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Entrevistas

2018-02-10 às 06h00

Rui Alberto Sequeira

Manuel Tibo quer qualidade no turismo em Terras de Bouro e investimentos que criem emprego, para travar a saída da população do concelho.

Manuel Tibo quer qualidade no turismo em Terras de Bouro e investimentos que criem emprego, para travar a saída da população do concelho. Eleito pela primeira vez presidente da Câmara Municipal o novo autarca entrevistado na Radio Antena Minho e no Correio do Minho, quer que o território tenha uma discriminação positiva para aceder a fundos comunitários e para ter condições de cumprir com a prevenção aos fogos florestais exigida pelo governo.

P- Após um processo de candidatura autárquica atribulado pelo Partido Social Democrata, que através da comissão política distrital, impôs o seu nome, contrariando a concelhia de Terras de Bouro que apoiava outro candidato, o ambiente político está mais calmo para permitir uma governação municipal sem sobressaltos?
R Foi um processo do conhecimento de todos terrabourenses. Afirmei que caso Joaquim Cracel, então presidente da Câmara Municipal de Terras de Bouro (CMTB) fosse recandidato, eu não o seria. Mas também disse, em diversos círculos, que se ele não avançasse, eu não ficaria em casa.

P Entretanto Joaquim Cracel não se recandidatou.
R Fui desafiado a ser candidato pelo PSD em Terras de Bouro. Mesmo sendo independente. Eu sempre apoiei o Partido Social Democrata quer em eleições europeias, legislativas. Eu não saltei de uma qualquer outra força política para o PSD.

P Não é militante do PSD?
R Passei a ser militante. No meu entendimento não fazia sentido ser presidente da Câmara, eleito pelo PSD e não estar inscrito no partido. Mostrei-me disponível para ajudar o Partido Social Democrata a voltar à liderança da Câmara Municipal. Eu tinha sido convidado e dei a minha resposta afirmativa a quem me convidou a ser candidato. A partir daí assumi a responsabilidade de liderar uma candidatura vencedora rodeando-me das pessoas que melhor poderiam contribuir para esse objectivo.

P Apesar de tudo não conseguiu obter a maioria absoluta na vereação, sendo obrigado a um entendimento com a vereadora Ana Genoveva, do movimento independente, para conseguir essa maioria. Não foi certamente o resultado esperado?
R Não foi o resultado que esperávamos. Mas queria concluir para dizer que actualmente o PSD local está a trabalhar para se tornar em Terras de Bouro um partido sólido e coeso. Cabe-me a mim, enquanto actual presidente do Município e á minha equipa, eleitos pelo Partido Social Democrata, unir. Foi essa ponte que já estabelecemos com a nova comissão política local. Como eu costumo dizer é preciso juntar os cacos e traçar novos caminhos para o PSD e para o concelho.

P - O PSD em Terras de Bouro está pacificado?
R - Ainda há algumas arestas por limar.

P - O candidato que a então concelhia do partido tinha escolhido acabou por concorrer por um movimento independente e ser eleito vereador estando na pratica na oposição, como é que pensa gerir este clima de tensão?
R - Ficando focado naquilo que é verdadeiramente importante. As questões políticas vão se resolver a seu tempo. Há muito trabalho para fazer em Terras de Bouro. Eu digo que ainda estamos no nível 1 enquanto muitos municípios á nossa volta já se encontram num patamar mais alto. Ainda temos problemas com o abastecimento de água, com o saneamento, com as acessibilidades, com questões estruturais como o emprego.

P - Ainda assim conseguiu uma maioria estável através de um acordo com a vereadora Ana Genoveva, eleita pelo Terras de Bouro, Nosso Partido.
R - Concorreu pelo movimento independente porque não aceitou o convite de integrar a lista do PSD à câmara em quarto lugar. No entanto a vereadora Ana Genoveva é da área social democrata e pressentiu que poderiam existir entraves na gestão do município pelo facto de não existir uma maioria estável. Foi mais fácil chegar a um entendimento com ela e é hoje vereadora a tempo inteiro.

P - Disse que Terras de Bouro, comparando com outros concelhos vizinhos, está num nível 1 de desenvolvimento e de aproveitamento das suas potencialidades endógenas porque é que isso acontece na sua opinião?
R - Quando digo que estamos no nível 1 é porque temos muitos problemas para resolver. Na área do saneamento por exemplo: temos um território com uma grande extensão (270 km2). A Águas do Norte tem as nossas etares, tem infraestruturas e tem projectos para concretizar até 2021. O que sucede é que tem de existir uma ajuda vinda de cima para que a empresa - que tem todo o direito a retirar lucros da sua actividade - possa investir num concelho com 7 mil habitantes e por conseguinte, com poucos utilizadores.

P - O Município está refém em termos de investimento na cobertura da água e saneamento, daquela empresa?
R - Está refém de uma estratégia - provavelmente - empresarial da Aguas do Norte. Terras de Bouro tem de ser discriminado positivamente. Tem de se olhar para nós enquanto um concelho que faz parte do único Parque Nacional no país, que integra a Reserva da Biosfera e que tem a Rede Natura.

P - Relativamente á Águas do Norte têm de existir, na sua opinião, decisões politicas que influenciem o investimento?
R- Certamente. Decisões políticas da administração central que nos ajudem e que permitam antecipar os investimentos. Reconheço que no quadro de uma estratégia empresarial Terras de Bouro não seja prioridade. Há investimentos que não conseguimos fazer através de fundos comunitários porque teríamos de aplicar aumentos brutais. Não iamos conseguír explicar a um munícipe que teria de pagar o triplo ou mais pelo preço da água. Terras de Bouro tem a água mais barata do país. A minha preocupação enquanto presidente da Câmara é menos com quem nos visita e muito mais com quem vive no concelho.

P - Recentemente esteve reunido com o eurodeputado José Manuel Fernandes, haverá uma forma de ultrapassar esses constrangimentos que impedem o Município de fazer candidaturas aos fundos comunitários porque não consegue cumprir com alguns parâmetros?
R - Vamos enviar informação para os diversos ministérios no sentido de perceberem que Terras de Bouro tem ainda muitos problemas estruturais por resolver. Os fundos comunitários são uma oportunidade, mas têm algumas exigências que não conseguimos cumprir. Se assim não for, quase que nos limitamos a atos de gestão corrente.

P - Através da CIM (Comunidade Intermunicipal) do Cávado da qual Terras de Bouro faz parte é possível conseguir alguma discriminação positiva?
R - Precisamos de perceber qual foi o procedimento, o que é que existiu nestes últimos quatro anos. Qual foi o esforço já feito. Neste momento ainda não tenho esse dossier preparado. Acredito, se tal for necessário, que haverá das restantes câmaras da CIM um gesto solidário.

P Recentemente fizeram a integração de trabalhadores.
R Ainda não fizemos. É uma situação que nos preocupa. Se tivéssemos uma empresa que se pudesses instalar em Terra de Bouro e criasse 70 ou 80 postos de trabalho seria muito bom. Nós não temos nenhum parque industrial.

P E faz sentido Terras de Bouro ter essas áreas.
R Faz sentido à escala do concelho, ter um espaço para acolher empresas que não sejam poluentes, mas que criem emprego.

P O que é na sua opinião falta fazer em matéria de turismo no concelho de Terras de Bouro?
R O turismo é a marca do concelho, mas tem de ser de qualidade. O turismo emprega muito gente, mas sazonalmente. Existe uma quantidade enorme de pedidos de alojamento local. Olha-se para a Terras de Bouro como sendo um território onde há oportunidade de negócio, de criação de equipamentos turísticos. Queremos investimentos que criem emprego.

P Receia que esses pedidos ligados ao alojamento local não tenham repercussão?
R Nós pretendemos que tenham. É preciso também perceber que Terras de Bouro tem um Plano Diretor Municipal muito restritivo, com a exigência de múltiplos pareceres ao nível da construção. Um dos problemas que temos de ultrapassar é o do ordenamento do território desde as pontes de Rio Caldo até a vila do Gerês. São sete quilómetros que nos meses de Verão se transformam num caos com milhares de carros e sem locais para estacionar

P A câmara não tem soluções a curto/médio prazo para atenuar essa situação?
R Tudo tem a ver com o envelope financeiro. Com dinheiro não se resolve tudo, mas resolvem-se muitas coisas.

P É aí que pode entrar a taxa turística?
R Não resolve os problemas todos mas ajuda em situações pontuais. Ainda em matéria de ordenamento do território temos reuniões com a GNR para preparar o Verão, mas as pessoas têm de ter uma alternativa para estacionarem os carros. Para se fazer uma terraplanagem são necessários um número infindável de pareceres.

P O santuário de São Bento da Porta Aberta é no âmbito do turismo religioso uma das mais-valias do concelho de Terras de Bouro?
R Não é por acaso que é o segundo local de peregrinação mais visitado do país. A Irmandade tem; através de um conjunto de valências que foi construindo e melhorando; criado muito emprego. Estamos a falar de um santuário visitado todos os dias do ano e que trás retorno económico assinalável para Terras de Bouro.

P O barco turístico na albufeira da Caniçada tem estado parado e era uma das atracções turísticas. Vai voltar este Verão.
R- Desde Julho do ano passado que o barco tem os motores avariados. O arranjo está a ser feito e esperamos que em breve fique novamente operacional.

P - A Albufeira da Caniçada é um activo importante na oferta turística do concelho.
R- Tem uma marina e diversos operadores turísticos que permitem a quem se desloca a Terras de Bouro ter naquele magnifico espelho de água, uma alternativa à montanha.

P A marina e o barco turístico são geridos pela autarquia?
R Sim ambos. Honra seja feita ao Dr. José Araújo, antigo presidente da Câmara Municipal que projectou este equipamento que é uma fonte de receita para Terras de Bouro. Há uma procura enorme de lugares na marina de Rio Caldo. Pretendemos junto da Agência Portuguesa do Ambiente (APA) aumentar a capacidade da marina e impor regras na utilização da albufeira.

P A vila termal do Gerês há umas décadas atrás era reconhecida pela qualidade das águas e do alojamento. Entende que aí também existe um trabalho a fazer pelos privados na requalificação dos espaços?
R Estamos integrados num programa transfronteiriço de acesso a fundos comunitários denominado Raia Termal destinado a ajudar a promoção das termas. Em várias reuniões percebemos que a qualidade das águas das termas não era o primeiro item nas escolhas, mas sim a zona envolvente e a qualidade dos hotéis.

P Para além de presidente da CMTB é também presidente da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Terras de Bouro (AHBVTB). Aliás fez depender em boa parte a sua candidatura à câmara da possibilidade de continuar a dirigir os bombeiros. Nesta dupla função como é que perspectiva os próximos tempos na prevenção e combate a incêndios, sendo por demais sabido que Terras de Bouro tem uma enorme mancha florestal e tem o PNPG?
R Ser presidente dos BVTB é um orgulho. É um trabalho que comecei há três anos - já estou nos órgãos sociais desde 1999. É uma associação onde existe um trabalho assíduo e profícuo de muita gente. Somos um grupo coeso desde os órgãos sociais passando pelo comando até ao corpo activo. Vejo os próximos tempos como sempre vi no passado com muita preocupação. Temos realmente uma área florestal imensa. Juntamente com o Parque Nacional ajudamos a defender aquela área protegida. Durante os últimos anos foram criadas equipas de sapadores florestais que são uma ajuda importante na prevenção dos incêndios.

P- Como é que é gerir uma corporação de bombeiros num concelho com 7 mil habitantes e com uma população envelhecida?
R Muita carolice e amor à causa. No pico da crise, digo com muito orgulho, foi quando os bombeiros de Terras de Bouro mais cresceram. A construção de um auditório é um dos nossos projectos.

P Foi desenvolvido na área do PNPG um projecto piloto que grosso modo, incide no restauro de áreas ardidas, no reordenamento florestal, no reforço dos equipamentos e no aumento das equipas do Corpo Nacional de Agentes Florestais. E quanto a Terras de Bouro?
R Vamos ter no próximo dia 14 uma reunião com o Instituto de Conservação da Natureza e Floresta (ICNF), no Vidoeiro, para debater a aplicação de alguns aspectos do programa-piloto no concelho. Recentemente conversei com a secretária de estado do Ordenamento do Território para acelerarmos alguns investimentos como a criação de bolsas de estacionamento, o acesso à Mata da Albergaria, a colocação de uma pavimentação em calçada afiada.

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