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Entrevistas

2019-05-18 às 06h00

José Paulo Silva

Luís Fernandes dirige o ‘gnration’ desde 2014. Em entrevista ao Correio do Minho e Rádio Antena Minho, considera o equipamento criado no âmbito de Braga Capital Europeia da Juventude 2012 uma referência nacional e internacional. O músico e programador cultural releva o impacto que o título de Cidade Criativa da UNESCO no domínio das Media Arts poderá ter na candidatura de Braga a Capital Europeia da Cultura.

P – Está à frente do ‘gnration’ desde 2014. Ao fim destes cinco anos, o ‘gnration’ é aquilo que o Luís Fernandes preconiza?
R – O ‘gnration’ está, definitivamente, no caminho que nós perspectivámos. É um processo contínuo. Felizmente, não vislumbramos um fim para ele. O caminho está a ser traçado e as coisas estão a correr muito bem.

P - Estamos a falar de um espaço com um programação que assenta na música contemporânea, na arte e na tecnologia, áreas muito orgânicas. Como é que Braga entrou no espaço ‘gnration’?
R - Esses dois pilares são os que regem a nossa programação e surgem porque sentia-se um certo posicionamento da cidade de Braga perante a arte e a tecnologia totalmente orgânico, sem ser institucional. Braga sempre foi uma cidade com uma relação muito forte com a tecnologia, ao nível empresarial e ao nível académico. A dada altura começou também a manifestar-se do ponto de vista artístico. Sendo juiz em causa própria, o aparecimento do Festival Semibreve foi um elemento de transformação, porque permitiu que viessem a Braga referências internacionais neste domínio artístico e, desde 2011, motivou uma série de processos do ponto de vista da oferta e da produção artística por pessoas e entidades da região.

P - O ‘gnration’ foi um investimento no âmbito da candidatura de Braga a Capital Europeia da Juventude. O espaço veio servir de abrigo a esses novos movimentos artísticos?
R - Claramente. O trabalho contínuo do ‘gnration’ ao longo do ano tem um papel preponderante e estruturante na nomeação de Braga como Cidade Criativa da UNESCO em Media Arts. A nossa singularidade tem a ver com a abordagem da programação de música contemporânea e à forma como complementamos a oferta cultural neste domínio no Norte de Portugal.

P - O ‘gnration’ é único no Norte de Portugal?
R - Na junção dessas valências, não é só único no Norte, é único a nível nacional. Não há nenhuma estrutura que tenha o perfil do ‘gnration’. Com isto não estou a tecer uma avaliação qualitativa, estou a fazer uma constatação de uma formalidade que existe. O ‘gnration’ tem uma identidade própria, que é explorada também na programação.

P - É um movimento de fora para dentro da própria cidade?
R - De certa forma, sim. Existia já um mestrado da Universidade do Minho que explorava esta ligação entre arte e tecnologia, existiam pessoas a trabalhar nesta área, mas às vezes é preciso que surja algo que junte e dê uma dimensão diferente às coisas. O Festival Semibreve, quando surgiu, pensado por pessoas da cidade de Braga, foi um evento muito de fora para dentro, mesmo em termos de público. Acabou por ter um papel transformador e induzir a criação artística na área. Uma das premissas do Festival Semibreve foi conferir à dimensão tecnológica que já estava na cidade algum ‘output’ artístico.
P - Estão a aparecer muitos artistas neste tipo de expressão artística?
R - Cada vez mais. Tenho indicadores com que lido no dia a dia. Por exemplo, na edição deste ano dos ‘Laboratórios de Verão’, uma iniciativa de apoio à produção de trabalhos neste domínio para pessoas do concelho de Braga, que são apresentados na ‘Noite Branca’, tivemos uma duplicação dos trabalhos. O que caracteriza este tipo de manifestações artísticas é que a tecnologia não é uma muleta, é algo que está intrínseco à ideia artística. Não basta cantar e pôr um vídeo por trás para dizer que é media arte.

P - Que característica são necessárias para que quem for ver um espectáculo perceba que está a ver media arte?
R - Quem vai ver, só deve estar preocupado em gostar. O que confere um pendor tecnológico a uma obra artística não é o facto de usar tecnologia, é o facto desta ser determinante na ideia artística.

Serviço educativo é um dos pilares da nossa programação

P – A cooperação do ‘gnration’ com o Instituto Ibérico Internacional de Nanotecnologia (INL) veio catapultar a vossa missão?
R – Essa parceria começou de forma rudimentar, em 2015, e ganhou contornos mais sérios a, partir de 2016, sendo que 2017 foi o ano em que funcionou de forma mais sólida. O facto de termos em Braga um laboratório de investigação científica deste nível leva a um potencial de atracção de artistas de um patamar mais elevado.

P - O INL abre-se à criação artística?
R - O programa que temos em vigor, o ‘Scale Travels’, de cariz internacional, baseia-se no modelo de residências artística do CERN, na Suiça. As nossas residências duram uma ou duas semanas e exploram uma corrente de investigação que esteja a decorrer no INL. Já aconteceu usarem dados para um ‘output’ artístico ou materiais utilizados na investigação científica. O programa é muito aberto e envolve imenso os cientistas. A partir dessa residência, o trabalho dos artistas é manifestado numa instalação, fundamentalmente na relação entre imagem e som.

P - Este programa coloca Braga no mapa mundial no que respeita a este tipo de manifestações artísticas?
R - Até porque não há muitos. O MIT e o CERN têm...

P - E em Portugal?
R - Com a escala do INL, não há muitos. A Fundação Champalimaud tem, por vezes, programas de apoio. A própria Fundação Calouste Gulbenkian tem destas interacções. O INL tem características muito particulares numa área específica da investigação científica.

P - Braga e a região Norte já apreenderam bem essa escala?
R - Seria errado dizer que chegamos onde queremos. É preciso educar o público para este tipo de manifestações, trabalhar com as escolas, explicar o que estamos a fazer. Não é um processo que se esgota em cinco anos. Os dois pilares da programação do ‘gnration’ desdobram-se em manifestações performáticas, expositivas e educativas. Para podermos trabalhar conteúdos de elevado interesse artístico, sem qualquer tipo de comprometimento e que funcionem no contexto de Braga, temos de colaborar com as instituições locais. Não basta trazer os nomes, há que saber trabalhar o público e fazer com que, passados dez anos, exista uma marca sólida na cidade. O serviço educativo é um dos pilares da nossa programação e, através dele, trabalhamos não só a mediação clássica no contexto museológico, mas, fundamentalmente, trabalhos práticos que tenham a capacidade de motivar crianças, jovens e adultos a experimentar esta relação entre arte e tecnologia.

P -?A robótica musical é uma das formas?
R - Fomos construindo diferentes ciclos programáticos, direccionados para diversos públicos. Temos concertos para bebés, temos ‘workshops’ para os idosos que fazem música com ‘ipads’, temos processos mais comunitários de intervenção social em que pessoas sem abrigo fizeram uma orquestra de ‘lap tops’. Queremos demonstrar é que esta área artística não tem nada de difícil ou elitista.

P - A configuração física do ‘gnration’, que não possui uma grande sala para espectáculos, não dificulta a exposição e divulgação do vosso trabalho junto de uma comunidade mais alargada?
R - O trabalho clássico do serviço educativo não é para muita gente. O ‘gnration’ está mais pensado para a criação do que para o mero acolhimento de espectáculos. É uma estrutura de incentivo à criação e à educação.

P - O projecto de transformação do antigo cinema S. Geraldo num centro media artes vai dar resposta à algo que já é feito no ‘gnration’?
R -Vai dar resposta a algo que não pode ser feito no ‘gnration’, porque não temos as condições técnicas e espaciais para tal. Imagino um futuro S.?Geraldo como uma entidade complementar em relação ao que faz o ‘gnration’. Há imensas coisas que não podem ser feitas no ‘gnration’, nomeadamente criação artística a um nível mais elevado.

P - Contribuiu para o conceito que o Município de Braga assumiu para o S.?Geraldo.?Que expectativas tem neste momento sobre o que vai ser o novo espaço?
R - O conceito para o S.?Geraldo surge no contexto da Cidade Criativa da UNESCO nas Media Arts. Uma das decorrências do plano da candidatura é a criação de uma estrutura com características que ainda não existem na cidade. Imaginamos ser um centro com características tecnológicas, técnicas e físicas que permitam criar trabalhos que de outra forma seriam impossíveis. Para a elaboração do que será o S.?Geraldo contribui eu, em nome do ‘gnration’, mas também o Theatro Circo e a equipa que liderou a candidatura a Cidade Criativa.

P - Não vai ser uma mera sala de espectáculos?
R - Não. A sala de espectáculos manter-se-à, com uma valência que acredito pode ser interessante para a cidade: deixará de ser uma sala só para lugares sentados, terá modularidade e plasticidade na sua abordagem. Poderá ter um balcão sem cadeiras em baixo, ou ser um auditório mais pequeno, bloqueando o balcão. Terá uma dinâmica interessante para se adaptar a contextos, porque nem todos os conteúdos que são programados têm de encher salas.

P -?Será também um espaço de produção?
R - O projecto que foi validado inclui um novo espaço no topo da actual sala, uma nova sala tendo em conta os requisitos técnicos necessários para a criação artística neste domínio, ao mais alto nível: uma ‘black box’.

P - Que tipo de expectáculos podemos antever nessa ‘black box’?
R - Falo de um espaço com características técnicas especiais. Por exemplo, pontos de suporte em todo o tecto para se poder montar um palco onde queiramos. Essa sala poderá receber espectáculos mas não será só para receber espectáculos, será também uma sala de trabalho, de investigação, de desenvolvimento de novas cenografia, de trabalhos audiovisuais mais complexos, de experiências emersivas de som ou vídeo. Este tipo de trabalhos precisa de locais muito específicos para serem construídos. Será errado pensar que o centro media?arts será só uma sala de espectáculos.

P - O estatuto de Cidade Criativa da UNESCO não está garantido para sempre. Terá de ser validado...
R - A cada quatro anos.

P - O projecto que está a ser idealizado para o edifício S. Geraldo será essencial para manter o estatuto?
R - É apenas um dos pontos importantes que temos no plano de acção. É importante para a cidade que o projecto avançe, mas a Cidade Media Arts não está refém do S.?Geraldo. Há eixos muito vastos que atingem pontos de relação com a comunidade, que estão a ser postos em prática, nomeadamente na área da Educação.

P - Disse recentemente que o serviço educativo do ‘gnration’ vai dar um grande salto a partir de Setembro. O que vai acontecer?
R - A experiência do serviço educativo do ‘gnration’, orientado para a relação entre arte e tecnologia - um trabalho quase pioneiro em Portugal -, tem sido muito positiva. Não faria sentido que se esquecesse este legado positivo. Na afirmação de Braga Cidade Criativa nas Media Arts sempre fez parte a criação de um serviço educativo abrangente. Mas o modelo que serviu de base foi o do ‘gnration’. Em Setembro será a abertura oficial desse serviço educativo, que terá uma agenda e nome próprios, uma linha editorial bem marcada, que sairá das paredes do ‘gnration’. Muitos projectos em andamento, nomeadamente o 0 + = Som, ganharão uma consistência de comunicação e de identidade no próximo ano lectivo.

P - As media arts entendidas enquanto actividade de enriquecimento curricular?
R - O que estamos a ensaiar é um formato similar, mas não é uma actividade de enriquecimento curricular, porque isso implica validações que não dependem só do Município. Esse será o objectivo. Este é um projecto de dimensão tão grande que envolve uma grande mobilização de meios humanos da cidade.?Capacitar pessoas para trabalhar neste domínio é algo que estamos também a encontrar.

P - Braga prepara-se para apresentar uma candidatura a Capital Europeia da Cultura (CEC). De que forma pode aproveitar o capital de Cidade Criativa nas Media Arts?
R - Este título está a ter tido em consideração para a candidatura a CEC. Sei que estes são processos muito estruturantes e abrangentes, é algo que estravassa para quase todos os domínios da sociedade. A Cidade Criativa das Media Arts será determinante, é uma prova de algo de que algo já foi feito no domínio cultural e que também torna a cidade distintiva.

P - O sucesso do novo serviço educativo será importante para dar corpo à candidatura a CEC?
R - Sem dúvida que será muito importante. Só pode ser valorizado. Mas este tipo de candidaturas e processos de decisão são complexos e com factores que estão fora do nosso alcance.

P -?A mudança da Fundação Bracara Augusta para o Theatro Circo vai ter alguma implicação no funcionamento do ‘gnration’?
R - Espero que tenha implicações para melhor.?Trabalhamos imenso com o Theatro Circo em termos de programação.?A centralização de gestão é muito positiva, o que não quer dizer que cada espaço perca a sua identidade. É o materializar de algo que já está a ser feito em termos de políticas globais de cultura para a cidade e de procura de mecenato.

Semibreve é um dos grandes eventos culturais do País

P – Em Junho, o ‘gnration’ tem agendado ‘Radiografia’, uma perspectiva sobre novos compositores bracarenses’. O que será esse evento?
R – É um belo exemplo daquilo que é missão do ‘gnration’. Um conjunto muito interessante de novos compositores no domínio da música mais erudita tem surgido em Braga. Por exemplo, o actual compositor jovem em residência na Casa da Música, Pedro Lima, é de Braga. Como ele, muitos jovens compositores têm dado cartas, têm ganho prémios. Normalmente, são artistas difíceis de apoiar, porque eles não interpretam as suas obras, não passam na rádio. O papel do ‘gnration’ é dá-los a conhecer e apoiá-los financeiramente no seu trabalho. É isso que faremos com esse evento.

P - Será um Festival?
R -?Não lhe chamaria um Festival, porque é um evento que dura uma tarde. Esta primeira edição de ‘Radiografia’ é focada em quatro jovens compositores:? João Carlos Pinto, Jorge Ramos, Pedro Lima e Sara Marita A cidade de Braga pode conhecer estes novos talentos.

P - É programador do Festival Semibreve. Disse numa anterior entrevista que foi o Semibreve que o levou ao ‘gnration’. O que vai acontecer de novo na edição deste ano, em Outubro?
R - Será a nona edição. O cartaz está fechado e a maior parte dos bilhetes estão vendidos. É um evento que começou de fora para dentro, esteve ligado à Capital Europeia da Juventude. Curiosamente, foi o único evento que juntou Braga Capital Europeia da Juventude e Guimarães Capital Europeia da Cultura, em 2012. Teve esse poder conciliatório. É um festival que se centra na música electrónica e na arte digital. Desde o início, atraiu muito público estrangeiro, e cresceu de forma muito solidificada até ao ponto em que colocámos os bilhetes à venda antes do Natal e eles esgotam. Tivemos cá o jornal ‘The Guardian’, em 2017, a escrever que o Semibreve indicava o futuro da música. ‘The Independent’ também já cá esteve, tal como muitas publicações especializadas. É um dos grandes eventos culturais do país.

P -?Disse, o ano passado, que o Semibreve é, provavelmente, o maior evento internacional de Braga, excepção feita à Semana Santa.
R - Na área artística, sim.

P - Que novidades temos no cartaz do Semibreve de 2019?
R - O Festival não tem propriamente cabeças de cartaz. Temos apostado imenso em novas criações, que são apresentadas em estreia mundial, sempre que possível colocando artistas portugueses a trabalhar com artistas estrangeiros. Este ano teremos um reputado músico inglês, Scanner, para uma encomenda do Festival, em colaboração com o realizador Miguel Tavares.?Será uma estreia mundial. Para além disso, o programa é muito ambicioso e muito vasto. Estamos muito entusiasmados.

P - E não há bilhetes?
R - Os bilhetes de pré-venda estão esgotados. A verdade é que não restam muitos. O ano passado, cerca de 40% do público era de fora de Portugal. Muito vem de Inglaterra.

P - Continua a ser um festival de baixo orçamento?
R - Sim. Fazemos pequenos milagres à custa das redes internacionais e da reputação que o Festival foi acumulando. Tornou-se apetecível vir cá, não tanto pelo cachet, mais pela projecção mediática.

P - Não têm ambição de crescer para um mega festival?
R - Não. Iria perder o seu interesse. Podíamos aumentá-lo para o dobro ou para a o triplo, mas perdia a sua identidade.

P - Mas já abriram o Semibreve à música de dança electrónica...
R - Sim, numa perspectiva muito funcional e complementar. Aquilo que é a música de dança no ‘Semibreve’, fora do Festival não seria classificada como tal.

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