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João Oliveira: Hospital de Braga projecta Unidade de Cuidados intermédios

Entrevistas

2019-11-23 às 06h00

José Paulo Silva José Paulo Silva

João Oliveira, presidente do conselho de administração do?Hospital de Braga EPE, garante que o utente comum não deu conta do fim parceria público-privada (PPP), ao abrigo da qual esta unidade de saúde foi gerida nos últimos dez anos. Em entrevista ao Correio do Minho e Rádio Antena Minho, o gestor público aponta a Unidade de Cuidados Continuados como objectivo mais próximo do que a criação de um serviço de Cirurgia Cardio-torácica. A nova administração confia na manutenção da elevada diferenciação e produtividade do Hospital de Braga.

P - Sente que há uma pressão extra sobre o trabalho do seu conselho de administração, sendo o Hospital de Braga um exemplo de reversão de uma parceria público-privada (PPP)?
R - Sim, é verdade. A pressão é grande, as expectativas são elevadas, mas também aumentam o desafio. O Hospital de Braga é, sem dúvida, de referência e os seus profissionais construiram uma unidade de elevada diferenciação e produtividade. O meu papel torna-se, por um lado, mais difícil, mas, por outro lado, mais facilitado, porque o plano está montado e os profissionais estão habituados a uma gestão exigente.

P - Tem experiência de gestão pública de hospitais com alguma dimensão, que está sempre limitada pelas condicionantes da administração pública. Isso levanta outros obstáculos, comparando com a gestão privada?
R - É conhecido que as limitações da gestão pública são bastante elevadas, essencialmente naquilo que diz respeito aos recursos humanos e à elevada burocracia a que estamos obrigados nos processos de aquisição. É normal que tenhamos algumas dificuldades acrescidas. A flexibilidade da gestão dos recursos humanos é, claramente, o maior desafio para manter a máquina oleada. Eu acredito que será possível manter a máquina a funcionar. Já passaram dois meses e meio e o Hospital de Braga tem estado a responder de forma positiva, até com algum crescimento de produção.

P - A questão dos recursos humanos tem vindo muito ao de cima noutras unidades de saúde. No Hospital de Braga conseguiram manter a equipa?
R - Sim. Com a abertura da tutela, conseguimos manter a metodologia de trabalho que vinha a ser seguida, quer na gestão da produção adicional de consultas e cirurgias, quer na forma de remuneração das equipas. O objectivo era ter o menor impacto nos profissionais, o que terá menor impacto na população. Houve algumas saídas, mas num processo normal. Mesmo antes da transição, no dia 1 de Setembro, algumas saídas foram imediatamente compensadas.

P - Essas práticas, negociadas com o Ministério da Saúde, podem manter-se?
R - Demonstrando que o trabalho médico e a forma de o remunerar são positivos, ganhamos todos: o profissional que se sente satisfeito e não precisa de ir trabalhar para outros locais para ter um vencimento complementar, e o Hospital que vê menos doentes a sair e os tempos controlados.

P - Neste início de mandato teve de lidar com a situação do horário de trabalho e salários do grupo de assistentes operacionais. Anunciou que os problemas ficariam resolvidos até ao final do ano...
R - Há a questão do salário mínimo da função pública que é diferente do sector privado. Já no vencimento deste mês de Novembro, regularizámos a situação, isto é, os funcionários que tinham salário mínimo abaixo do salário mínimo do Estado foram colocados numa situação de normalidade, com rectroactivos. O Hospital de Braga, enquanto PPP, não estava obrigado a contratos colectivos de trabalho. Havia uma acordo de empresa, por exemplo, com os médicos, que vai continuar. No caso das outras categorias profissionais, há a expectativa de que, imediatamente, passem aos acordos colectivos de trabalho. Na prática não é assim. Tem a tutela de o permitir, porque isso tem impactos na gestão operacional, mas também no orçamento do Hospital.

P - O Ministério da Saúde está atento aos constrangimentos decorrentes da passagem de PPP a Entidade Pública Empresarial (EPE)?
R - O Ministério referiu várias vezes que estava atento ao problema dos trabalhadores.

P - Pode dizer-se que o Ministério da Saúde trata o Hospital de Braga com pinças?
R - O Hospital de Braga merece essas pinças, porque tem uma diferenciação muito significativa e uma produtividade bastante elevada.

P -O acordo de empresa com os médicos estabelece uma diferença em relação aquilo que é praticado noutros hospitais EPE?
R - É normal isso acontecer.

P - Isso pode estancar a saída de médicos para o sector privado?
R - Estamos atentos.

P - O Hospital de Braga não tem carências a esse nível?
R - O Hospital precisa de reforçar as equipas. Estamos num período de contratação interna, a negociar com cada um dos directores de serviço a produção e os recursos para 2020. Há algumas necessidades.

P - Quais são as áreas mais críticas?
R - Há áreas cirúrgicas com algumas necessidades. Há equipas pequenas que sofrem do crescimento de algumas áreas. Há serviços como o maxilo-facial que só tem dois cirurgiões.

P - O reforço de pessoal é essencial para cumprir o objectivo de reduzir drasticamente as listas de espera para cirurgias?
R - O objectivo é sempre esse: reduzir drástica e rapidamente. Nem sempre é possível conseguir esse objectivo com essa elasticidade. Muitas vezes, tem de ser com acções de médio e longo prazo e sustentáveis. Podemos resolver rapidamente um problema e depois ter um efeito de avalanche que nos acarrete um problema maior.

P - Há novos investimentos a nível da oferta hospitalar privada em Braga. Como é que o Hospital público se relaciona com o sector privado.?Há mercado para um Hospital público de grande dimensão e para várias unidades privadas?
R - A relação com os hospitais privados é pacífica. Nós não competimos por doentes, os privados entre si, sim. Tem vindo a alterar-se um pouco a estratégia dos hospitais privados. Normalmente querem profissionais de saúde por curtos períodos de tempo. Isso tem vindo a mudar em alguns grupos. Temos de ultrapassar isso com contratações, que podem ser através de contratos individuais de trabalho ou em prestação de serviços. Não deixa de ser um tema quente, que nos obriga a estar atentos a esta relação com os profissionais. Acho que vamos continuar a ter a flexibilidade de propiciar aos nossos profissionais produções adicionais que lhes permitam continuar a trabalhar e não precisar de recorrer a outros hospitais.

P - O Hospital de Braga posiciona-se bem perante as unidades privadas?
R -?Sem dúvida. Em termos de diferenciação está excelente e vamos apostar em maior diferenciação. Em alguns casos, a diferenciação obriga a optimizar tempos e nós, em alguns casos, temos a necessidade enorme de optimizar os tempos do bloco operatório. O Hospital de Braga tem 12 salas de bloco operatório, uma das quais funciona como urgência. As outras funcionam seis dias por semana, 12 horas por dia com uma produção muito elevada. Ao domingo de manhã, temos metade das salas a fazer cirurgia. Este nível não é visto noutros hospitais públicos e os profissionais, continuamente, estão a exigir-nos mais tempo de bloco operatório.

P -?Há capacidade para usar mais o bloco operatório?
R - Estamos a tentar trabalhar para além das 20 horas. Há vontade dos serviços em operar mais, porque há doentes em espera, mas os tempos normais do bloco operatório já estão ocupados. Temos de ser imaginativos.

P -?Para isso precisam, como disse, de mais especialistas.
R - Alguns serviços estão mais carenciados.

P - A ortopedia é, ainda, uma área muito crítica?
R - Para a produtividade que tem, a ortopedia é um serviço muito curto. Para além de uma urgência polivalente pesada, recebe doentes de toda a região. Neste momento há quase cinco mil doentes inscritos para cirurgia. É uma das áreas que tem um tempo de espera muito elevado e que precisamos de reforçar claramente.

P - Tendo em conta a vasta área de influência do Hospital de Braga, não seria mais razoável um reforço de resposta de outros hospitais?
R - Esta mudança para a gestão pública é uma oportunidade para fazer acordos de parceria com outros hospitais: Guimarães, Famalicão e Barcelos. Nós não competimos entre hospitais. Temos de falar em urgências regionais, em aproveitamento e não duplicação de recursos.

P -?E a reformulação dos centros de saúde?
R - Há muita necessidade de reforçar a relação com os centros de saúde. Estes têm necessidade de reformular as normas de referência e criar uma ligação mais curta. É uma oportunidade que temos de aproveitar.

P - O estatuto público do Hospital facilita esse diálogo?
R?-?Não é só facilitar. Nós temos essa obrigação.

P - Qual o ponto de situação no Hospital de Braga em termos de lista de espera?
R - Em termos de acesso, o Hospital de Braga está muito bem.?Nas consultas temos das listas de espera mais controladas. Há serviços, como a genética, com tempos de espera difíceis. Mas estamos a falar de um serviço com um médico. Precisa de um reforço muito significativo para dar resposta às solicitações.?Na parte cirúrgica, apesar da excelente resposta, há serviços que têm dificuldades: ortopedia, cirurgia geral na perspectiva de obesidade. Estamos a trabalhar no sentido de lhes dar mais tempos e capacidade de resposta para poderem recuperar.

P - Já anunciou a necessidade de criar uma Unidade de Cuidados Intermédios.?Quer explicar?
R?- No Hospital de Braga existe uma unidade de cuidados intermédios que é a Urgência, que tem uma pressão enorme sobre a actividade assistencial. Temos uma média de 550 atendimentos por dia e, nos últimos dois meses, sempre acima dos 650 atendimentos, o que significa que é uma Urgência pesada e com um nível de procura muito elevado. Esta unidade de cuidados intermédios acaba por estar muito pressionada.

Quando os doentes já não precisam dos cuidados intensivos, a única solução é passá-los para o internamento, com um nível de cuidados mais básicos. É um salto muito grande. Hoje, a maior parte dos hospitais tem unidades de cuidados intermédios, por onde passa um doente que sai dos cuidados intensivos, antes do internamento. No Hospital de Braga não existia essa preocupação. Precisamos de ter mais camas de cuidados intensivos para mais cirurgias diferenciadas e criar uma unidade de cuidados intermédios entre 10 e 16 camas.

P - Há dificuldades para não se ter criado essa unidade?
R - Há problemas organizativos que devem ser tido em conta. Há serviços com visões diferentes sobre o assunto. É preciso criar consensos. Dois meses é muito pouco tempo para tomar uma decisão. É preciso sustentá-la e tomar uma decisão consciente.

P -?A administração do Hospital tem em perspectiva criar mais alguma valência?
R - Há uma valência que não é para amanhã nem para muito breve prazo, mas que o Hospital tem de pensar a médio prazo: uma unidade cárdio-toráxica. Há dois centros, em Vila Nova de Gaia e no Hospital de S. João e foi previsto um terceiro centro na região Norte. Eu sou de opinião de que esse terceiro centro deveria abrir em Braga, até porque não faz sentido ter um terceiro centro no Grande Porto.

P - Isso passaria pela criação de um novo bloco operatório?
R - Eventualmente.

P - Falou da pressão sobre a Urgência do Hospital de Braga. O problema não pode ser resolvido com outro tipo de articulação com outros hospitais da região?
R - Acredito que nos outros hospitais o problema é ter recursos para manter as urgências. Braga é o Hospital de referência e tem de responder, não pode encaminhar para outro lado, porque já é um Hospital Central.

P - Em?Braga há condições para continuar a dar resposta adequada a esse aumento de procura?
R - Sucessivamente, temos de reinventar e arranjar soluções. A resposta mais fácil é dizer que precisamos de obras, de mais investimento. Temos de esgotar todas as possibilidades de reorganização interna, temos de o fazer continuamente. O edifício do Hospital de Braga tem dez anos...

P - Já está a sofrer de algumas dores de crescimento?
R - Sem dúvida que sim. Se tivesse uma Unidade de Ambulatório conseguia produzir muito mais. Há falta de gabinetes para consultas. Mas ainda há possibilidade de melhorar a utilização.

P -?Na Urgência, os tempos de espera e a qualidade do atendimento estão dentro do razoável?
R - Estão dentro de todos os parâmetros. Se quisermos pensar que os tempos do contrato de gestão eram exigentes, estamos dentro desses tempos de espera. Continuamos a olhar para esse nível de exigência. É natural que haja dias em que as coisas se complicam. Se uma Urgência está programada para 550/600 atendimentos por dia, quando tem 750 o tempo de espera deteriora-se. Por outro lado, temos de trabalhar com os centros de saúde. O número de doentes verdes e azuis é bastante elevado, bem acima dos 30%.

P -?Nesta altura do ano, a situação é normal?
R - Já tivemos um plano de contingência com o aumento das doenças respiratórias. Já tivemos uma ala adicional pelo aumento do número de doentes. A sugestão que damos é que o 808 24 24 24 é sempre a melhor solução antes de ir à Urgência do Hospital. Tendo de deixar esta recomendação.

P - Qual é o peso dos medicamentos no orçamento do Hospital de Braga, sendo certo que, no passado, houve queixas relativamente à aplicação de medicamentos a doentes de esclerose múltipla e VIH/Sida?
R - O Hospital de Braga não faz qualquer tipo de limitação ao tipo de tratamento dos doentes. Em doenças oncológicas, por exemplo, temos os fármacos mais inovadores que sejam pedidos. O nível dos nossos tratamentos é sobreponível a qualquer outro hospital do país. É lógico que tem de haver parcimónia muito séria na utilização dos fármacos, sobretudo na imunoterapia. Confio plenamente nos nossos profissionais e no rigor da prescrição. Em termos de factura, os medicamentos são a grande ameaça, a par dos recursos humanos. A factura do medicamento é sempre uma preocupação. Por exemplo, continuamos com entrada elevadas de doentes com cancro do pulmão e felizmente temos ferramentas para o tratar, pelo que a sobrevida é muito superior em relação a alguns anos atrás. Não é possível fazer limitação a esses tratamentos. Estamos a recuperar também algum atraso no tratamento dos doentes hepáticos.

P - Com a passagem do Hospital a EPE, o Governo assegurou um envelope financeiro para 2019. Já tem perspectivas para 2020?
R - Há um entendimento de que o Hospital de Braga tem uma produtividade muito elevada e da necessidade de manter esse nível de produtividade e de satisfação dos profissionais. Há um entendimento por parte dos ministérios das Finanças e da Saúde de que não faz sentido que o Hospital EPE inicie já em perdas. Não estamos a negociar com a tutela valores irrasoáveis, mas um orçamento que seja possível manter o Hospital com prazos de pagamento controlados e com a possibilidade de inovação e de tratamento de doentes. Há a preocupação de ter um orçamento que permita cumprir com as obrigações salariais e consumos clínicos.

P - O orçamento do Hospital ronda que valor?
R - Entre 200 e 210 milhões de euros. Com os serviços adicionais pode ir até aos 200 milhões de euros. Esta é a perspectiva para 2020.

P - Um utente comum do Hospital de Braga notou esta passagem de PPP para EPE?
R - Acho que não. Quem presta cuidados de saúde são os profissionais, que são os mesmos. O nível de atendimento manteve-se. O cidadão comum não pode ter notado uma mudança de gestão, até porque não foram tomadas medidas que permitissem criar essa expectativa. Com o tempo, a população vai sentir alguma flexibilidade em determinadas áreas, nomeadamente na dispensa de medicamentos.
P - Esteve como presidente do conselho de administração do Centro Hospitalar de Trás-os-Montes e Alto Douro...
R - Foram três anos muito enriquecedores. Percebi o cenário da interioridade que não conhecia. A realidade e as dificuldades são bem diferentes daquilo que é um Hospital Central. Braga é um desafio bastante diferente, não só porque é a passagem de uma estrutura organizada de forma privada para uma estrutura pública. É um desafio enorme constituir equipas de novo para as áreas financeira e de compras.

P- Na parte clínica, manteve as equipas. Foi uma opção clara?
R - Foi uma opção estratégica.

P - Os principais constrangimentos nesta fase tiveram a ver com a contratação de produtos e serviços?
R - Foi um desafio enorme. Um Hospital privado não faz concursos. Um Hospital público está obrigado a um conjunto de procedimentos para tudo aquilo que compra

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