeiro, as salas de espectáculo da região vão anunciando o reagendamento de alguns espectáculos num tempo ainda de grande incerteza quanto ao reatar da programação, dado o agravamento da situação pandémica que se está a verificar.
O director artístico do Theatro Circo assume que “todos os projectos que foram cancelados irão ser repostos, a menos que seja impossível a ambas as partes”, afastando, desde já, a actuação de “nomes internacionais” e o não cumprimento de uma programação por ciclos, opção que a sala de espectáculos bracarense assumia como marca própria antes do confinamento imposto pela covid-19.

Depois do cancelamento dos concertos de Gator, the Alligator e Marta Ren, do filme ‘Siberia’ e da peça de teatro ‘Calígula’, o Theatro Circo ainda mantém em cartaz, para Fevereiro, concertos de Cuca Roseta, Cláudia Pascoal e Mão Morta, sendo avisado Paulo Brandão pensar que os mesmos poderão também ser adiados.
Os responsáveis d’A Oficina assumem que “tendo como perspectiva temporal do confinamento a duração de 30 a 45 dias, a programação não está comprometida, pois todos os espectáculos e acções programadas estão a ser reagendados para se realizarem ao longo do ano 2021”, adiantando Fátima Alçada e Ricardo Freitas que “a colaboração de artistas e companhias tem sido fundamental neste processo de encontrar novas datas”.
Manel Cruz, que teve concerto agendado para ontem, no grande auditório do Centro Cultural Vila Flor, será um dos nomes a reagendar, restando saber o que irá acontecer com a 11.ª edição do festival de dança ‘Guidance’, com calendário ainda previsto para 4 a 13 de Fevereiro.

Na Casa das Artes de Vila Nova de Famalicão, o director Álvaro Santos assume que “as duas primeiras semanas de Fevereiro já estão comprometidas, mas estamos preparados para recomeçar a qualquer momento”. Tal como em Braga e Guimarães, também aqui há o compromisso de repor “toda a actividade contratada, nomeadamente projectos de criação artística”, ou seja, “todos os espectáculos suspensos serão reagendados se os artistas quiserem”. Mesmo em tempos de “sobressalto” em que “o drama é a incerteza”.
Aqui e acolá, alguns artistas procuram as plataformas digitais para apresentarem o seu trabalho para plateias virtuais, mas os directores da Casa das Artes e do Theatro Circo não vêm nisso uma verdadeira alternativa ao cancelamento da programação das salas de espectáculo.
“O online não resolve. A experiência de estar na plateia não é comparável. Não é possível substituir a experiência de a ver um espectáculo em sala. A cenografia e as luzes não se conseguem no online”, alega Álvaro Santos, ao passo que Paulo Brandão declara que “online quase deixou de se fazer”, porque os custos que o mesmo implica não se traduzem “em benefícios de maior”, pelo que “e muito pouco compensador para os artistas”.

Impactos ainda difíceis de prever mas levará tempo a recuperar os públicos

A administração do Theatro Circo de Braga reconhece, no plano de actividades e orçamento de 2021, que “são ainda difíceis de prever” os impactos reais na actividade da empresa, tendo em conta as restrições à mobilidade, bem como o aumento do desemprego e a degradação do poder de compra das famílias.
O director artístico, Paulo Brandão, considera que “o objectivo em 2020 foi ter a porta aberta com 50% da sala”, contando que este ano “a pandemia não vai desaparecer com um estalar de dedos”. Sobre as limitações à actividade d’A Oficina em 2020, os directores Fátima Alçada e Ricardo Freitas salientam que “os constantes reagendamentos de espectáculos e outras actividades não permitem programar e apoiar novos artistas e outros profissionais no futuro próximo, uma vez que as datas que ainda não estavam programadas em 2021 estão a ser ocupadas com os reagendamentos de 2020 e dos primeiros meses de 2021”. Referem que “a diminuição de público, fruto das lotações limitadas, é outro dos impactos directos, nomeadamente nas receitas de bilheteira”, relevando que “a impossibilidade da fruição artística por parte dos públicos acaba por ser uma consequência profundamente negativa na vida das pessoas e das instituições culturais e do tecido artístico” No caso d’A Oficina, responsável pelo projecto de formação de públicos ‘Mais Três’, “a interrupção iniciada em 2020 terá repercussões que levarão muito tempo a recuperar”. Apesar da contingências, em 2020 a Casa das Artes de Famalicão assegurou “mais de 85 % da actividade programada”, afiança o seu director. Álvaro Santos destaca, num ano de perda acentuada de espectadores, a realização de 15 co-produções e oito estreias de teatro.

Companhias recorrem ao digital para manter a ligação aos públicos

Em Barcelos, a programação prevista para o Theatro Gil Vicente entre os dias 15 e 30 de Janeiro foi cancelada, informando a Câmara Municipal que os espectáculos suspensos serão reagendados em concordância com artistas, bandas e companhias, sendo válidos os bilhetes já adquiridos, nomeadamente para ‘Trama do Navio’, ‘Pinóquio’, ‘Amor de Perdição’, ‘Casal da Treta’, ‘Ghost Hunt’, ‘O Sal das Lágrimas’ e ‘Tim, 20-20-20’.
Depois de a edição de 2020 ter sido parcialmente cancelada, devido ao eclodir da pandemia de covid-19, o festival ‘Sons de Vez’ tem o programa deste ano definido para os dias 5 de Fevereiro a 26 de Março, na Casa das Artes de Arcos de Valdevez.

Após o cancelamento de três datas em Março do ano passado, será que o primeiro festival de música do ano conseguirá cumprir, na íntegra, a sua 19.ª edição?
Carminho, uma das artistas que não conseguiu actuar em 2020, tem concerto agendado para o próximo 5 de Fevereiro. O auditório da Casa das Artes acolherá, ou não, até 26 de Março, espectáculos dos ‘Galandum Galundaina’, ‘Clã’, ‘Paus’, ‘Mão Morta’, ‘Plastica’, ‘Tarântula+Nó Cego’ e Luísa Sobral.
A Fundação Bienal de Arte de Cerveira decidiu suspender todas as suas actividades públicas e presencias como medida preventiva, mesmo antes da declaração do último estado de emergência. O conselho directivo da Fundação informou também que cessou a devolução e envio das obras de arte relativas à XXI Bienal Internacional de Arte de Cerveira, processo que retomará em meados de Fevereiro.

Em Fafe, o Teatro Cinema, espaço gerido pela Câmara Municipal, está igualmente sem actividade e a reabertura de portas não acontecerá tão cedo. As sessões de cinema que o Cineclube de Fafe tinha programadas para os dias 14 e 15 de Março foram já canceladas, decisão que decorre das indicações dadas pela Direcção Geral de Saúde e da aplicação do plano de prevenção e contingência face ao novo coronavírus.
O Teatro do Noroeste - Centro Dramático de Viana, companhia residente no Teatro Municipal Sá de Miranda, em Viana do Castelo, optou por oferecer, nesta nova fase de confinamento, alguma da programação ‘online’ que marcou o ano de 2020. Os episódios da webnovela ‘2020: Odisseia sem Espaço’ estão disponíveis no sitio internet do Teatro , bem como ‘Caseirar’, um magazine educativo que propõe actividades de expressão dramática para pais e filhos, da autoria de Raquel Amorim.

De portas fechadas, os responsáveis do Teatro Municipal Sá de Miranda anunciaram já alguns reagendamentos para Março e meses seguintes de espectáculos e outros eventos que estavam previstos para este início de ano. É o caso da apresentação do livro ‘Com Amadeu Costa no Centenário do Seu Nascimento’ ( 6 de Março), do espectáculo da banda ‘D.A.M.A.’ ( 14 de Março) e de ‘Quem Fala Assim’, da associação Interferência ( 28 de Maio).
No Alto Minho, o colectivo ‘Comédias do Minho’ prevê um ano “pautado por imprevisto”, mas promete não baixar os braços. O espectáculo ‘Dentro do Coração’, que esteve em agenda para 9 de Janeiro, em Valença, foi cancelado, estando o mesmo programado para 6 de Fevereiro, no cineteatro de Vila Nova de Cerveira, se a pandemia deixar.

‘Comédias do Minho’ aproveita, entretanto, o espaço virtual para manter ligação aos seus públicos, nem que seja pelo simples desafio de os convidar a “fotografar uma janela e gravar um comentário sobre essa visão do exterior”.
A equipa da companhia alto minhota assegura que, mesmo sem espectáculos ao vivo, está “em modo de transformação criativa para podermos chegar de outras formas às escolas, às famílias e a cada pessoa”. Exemplo disso é o ‘Tribunal dos Sentidos’, filme produzido pelo Projecto Pedagógico das Comédias do Minho, dirigido por Leonor Keil, que, entre Março e Abril, chegará aos alunos do segundo ciclo do ensino básico do Vale do Minho.

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