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Médicos dentistas sentem-se “completamente abandonados”
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Médicos dentistas sentem-se “completamente abandonados”

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Médicos dentistas sentem-se “completamente abandonados”

Entrevistas

2020-05-09 às 06h00

Patrícia Sousa Patrícia Sousa

Sem apoios, os médicos dentistas sabem que vai ser “muito difícil” continuar de portas abertas. Nos últimos meses, tiveram apenas consultas urgentes e os próximos tempos avizinham-se complicados.

A medicina dentária foi a primeira actividade a ser suspensa no âmbito das medidas de combate à pandemia Covid-19, após recomendação da Organização Mundial de Saúde, estando reduzida “às situações de urgência”. E nestes últimos dois meses “praticamente ninguém trabalhou”, lamentou o médico dentista, Pedro Fonseca, exigindo do Governo medidas para apoiar os especialistas.
Pedro Fonseca aponta o dedo ao Governo pela falta de medidas de apoio. “Somos uma área muito pequena, exclusivista e com uma imagem que até temos dinheiro e não precisamos de ajuda. Mas o certo é que nos sentimos completamente abandonados e a nossa Ordem também nunca foi muito pró-activa”, acusou.

A nível económico, confessou Pedro Fonseca, os dentistas sentem-se “abandonados pelo Estado e pela Ordem dos Médicos Dentistas”. O médico dentista foi peremptório: “acho que podiam ter feito muito mais, a Ordem, por exemplo, limitou-se a perdoar-nos os 15 euros mensais da quota”.
Praticamente os primeiros a fechar, juntamente com outras áreas perigosas como a Otorrinolaringologia, a Oftalmologia ou a Dermatologia, os dentistas estão no topo de “maior risco de contágio”, por isso, “todo o cuidado é pouco”, admitiu Pedro Fonseca.

Durante estes meses, apenas foram atendidos os casos urgentes, com destaque para fracturas de uma prótese que impossibilita a pessoa de comer ou trabalhar ou outras situações agudas, exemplificou o médico dentista, referindo que estas consultas são efectuadas com muito equipamento de protecção individual, o que acaba por aumentar o valor da consulta.
“Nos primeiros tempos nem havia equipamento de protecção individual. A Ordem dos Médicos Dentistas foi dando algum apoio, muito limitado, mas não chegou”, lamentou.

Nos últimos dias, confessou o médico dentista, tem havido mais consultas, mas nada comparado com o que existia. “Estamos a falar de uma diminuição drástica e tão cedo não vamos voltar a ter o ritmo de consultas que tínhamos. As consultas vão ser mais demoradas, mais caras e mais direccionadas para resolver uma situação urgente”, adiantou Pedro Fonseca, que trabalha em várias clínicas dentárias.
O médico dentista duvida mesmo que nos próximos tempos se vão fazer, por exemplo, branqueamento ou limpeza de dentes. “As pessoas vão pensar duas vezes antes de ir ao dentista, primeiro porque têm medo e depois porque a consulta vai ficar mais cara”, justificou.
Com o tempo e o aumenta de oferta do equipamento de protecção individual, o dentista acredita que será “mais fácil e barato” adquirir. Por enquanto, o aumento que acresce à consulta andará sempre entre os 10 e os 20 euros.

Consultas marcadas previamente
As clínicas e consultórios dentários reabriram na passada segunda-feira e a Direcção-Geral da Saúde definiu várias regras. Todas as consultas, de utentes com e sem Covid-19, terão que ser marcadas previamente e os estabelecimentos devem fornecer máscara cirúrgica a todas as pessoas que não trouxerem uma. Os profissionais devem ainda usar equipamento de protecção que, nos casos de alto risco, inclui bata, máscaras FFP2 ou FFP3, óculos ou viseiras, luvas, toucas e protecções de calçado.Para evitar o risco de contágio, foi determinado que se faça uma triagem prévia antes de um atendimento presencial, por telefone ou e-mail.

São muitos os procedimentos a adoptar
Entretanto, também foram elencados todos procedimentos a adoptar antes da consulta, durante a consulta e após a consulta, e as especificações relativas aos equipamentos de protecção individual e à limpeza e desinfecção dos espaços. Além do fornecimento de máscaras, devem ser retiradas das salas de espera revistas, folhetos, máquinas de café e outros objectos que possam ser tocados por diversas pessoas e renovado com frequência o ar.
Os profissionais de saúde são aconselhados a não usar adereços como anéis, pulseiras, colares, brincos, bem como a não ter unhas artificiais. No gabinete do médico apenas será autorizada a entrada de acompanhantes em situações especiais.

Pessoas com Covid-19 atendidas em caso de necessidade imperiosa
O documento da Direcção-Geral de Saúde emitiu ainda uma orientação que estipula que, em situações “urgentes e inadiáveis” e em caso de necessidade “imperiosa”, pessoas com suspeitas de infecção ou infectadas com a Covid-19 podem ser atendidas “no final da manhã ou da tarde, em horários específicos”.

“Não temos hipóteses de trabalhar nestas condições”

As clínicas e consultórios de dentistas estão encerrados desde Março, depois do Governo ter suspendido, por decreto, a actividade de medicina dentária, estomatologia e odontologia, exceptuando apenas as situações “comprovadamente urgentes e inadiáveis”, devido ao alto risco de contágio nos cuidados de saúde oral. Nuno Fernandes é proprietário de uma clínica dentária numa aldeia. Os últimos tempos, confessou, foram “muito complicados”.

“Do lay-off ainda não recebi um euro e os preços do equipamento de protecção individual quadruplicaram ou até quintuplicaram. Tivemos que encerrar por ordem do Governo, mas mesmo sem essa ordem não tínhamos material para trabalhar com protecção adequada”, sublinhou o médico dentista, lamentando que a Ordem dos Médicos Dentistas se “limitou” a enviar 10 máscaras FFP2.
Os próximos tempos tem a certeza que “vão ser bem piores”, porque o preço da consulta vai ter que ser alterado e obviamente “as pessoas além de terem medo de ir ao dentista não querem pagar mais”. “Nas clínicas de aldeia temos um problema acrescido, porque já temos as consultas a preços mais reduzidas e usamos os mesmos equipamentos e materiais que as clínicas da cidade. Já estávamos na disponibilidade de trabalhar com margem inferior, mas agora com isto é impossível manter o preço”, lamentou.

Nuno Fernandes espera, por isso, que o Governo “ponha mão” nesta situação e tabele os preços dos equipamentos de protecção individual. “Estes preços são vergonhosos. Numa situação destas o Governo não tabela os preços? Não obriga as pessoas a manter os preços que eram praticados antigamente? Uma caixa de máscaras cirúrgicas, que comprava a 8 euros, agora custa 25 euros e as batas descartáveis que temos que usar numa consulta e deitar fora estava a comprar 10 batas a 6 euros + Iva e agora estão a 25 euros + Iva. É uma loucura completa. Não há hipótese de trabalhar nestas condições”, relatou o médico dentista, confidenciando que estão “desgraçados”. Nuno Fernandes foi mais longe: “não sei como vamos descalçar esta bota, mas vamos tentar”.

Uma coisa é certa: a consultas vão ter que aumentar para se conseguir pagar o material de protecção individual. “As pessoas não vão entender, mas não há mesmo como fugir a este gasto e vai ser assim em todo o lado”, alertou.
Entretanto, o Governo lançou um decreto-lei para uma linha de apoio para material de protecção com 80% a fundo perdido. “Mas se for como o lay-off, estava a contar receber no passado dia 28, e até agora nada, já meti a prorrogação e nada. Não sei como isto vai ser”, constatou.

Além disso, todo o processo vai ser mais complicado e moroso. “Estou a trabalhar com a assistente que tem que sair do consultório para cobrar a consulta. Por isso, tem que tirar o material todo, depois desinfectar a sala e todos os equipamentos e voltar a fardar. Vamos precisar de duas horas por consulta. Está muito difícil a nossa vida”, confidenciou.
Também Laura Feio, médica dentista em várias clínicas, partilha da mesma opinião. “Até agora, estivemos a atender consultas de urgência e tentamos fazer uma triagem para perceber se a consulta era mesmo urgente, porque eram permitidos fazer apenas 25 tratamentos ”, contou.

Os últimos tempos foram de adaptação. “Tivemos que alongar o tempo de consulta e usar equipamento de protecção que foi um pouco complicado para adquirir. O pouco que havia esgotou logo e para obter toda a protecção necessária para as consultas demorou cerca de um mês o que acabou por paralisar o nosso sector”, contou Laura Feio, apontando o dedo aos preços “exagerados” do equipamento de protecção individual.
Para além de estar “parada”, esta foi uma das profissões que foi proibida de exercer por decreto de lei mesmo antes do Estado de Emergência. “Ficamos completamente paralisados. Houve uma altura que não tivemos mesmo possibilidade de atender. Agora é que as coisas começaram a fluir mais um pouco, porque já chegou algum material”, contou.

A nível de cuidados também foi tudo alterado. “Nos locais onde estou a trabalhar têm dois consultórios disponíveis e estamos a fazer marcações de hora a hora para dar tempo para trocar toda a protecção e desinfectar o consultório usado. As consultas de meia em meia hora acabaram, porque precisamos, pelo menos, de uma hora de consulta, enquanto estamos num consultório e o outro está a ser desinfectado. Agora quando só há um consultório tudo se complica”, relatou.
“Vamos continuar a ter cuidados. Temos consciência que somos das profissões que mais podemos propagar o vírus, por isso só trabalhamos quando é mesmo necessário e com todas as condições”, defendeu a dentista.

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