Correio do Minho

Braga, terça-feira

“É urgente criar lares residenciais”
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“É urgente criar lares residenciais”

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Braga

2010-08-02 às 06h00

Patrícia Sousa

Instituto Novais e Sousa, que pertence à Associação Creche de Braga, funciona como Centro de Actividades Ocupacionais (CAO) para pessoas com deficiência mental. Mas o futuro destes utentes está em risco, caso não se criem urgentemente lares residenciais.

O futuro dos 65 jovens/adultos com deficiência mental, que frequentam o Centro de Actividades Ocupacionais do Instituto Novais e Sousa, preocupa a directora técnica. Lucinda Vilaverde alertou para a urgência de se criarem lares residências para receber estas pessoas.

“O que me preocupa e me incomoda mais é que um dia que os pais desapareçam é preciso alguém cuidar destes jovens e adultos. Nenhum dos que temos cá são capazes de sobreviver sozinhos, não conseguem sequer ter noção do valor do dinheiro”, confidenciou aquela responsável. E explicou: “a maior parte dos utentes qu temos são adultos entre os 30/35 anos e os pais já têm 70 anos. A vida dos irmãos é complicada e as pessoas não podem, simplesmente,
deixar de trabalhar para ajudar os irmãos”.

O problema é que, segundo Lucinda Vilaverde, “ninguém quer investir ou apostar num projecto destes, muito menos quando isso implica trabalho nocturno”. E mesmo com apoios financeiros “não se investe nesta área”, referindo que “no âmbito do Programa Operacional do Potencial Humano (POPH) havia possibilidades se apresentar candidaturas nesta área e não apareceu nenhuma”.

Mas, segundo aquela responsável, “o caminho a seguir tem que ser por aí”. Perante a realidade, “a maior riqueza que se pode dar a estes meninos é ajudá-los a serem o mais autónomos e integrados na sociedade possível”, frisou Lucinda Vilaverde, admitindo que “enquanto a sociedade não os incluir, a inclusão não funciona”.

No trabalho que é feito diariamente junto destes utentes, as actividades lúdicas e recreativas são as que permitem mais resultados. “Todos eles são muito bem comportados porque gostam desta ou daquela actividade e canalizam tudo para a tarefa que mais gostam. Assim são felizes e é muito fácil fazê-los felizes”.

E justificou: “com pequenos gestos ficam felizes. Desde que saibamos olhar para eles é muito fácil e o retorno acaba por ser imediato. Eles enchem-nos de beijos e abraços e esses momentos são os mais gratos da vida”. Para aquela responsável “não há nenhuma área tão grata como esta e quem está de fora não percebe que é tão gratificante trabalhar com eles”.
Estas crianças quando nascem “são filhas de Deus menor e as expectativas dos pais são tão poucas, que muitos desistem delas”.

Grupo de Zés Pereiras é “cartão de visita”

Em todas as festas e actividades da cidade, lá estão eles a animar quem passa. Mais de 20 jovens e adultos do Instituto Novais e Sousa venceram o desafio e há dois anos tocam bombo. Hoje o Grupo de Zés Pereiras de Novais e Sousa “é o cartão de visitas” da instituição.

A directora técnica do Novais e Sousa, Lucinda Vilaverde, acredita que os jovens e adultos “ganharam muito a nível da motivação”. E explicou: “as actividades lúdico/recreativas são as que mais servem para a inclusão social de dentro para fora e de fora para dentro. E quando os utentes saem para tocar bombo têm um comportamento digno. Na rua já ninguém diz ‘olha os coitadinhos’, já perguntam é ‘como é que são capazes de tocar assim?’”.

No Grupo de Zés Pereiras de Novais e Sousa participam 22 utentes e cinco colaboradores. “A motivação é determinante para o progresso deles e eles querem tocar bombo sempre, centraram ali as suas potencialidades. Até os nossos dois ‘diabinhos’ entraram para o grupo e a partir de então são um espectáculo. Pena é que mais não tenham capacidades para lá estar”, lamentou Lucinda Vilaverde.

Mas o instituto oferece outras actividades aos utentes que chegam maioritariamente do concelho de Braga, mas também de Terras de Bouro, Vieira do Minho, Póvoa de Lanhoso, Amares e Guimarães.

Várias actividades

O instituto, que funcionava desde 2002 como Centro de Actividades Ocupacionais, recebe utentes a partir dos 16 anos, oferecendo-lhes várias actividades ocupacionais. “Temos os bordados de lenços de namorados, maioritariamente frequentado por raparigas. As tapeçarias onde fazem arraiolos, pontos lançados e esmirna. A tecelagem, onde estão raparigas e rapazes.

A carpintaria, onde estão só homens, a cestaria, a olaria e a pintura de azulejos com lenços dos namorados. Depois há ainda jardinagem e horticultura”, revelou aquela responsável.
Os utentes têm ainda à disposição algumas actividades terapêuticas, onde praticam educação física, natação e terapia ocupacional para os casos mais complicados.

“Aqui somos felizes”

Passa pouco tempo das 10 horas e os técnicos já ajudam os utentes do Instituto Novais e Sousa a colocar protector no corpo. “Vamos à água?”, pergunta um. Logo atrás outro pede: “deixa-me ir nadar”. É assim sempre que os jovens e adultos daquela instituição vão para a piscina da Rodo-
via. A alegria e a felicidade ficam estampadas no rosto.

Depois de uma caminhada do instituto até às piscinas, os jovens e adultos só querem ir para a água. E já dentro da água, rapazes e raparigas fartam-se de nadar, de brincar ou simplesmente estar dentro da água.

A assistente social do Instituto Novais e Sousa, Sónia Peixoto, admitiu que “todas as actividades que sirvam para que os jovens e adultos com deficiência sejam vistos na sociedade são muito importantes”, porque, justificou aquela técnica, “é fundamental que as pessoas tenham noção da realidade e aprendam a lidar com eles”.

Sónia não tem dúvidas. “Esta população é fantástica e as pessoas têm uma ideia errada, porque até é mais fácil lidar com eles do que com um jovem adolescente que nunca se sabe muito bem o que se passa com ele”.
Para os utentes estar na piscina é sinónimo de alegria. “Para alguns deles ir de férias com a família é bom, mas na idade deles também preferem passar férias com os amigos. É um contexto diferente e que lhes agrada”.

Também o professor de Educação Física, Ricardo Martins, acompanha estes jovens e adultos, que sofrem de deficiência mental. “Durante o ano, os utentes têm natação e praticam educação física. Além disso, participamos sempre em torneios de futebol e em convívios com outras instituições e escolas”.

A actividade física é fundamental para eles e acaba sempre por nunca ser suficiente. Mas o tempo não dá para tudo, porque é preciso trabalhar individualmente cada um e combater, sobretudo, a obesidade que tanto os afecta”, referiu o professor.

Para Ricardo, todos os utentes que frequentam a instituição “são muito especiais, têm as suas limitações, mas são perfeitamente normais”. Por isso, para o professor “é gratificante trabalhar com todos eles, proque com o mínimo gesto eles ficam felizes”. E actividades como ir à piscina deixam-nos “totalmente motivados e isso acaba por ser fundamental para a integração e a socialização”.

Nos locais por onde os utentes da instituição passam, as pessoas já estão “habituadas”. “A mentalidade começa a mudar aos poucos e as pessoas já têm outra percepção. Eles são alegres, metem-se à conversa e à confiança com toda a gente. Por isso, quer se queria quer não, as pessoas acabam sempre por ter algum receio, porque eles não conseguem controlar os sentimentos”, vincou Ricardo Martins.

O certo é que os jovens e adultos já são uma “verdadeira família”. “A instituição encerra em Agosto, mas nos últimos dias de Julho alguns já ficam em casa, mas quando sabem que vamos para a piscina têm que vir”, confidenciou o professor, assegurando que eles “aqui são felizes”.

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