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João Costa: Têxtil e vestuário é sector promissor e com futuro
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Entrevistas

2015-03-07 às 06h00

José Paulo Silva

JOÃO COSTA, presidente da Associação Têxtil e Vestuário de Portugal, destaca o bom momento que o sector atravessa neste momento. Em entrevista ao Correio do Minho e Rádio Antena Minho, o líder da maior associação do sector assegura que o crescimento das exportações e do emprego são sinais de vitalidade de um sector com futuro

P - Estamos num momento de crescimento do sector têxtil e vestuário em Portugal, com as exportações a crescer...
R - Sem dúvida. As exportações do sector tiveram uma evolução muito significativa nos últimos anos, com um crescimento de 30 % em relação a 2009, um acréscimo de mais mil milhões de euros. Em 2014, as exportações atingiram 4, 6 milhões de euros. O têxtil e vestuário é um sector que representa muito na região Norte e muito no distrito de Braga. Braga é o distrito mais importante, representa quase 60% das exportações do sector. A evolução dos últimos anos leva-nos a aceitar que o têxtil e vestuário deu a volta, conseguir tornar-se competitivo e com capacidade inovadora.

P - O que é que levou a isso?
R - O que aconteceu foi uma reestruturação que levou o sector a produzir com mais criatividade e com uma resposta acrescida. Também houve alterações tecnológicas e a qualificação das pessoas. Durante muitos anos trabalhámos em grandes séries e em produtos de pouco valor acrescentado. Nos últimos anos, tem acontecido uma deslocação na cadeia de valor, com as empresas a procurarem ser cada vez mais inovadoras e criativas, apoiadas em centros tecnológicos e numa certa dinâmica de promoção externa. Teremos atingido mais de mil participações em mais de 60 feiras de 35 países, em 2014.

P - Este crescimento do sector têxtil e vestuário aconteceu num período em que a economia portuguesa passou por momentos muito difíceis. A evolução foi consequência da crise ou o resultado de um trabalho que vinha de trás?
R - A crise não veio, numa primeira fase, trazer maior procura dos nossos produtos, mas podemos dizer que levou as empresas nossas clientes a colocar as suas encomendas em países com capacidade de resposta em tempo mais curto, como é o caso de Portugal. Talvez a crise, nesse domínio, nos tenha favorecido. A questão coloca-se mais ao nível da reestruturação que o sector empreendeu, da requalificação das empresas e da aposta na deslocação para produtos mais exigentes e inovadores. Houve uma deslocação na cadeia de valor e na capacidade de responder a outras necessidades e exigências dos clientes. A partir de 2005, nós tivemos um período muito difícil com a entrada da China, Índia e outros países na Organização Mundial do Comércio. Apareceram produtos no mercado a preços que não chegavam sequer a pagar a matéria prima, o que quer dizer que havia um ‘dumping’ muito acentuado. Durante alguns anos, houve um desvio imenso das encomendas de Portugal para alguns países asiáticos.

P - Quando é que se dá a inversão?
R - Entre 2005 e 2007, conseguiu-se uma graduação da abertura a certos produtos. Surge depois a crise financeira e económica que conduziu a uma quebra muito acentuada do consumo, em especial na Europa, com uma quebra muito significativa das exportações em 2009. Penso que a crise, numa primeira fase, terá sido favorável ao sector têxtil e vestuário porque, face a situações de intermitência e volatibilidade do mercado de consumo, as empresas optaram, em parte, por colocar as suas encomendas mais em cima do local e do momento da venda, deslocando-as para a Europa. O próprio sector procedeu a uma reestruturação que o levou a níveis de desempenho mais seguros e mais consentâneos com as exigências do mercado. Há que considerar que, neste sector, há uma grande capacidade de resistência e resiliência da parte dos empresários.

P - O discurso político não chegou a dar o sector têxtil e vestuário como quase perdido, em que não valeria a pena fazer grandes investimentos?
R - Esse foi um erro crasso que o poder político cometeu. Há uma cultura quase doentia à volta dos sectores tradicionais da economia. Foi preciso que, neste momento de dificuldades, muitos sectores afundassem - incluindo as novas tecnologias, empresas como a Portugal Telecom e o sector financeiro - para que o têxtil e vestuário emergisse com um vigor e uma capacidade competitiva e os políticos, de uma forma complacente, comecassem a olhar para ele com alguma importância. Neste sector todos querem ter diferenciação, o que leva a que capacidade de in- venção seja permanente. O sector teve de fazer um processo de aculturação e de promoção da sua imagem de modo a conseguir ser visto de uma outra forma. É um sector tradicional porque tem um grande saber acumulado, mas isso é positivo. Portugal é, neste sector, um dos melhores países do mundo. Não devemos negligenciar isso. Faz-se em Portugal do que melhor há no mundo.

P - O sector têxtil e vestuário tem duas áreas importantes de implantação no distrito de Braga, os vales do Ave e Cávado, onde fecharam muitas empresas e se perdeu muita mão-de-obra. Ultimamente, tem-se assistido a uma recuperação do operariado têxtil?
R - Tem havido, de facto, uma recuperação de mão-de-obra e de empresas. Há 20 anos tínhamos muito mais gente empregada e muito maior número de empresas no sector, mas hoje não temos menor volume de negócios. Estamos quase a alcançar o máximo de exportações do têxtil e vestuário, que foi de 5,1 mil milhões de euros em 2001. Nessa altura, tínhamos cerca de 245 mil trabalhadores e, provavelmente, o dobro das empresas que temos hoje. Produzindo menos, produzimos com mais valor acrescentado. Hoje temos uma estrutura empresarial diferente e um nível de qualificação das pessoas mais exigente e elevado.

P - Desde há uns anos que não é muito apetecível, por exemplo, alguém tirar um curso de engenharia têxtil.
R - Se, no passado, isso podia ter alguma razão de ser, hoje não tem. Nestes últimos dois anos temos assistido a uma recuperação do emprego no têxtil e vestuário. O ano passado, terá havido uma recuperação de cerca de quatro mil postos de trabalho. É verdade que o sector se defronta, nesta altura, com escassez de mão-de-obra.

P - Qualificada?
R - Mesma naquela em que a qualificação é menor ou mais rápida também há insuficiências. Há empresas que admitiriam 10, 15, 20 ou 30 costureiras se as encontrassem. Não há nenhuma razão para que as pessoas não façam uma opção por este sector. E não é tão verdade que este sector pague menos do que os outros.

P - O sector têxtil e vestuário não assenta a competitividade nos baixos salários?
R - Para determinadas qualificações, o têxtil e vestuário paga melhor que outros sectores.

P - Os sindicatos afirmam que o têxtil e vestuário pratica salários pouco atractivos...
R - Eu admito que, para as qualificações que o sector precisa, para as exigências que faz em termos de disponibilidade e adaptação rápida, fosse necessário salários mais altos. É uma realidade que nós admitimos naturalmente, mas para as empresas suportarem salários mais altos têm de fazer uma trajectória de deslocação progressiva para produtos de maior valor acrescentado, produtos com maior componente de serviço associado. A base reguladora de promoção dos salários acaba sempre por ser o mercado. Estamos a trabalhar para que os salários subam um pouco mais, porque recentemente houve o impacto do aumento do salário mínimo nacional.

P - Uma alteração do valor dos salários iria, neste momento, alterar o ecossistema do sector têxtil e vestuário?
R - Estamos em negociação do contrato colectivo de trabalho para fazer um aumento dos salários. Estamos também a procurar que, nessa negociação, se normalizem outras situações que prejuficam a competitividade das empresas. As empresas para poderem pagar mais têm de ser competitivas. Todos desejaríamos a teríamos a ganhar com salários mais altos, a questão é como fazer isso, porque temos de competir num mercado mundial com concorrentes de países onde a mão-de-obra é significativamente mais barata.

P - Olhando para o país, o sucesso empresarial passa ainda muito pela moderação salarial?
R - Já passa menos. A realidade do sector já não é tão dependente do preço como era há alguns anos. Mas só se consegue escapar ao preço numa gama de produtos bastante reduzida, nas grandes marcas onde o intangível domina. Mas essas quantidades e clientes de alta gama são muito poucos. Para termos cinco mil milhões de euros de exportações e empregarmos 125 mil pessoas não é só a trabalhar para a ‘Louis Vuitton’ ou a ‘Prada’. Eu faço aqui um apelo aos jovens: olhem para o têxtil e vestuário como um sector promissor e com futuro. Qualifiquem-se e vejam as oportunidades existentes. Há condições de formação profissional através do MODATEX - Centro de Formação Profissional da Indústria Têxtil, Vestuário, Confecção e Lanifícios.

P - Dirige também esse apelo aos jovens universitários?
R - Aos jovens que estão a fazer a sua opção universitária. O curso de engenharia têxtil não tem tido procura. A Univerasidade do Minho foi a primeira a formar engenheiros têxteis. Não há disponibilidade no mercado de engenheiros têxteis.
Procurem este curso e qualifiquem-se. Da forma como tem vindo a progredir, este sector está para ficar.

P - Para além da carência de mão-de-obra qualificada, a Associação Têxtil e Vestuário de Portugal identificou a escassa capitalização das empresas e as dificuldades de financiamento como problemas do sector que ainda persistem. Isso pode impedir uma política salarial mais atractiva?
R - Também. Quanto menos as empresas dependerem do financiamento externo tanto melhor. Em muitos casos, a escassa capitalização pode ser um problema de gestão e de falta de disciplina, mas não é a situação predominante. Nos últimos anos, as empresas viveram situações de preços baixos e descapitalizaram-se. Para além disso, o nosso negócio é ‘business to business’, não é dirigido ao consumidor final. Muitas empresas lidaram com os créditos incobráveis e descapitalizaram-se.

P - Como é que a banca se portou nestes últimos anos?
R - A banca viveu ela própria dificuldades muito grandes. Com o ajustamento imposto entre os capitais próprios e a concessão de crédito, os bancos diminuíram o seu crédito às empresas. Houve um período em que os custos de financiamento eram muito elevados. As coisas têm vindo a atenuar-se, mas a apreciação que ainda se faz do risco é muito mais exigente e rigorosa do que era alguns anos atrás.

P - Os custos de produção e a fiscalidade continuam a ser penalizadores?
R - A energia, para muitas empresas, é um factor muito importante de competitividade. Em fiações e tinturarias, o custo de energia é igual ou até superior ao factor mão-de-obra.

P - Mas houve alguma evolução positiva, atendendo a que a troika sugeriu uma reforma nesta área?
R - Pelo contrário. Até houve um aumento do custo da energia. A nossa energia é relativamente cara, quando comparada com a de países que são nossos concorrentes. O problema da energia coloca-se de uma forma muito séria, até porque os Estados Unidos da América, com a descoberta do petróleo de xisto, passaram a dispôr de uma maior abundância e menor custo de energia.

P - A liberalização do sector energético não produziu efeitos ?
R - Produziu. Mas nós sabemos que uma das componentes do custo da energia são as taxas e impostos. Simplificando, cerca de metade dos custos de energia são taxas e impostos. A reforma, a este nível, não avançou, até porque há a questão do défice tarifário que se acumulou ao longo dos últimos anos.

P - No domínio da fiscalidade, o Estado é amigo das empresas?
R - O IRC teve uma redução. Tudo o que seja melhoria dos custos é positivo, mas nós temos muitos impostos para além desse. Mesmo empresas que não têm resultados têm uma tributação elevada.

P - As empresas do têxtil e vestuário sentem-se apoiadas pelo Estado na promoção externa?
R - Para além da participação em feiras, não temos outro tipo de apoios. O financiamento que existe à internacionalização no âmbito do Quadro Comunitário de Apoio é um estímulo à participação das empresas em feiras. Se já se percebeu que o nosso sector tem capacidade exportadora, se neste período de crise, com os mercados em baixa, conseguimos subir as exportações...

P - Está aí o novo quadro comunitário de apoio. A Associação Têxtil e Vestuário de Portugal tem um plano estratégico até 2020. A internacionalização é um vector importante para os próximos tempos?
R - A internacionalização é um vector muito importante para o nosso país em qualquer actividade e neste sector em particular. A Associação, através da ‘Selectiva Moda’, desempenha aqui um papel muito importante, no sentido de orientar as empresas que, de outra forma, nunca participariam.

P - O novo quadro comunitário abre linhas de financiamento nesta área?
R - Este quadro comunitário é mais restritivo que os anteriores: não concede nenhum apoio às empresas que não sejam consideradas pequenas ou médias. Consideramos isso negativo porque as ditas grandes empresas são as que acabam por rebocar e promover as pequenas e médias. Se não concedermos nenhum apoio às empresas que não são consideradas PME estamos também a prejudicar as mais pequenas e a imagem do país. O conceito de PME precisa de ser alargado porque competimos, no mercado global, com empresas de dimensão incomparavelmente superior às nossas. Portugal, porque tem um sector têxtil e vestuário maior, em termos relativos, do que qualquer outro país da Europa, vai precisar de liderar a iniciativa política para que este conceito seja reavaliado. Estamos a fazer o nosso trabalho, ainda não há sensibilização para o problema. É muito difícil para os políticos, muitos deles afastados da realidade concreta da economia portuguesa, fazer ver que este sector é importante. Durante muitos anos criou-se a ideia de que o têxtil e vestuário era um sector de habilidosos, de gente que ganhava dinheiro fácil, que tinha mão-de-obra infantil, que não qualificava as pessoas... Se, em algum momento, quando houve um crescimento do sector, este atraiu habilidosos e paraquedistas, hoje temos uma indústria têxtil e vestuário estruturada, exigente, resiliente, com capacidade competitiva, que conquista novos mercados. Este sector soube refinar-se e posicionar-se noutro patamar da cadeia de valor. É um sector com futuro.

P - O objectivo de cinco mil milhões de euros em exportações apontado para 2020 é exequível?
R - É um objectivo alcancável e credível.

P - Recentemente confessou alguma apreensão quanto ao desfecho do acorde comércio e investimento entre a União Europeia e os Estados Unidos da América...
P - Com o acordo, a União Europeia tem condições de abertura do seu mercado superiores às que têm os Estados Unidos da América. Não é assim tão fácil como parece exportar para os Estados Unidos. O sector têxtil e vestuário já exportou para este mercado muito mais do que exporta agora.

P - Os Estados Unidos são muito proteccionistas?
R - Não são muito proteccionistas, são proteccionistas. Criam algumas formas intrincadas e refinadas de proteccionismo, muitas vezes sob a capa de exigências e especificações técnicas, sob a capa de requisitos de natureza ambiental e através do procedimentos aduaneiros. Acabam por ser um mercado muito mais complicado de penetração do que é o mercado europeu. O ano passado exportámos para os Estados Unidos cerca de 225 milhões de euros. Nos últimos 20 anos, viemos sempre a perder exportações de vestuário para os Estados Unidos, tornando-se quase irrelevantes as vendas actuais. Temos de ter condições de penetração dos nossos produtos que são conceituados. O made in Portugal é um factor de promoção e de valorização dos produtos têxteis, é um factor competitivo e diferenciador. Nós temos muito a ganhar em que este acordo União Europeia- Estados Unidos da América seja alcançado. Se o acordo for alcançado, nós teremos condições para, a prazo que não precisa de ser muito longo, passar as nossas exportações de 200 para 500 milhões de euros. Eu até diria que, com um pouco mais de tempo, poderemos chegar aos mil milhões de euros de exportações têxteis para o mercado norte americano. Este é talvez o mercado onde nós temos mais potencial de crescimento. Porque os nossos produtos são bem aceites, porque produzimos com qualidade à altura do que melhor se faz no mundo, poderemos, nos domínios do vestuário, têxteis lar e têxteis técnicos, ter uma quota de mercado muito mais significativa do que a que temos actualmente.

P - As negociações do acordo estão a correr bem?
R - Já estiveram mais intensas e aceleradas no anterior mandato da Comissão Europeia e do Parlamento Europeu.

P - Portugal deve ter um papel importante neste processo?
R - Sim. No anterior Parlamento Europeu, o presidente da comissão para o comércio internacional era português: o eurodeputado Vital Moreira. É pena que ele tenha saído. Deu um contributo muito grande para que o acordo com os Estados Unidos da América avançasse. Há sempre aqueles que estão contra qualquer tipo de acordo que possa alargar, globalizar os espaços comerciais, por razões ideológicas. O que está em causa é que este acordo é progressão da economia, do rendimento e da qualificação das pessoas. Isto é que é importante. Este acordo com os Estados Unidos da América qualifica-nos, abre-nos mercado, o sector têxtil e vestuário vê neste acordo um potencial de crescimento das suas exportações. O nosso mercado tradicional e mais importante é o europeu, mais de 80% das nossas exportações vão para o mercado europeu. Apesar disso, temos feito o máximo possível para diversificar. Se o nosso crescimento no mercado europeu foi de 7% ou 8%, fora da Europa foi muito maior. Por exemplo, o crescimento para a Austrália foi de 62%, embora a base seja pequena. O crescimento foi para os Estados Unidos foi de 11%, mas se houver abertura de mercado com este acordo pode ser de 20 ou 30%.

P - A escala norte americana é outra.
R - É completamente diferente. A indústria têxtil e vestuário tem produtos e capacidade competitiva para estar nos Estados Unidos da Américas. Há, hoje, um conjunto de procedimentos alfandegários e aduaneiros que dificultam as exportações. Os Estados Unidos da América e a União Europeia representam um mercado de 850 milhões de consumidores. Este mercado acaba por ser quem determina as condições de comércio mundial. Vale a pena olhar para este mercado porque ele potencia o crescimento em Portugal e na Europa. Com este acordo, a Europa tem muito mais a ganhar do que a perder. O sector têxtil e vestuário só tem a ganhar.

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