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Entrevistas

2018-01-27 às 06h00

Rui Alberto Sequeira

No decorrer de mais uma edição da Festa do Fumeiro, o autarca fala dos prós e contras da exploração de lítio no concelho e deixa no ar a intenção de não se recandidatar.

Orlando Alves foi reeleito pelo Partido Socialista presidente da Câmara Municipal de Montalegre. Nesta entrevista à Rádio Antena Minho e ao Correio do Minho afirma-se um eterno inconformado e teceu severas criticas à forma como a oposição tratou os emigrantes que foram votar nas últimas autárquicas. No decorrer de mais uma edição da Festa do Fumeiro, o autarca fala dos prós e contras da exploração de lítio no concelho e deixa no ar a intenção de não se recandidatar.

P - Como é que entendeu os seus primeiros quatro anos de presidência e como é que perspectiva este segundo mandato enquanto presidente da Câmara Municipal de Montalegre (CMM)?
R- Permitam-me que em primeiro lugar deixe uma saudação especial para todos barrosões que vivem fora da sua terra. A República nem sempre tratou bem os seus filhos e não deu a todos a mesma oportunidade para se fixarem na sua terra natal. As eleições autárquicas de um de Outubro confirmaram aquilo que era previsível. Só quem andava muito distraído é que não percebia que o Partido Socialista (PS) iria ter uma retumbante vitória, a maior de sempre do PS, consolidada num território que em eleições legislativas tem um sentido de voto diferente. O resultado que eu e a minha equipa obtivemos nas autárquicas de Outubro de 2017 é justo face àquilo que fizemos sem termos prometido nada. É um resultado que nos motiva a encarar os próximos quatro anos com a mesma motivação que tivemos no primeiro mandato.

P - Certamente com as mesmas dificuldades que teve no primeiro mandato, relacionadas com a interioridade do concelho e com a forma como o poder central olha para os municípios como Montalegre.
R - Eu serei um eterno inconformado. Neste exercício de faz de conta que é a politica à portuguesa, vemos os nossos experts, as elites da nação todos os dias nas televisões a falar sobre economia, finanças e o país foi ao charco. Enquanto apostarmos as fichas todas no déficit, na economia, etc. ignoramos o país real e transformamos Portugal num país assimétrico. As elites só deram nota deste desequilíbrio quando uma parte significativa do país, ardeu. A manter-se esta assimetria de desenvolvimento do território daqui a 20 anos o fogo começa no litoral e só se extingue em Castela (Espanha). Eu sou um adepto fervoroso da regionalização.

P - O governo do Partido Socialista é mais apologista de uma descentralização.
R - Apraz-me sentir que o recém-eleito líder do PSD é também um adepto da regionalização e vejo nele uma pessoa com capacidade para construir convergências. Acredito que não vai deixar cair o desí-gnio da regionalização a qualquer preço. Ainda não percebi porque se tem tanto medo da regionalização. Nós podemos construir modelos de regionalização confinados aos espaços das Comissões de Coordenação e construir um modelo muito nosso, que não tenha implícito a criação de um governo regional. Basta que se dê mais atribuições às Comissões Regionais de Desenvolvimento, mais competências para que os autarcas não tenham de andar a correr para Lisboa, normalmente sem resultados práticos.

P - A vitória retumbante do PS nas ultimas eleições autárquicas em Montalegre, porventura não é suficiente para o convencer a uma recandidatura dentro de quatro anos, para um terceiro mandato?
R - É uma decisão que ainda não está oficialmente tomada. A verdade é que esta actividade política provoca um grande desgaste.

P - Mas sente alguma desilusão? Há trinta anos que está na actividade política autárquica.
R - Estou num momento de reflexão e de conversar com a minha equipa.

Recandidatura é objecto de reflexão

P - Ser presidente de um município do interior, com uma "luta" quase quotidiana para o colocar no mapa, como sucede com Montalegre, provoca mais erosão do que ser autarca de um concelho do litoral mais perto do poder central?
R - É mais difícil ser presidente de uma câmara como Montalegre onde não há filtragem no acesso das pessoas ao presidente ou aos vereadores. Não há secretárias a filtrar acessos nem a escrever os motivos da audiência. Os munícipes entram, batem à porta e são atendidos. Depois há um contacto informal fora dos paços do concelho com a população.

P - Mas houve um esforço maior, nestes últimos quatro anos, para colocar Montalegre no mapa com eventos diversos e com uma promoção mais intensa?
R - Limitei-me a dar continuidade ao esforço que já vinha dos meus antecessores e de cujas as equipas fiz parte.

P - A Feira do Fumeiro que se iniciou na passada quinta-feira foi uma ideia sua, há 27 anos!
R - Sim é verdade, mas foi um desígnio agarrado pela autarquia, pela população e pelo sector empresarial local com mais ou menos crença; com mais ou menos fervor. Na câmara quando partimos para esta iniciativa também estávamos muito longe de pensar que ao fim de meia dúzia de anos era um acontecimento já devidamente consolidado. Entretanto vieram outras iniciativas como a Sexta-feira 13, as provas de automóveis, o Congresso de Medicina Popular de Vilar de Perdizes. Fomos muitos a trabalhar para criar fluxos para a nossa terra e a incutir nos habitantes, a ideia de que uma região dinamiza-se com a participação de todos.

P - Montalegre já tem condições para receber esses emigrantes de forma definitiva e receber os seus investimentos?
R - Claramente!

P - A Feira do Fumeiro começou na quinta-feira dia 25 de Janeiro e este ano cumpre a edição número 27. Tem chamado a atenção para que neste sector se vá mais além, nomeadamente, através da criação de unidades de transformação. Esse apelo parece não ter surtido ainda o efeito desejado.
R - Continua tudo na mesma. Devo dizer que eu próprio irei no futuro envolver-me num processo desses. Não o farei enquanto autarca, mas depois de cessar funções não vou calçar as pantufas (risos).

P - Mas o que é explica essa não aposta em unidades de transformação dos produtos ligados as carnes e ao fumeiro?
R - Falta de crença, de entusiasmo, muita acomodação. Estive em Londres e pude perceber como é que 20 barrosões têm grandes empresas a fazer girar anualmente quantias significativas de dinheiro. Esse espirito empresarial desenvolveu-se no estrangeiro e é evidente que quem tem a sua vida ali radicada pensará muito bem antes de um regresso e na capacidade de aplicar o sentido empresarial, em simultâneo, em Montalegre e no país onde vive.

P - Gostava certamente de ver reproduzido esse sentido empresarial em Montalegre.
R - Tenho passado muito tempo com os nossos emigrantes a incentivá-los para investirem no território barrosão. Não fui a Londres, nem a Paris motivar os barrosões que ali a vivem para virem votar em mim, como fez o meu opositor. Eu vou para os motivar a investirem na sua/nossa terra.

P - Expectativas em alta para a Feira do Fumeiro deste ano?
R - Estão criadas condições para que seja uma grande feira. O tempo convida a uma saída de casa e depois há a atractividade própria do produto. No recinto da feira espera-se um volume de negócios a rondar 1,5 milhões de euros, valor que sobe para os 2,5ME através do movimento na restauração, comércio e hotelaria ao longo dos próximos quatro dias.

P - Quantos expositores vão marcar presença na Feira?
R Ligados ao fumeiro serão 90. Depois há outros que vendem produtos como o pão caseiro, compotas, mel, licores. O preço do fumeiro é o mesmo de há 27 anos (risos).

P - Esteve frio suficiente para garantir um bom fumeiro?
R - O tempo foi bom para o fumeiro com temperaturas muitos baixas. O problema maior que hoje temos, para além do deficit demográfico, são as alterações climáticas. As alterações climáticas vão obrigar a corrigir os nossos procedimentos. Na câmara de Montalegre temos políticas em curso que ajudam à descarbonização da sociedade. Temos neste momento um investimento de 3ME para substituir todas as lâmpadas de mercúrio no concelho por lâmpadas LED. Temos um concurso para a aquisição de três viaturas eléctricas e pontos de recarga rápida para os carros eléctricos em Montalegre, Salto e Cabril.


P - No âmbito das preocupações ambientais assumidas pelo Município de Montalegre enquadra-se também nessa preocupação o reforço do investimento na rede de saneamento básico?
R - Temos neste momento em preparação seis redes de saneamento. É um esforço muito considerável se tivermos em atenção que está em desenvolvimento o projeto de ligação de Montalegre à A24, por Chaves. Uma estrada (Meixide/Soutelinho da Raia) que é construída inteiramente com o orçamento do Município porque o governo, este e o anterior, não deram qualquer apoio. Um investimento de 2,5ME. Vamos pôr a estrada na fronteira com Chaves. O atual presidente da Câmara já manifestou a vontade de dar continuidade á ligação do lado de Chaves. Foi uma decisão corajosa do meu homólogo que quero enaltecer.

P - A realização do Campeonato do Mundo de Rallycross tornou-se mais um fator de atração de Montalegre. É uma aposta para manter?
R - Esta semana tivemos a visita dos inspetores da Federação Internacional do Automóvel (FIA) para homologação da pista. Importa referir que teremos de fazer obras este ano, não é possível antes da prova do mês de abril. Temos orçamentados 400 mil euros para gastar na pista automóvel. A FIA exige por exemplo um bom gabinete médico e de enfermagem. Será um equipamento que nos alivia financeiramente evitando que todos os anos contratualizemos pavilhões para os médicos. O investimento na pista foi previsto para três anos e ultrapassa o milhão de euros, só depois poderemos falar de encaixe financeiro. Queremos que a prova venha a Montalegre por muitos e muitos anos. Não temos dúvidas que a nossa pista já é a melhor do Campeonato do Mundo de Rallycross.


Exploração de Lítio é o mal menor

P - O concelho de Montalegre tem sido falado a propósito do lítio, um elemento químico usado por exemplo na fabricação de baterias. Apesar do litigio judicial que envolve duas empresas que pretendem explorar o lítio existente em Montalegre vê aqui um filão de ouro para o município?
R - Vejo uma oportunidade muito boa para o concelho, para a região e até para o país. Não ignoro, contudo, que a exploração do lítio e a criação de industrias associadas vá ter um impacto enorme. Os efeitos que possam ter no ambiente não estão calculados.

P - Aparentemente não está muito entusiasmado com as consequências da exploração lítio?
R - Sou um entusiasta do investimento que é necessário fazer no concelho para que as pessoas se fixem, para que outras pessoas que tiveram de deixar a terra barrosã regressem definitivamente e quadros qualificados saídos das nossas universidades se decidam a instalar em Montalegre. Entre dois males escolhe-se o mal menor. Uma das empresas a Lusorecursos, tanto quanto sei, apresentou ao governo um caderno de encargos onde tem plasmado todos os investimentos e as contrapartidas que o Município irá receber.

P - As contrapartidas são satisfatórias?
R - São muito satisfatórias, mas teremos de fazer um esforço de aproximação de interesses. Não deixaremos que nos considerem um parceiro menor em todo este processo.


Emigrantes enxovalhados pela oposição

P - Apesar da incontestada vitoria eleitoral, com a manutenção de cinco eleitos pelo PS e dois pelo PSD, a campanha eleitoral do lado da oposição esteve muito centrada na viagem paga aos emigrantes alegadamente para votarem no PS nas autárquicas.
R - Foi porventura a eleição mais suja em que eu participei. Eu sentia que o posicionamento de alguns não iria ser o mais cívico e o mais civilizado, mas a verdade é que os acontecimentos tiveram um contexto bem mais triste e uma dimensão maior do que aquilo que eu previra. Os barrosões sabem quem têm à frente da autarquia. Lamento aquilo que se passou e a questão dos emigrantes é uma manifestação de menosprezo pelos barrosões e de enxovalhamento da terra. Montalegre foi falada pelos piores motivos, foi apresentada ao mundo como sendo uma terra em que os valores da democracia não existem. Alguém construiu um cenário no qual envolveu pessoas importantes que abriram caminho para um programa televisivo, que me abstenho de caracterizar, e que foi um autentico enxovalho para Montalegre e para os barrosões.
P - O que é que estava em causa nesse programa?
R - Eram três autocarros que foram filmados no aeroporto Sá Carneiro. Um ia para Montalegre, o outro para Chaves e um terceiro para Boticas. Os mentores desta facécia apenas tiveram como motivação beliscar a dignidade dos barrosões e beliscar o sentimento da participação cívica dos emigrantes, principalmente na eleição dos seus autarcas.

P - Foi, na sua opinião, um mau serviço prestado a Montalegre?
R - Um muito mau serviço prestado pela oposição que motivou a intervenção do Ministério Publico num processo que está a decorrer.

P - Aproveitou este episódio para no seu discurso de tomada de posse fazer um apelo aos emigrantes do Barroso no sentido de visitarem mais vezes Montalegre e de investirem mais no concelho.
R - A tomada de posse era o local certo para lavar a honra de quem se sentia beliscado: eu os meus colegas de vereação, o PS e todos os barrosões. A tomada de posse foi o sitio certo para repor a verdade dos factos porque não tive acesso ás televisões, nem me foi dada a possibilidade do contraditório. Deixei o apelo aos emigrantes para que venham sempre porque é isso que eu faço quando vou - todos os anos - ao encontro de emigrantes a Nanterre (França) e onde sinto a vaidade que eles têm em participarem nas eleições autárquicas a Montalegre.

Fumeiro precisa de unidades de transformação

P Ainda em matéria de eventos desportivos este ano haverá uma prova internacional de parapente.
R Temos o Campeonato da Europa de Parapente que certamente também vai ajudar a vitalidade económica de Montalegre. Estamos, no entanto, a viver o drama de não termos um hotel. Existiam dois agora não temos nenhum. Estou a trabalhar com o dono do imóvel para que pelo menos um desses hotéis venha a funcionar no futuro. A nossa oferta é no domínio do turismo de habitação ou rural.

P Um dos investimentos prioritários para este seu mandato é a construção de um quartel da GNR no Baixo Barroso.
R Aceitámos substituir o estado e dotar a região de um equipamento digno porque não faz sentido nenhum, num território extenso como é o nosso, ter apenas um quartel localizado na sede do concelho, distante das freguesias do Baixo Barroso.

P A aquisição da Quinta da Veiga ao estado, continua num impasse?
R Aguardamos que a Direcção Geral do Tesouro coloque os papéis em cima da mesa para começarmos a pagar e recuperarmos aquele património importantíssimo para o colocar ao serviço da região. Mas atenção, a Quinta da Veiga era da CMM e por isso temos um processo há mais de uma década no Tribunal Administrativo de Mirandela para que a quinta regresse para o Município.

P Os investimentos da CMM com recurso a financiamento comunitário que importância é que assumem para os próximos anos?
R - Escrevi uma carta ao Ministro do Planeamento dizendo que fazia sentido autorizar a reprogramação dos investimentos, permitindo a sua extensão até 2020, para aproveitarmos ao máximo os projectos que já temos aprovados e que não podemos deixar cair. O Arquivo Municipal, a piscina municipal - fechada há seis anos porque é preciso fazer neste equipamento obras muito dispendiosas. Estamos em negociações com a CCDR-N de maneira a podermos reprogramar todos os projectos que pretendemos realizar, não em dois, mas em três anos. Só para os fundos comunitários do Norte 2020 há um investimento de 5,5 ME em 2018 e 4,8 ME a fazer em 2019.

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