Correio do Minho

Braga, quinta-feira

- +
“Grande desafio é a transferência do conhecimento académico para a realidade das pescas”
Bordado de Crivo candidato a Património Imaterial Português

“Grande desafio é a transferência do conhecimento académico para a realidade das pescas”

Associação Humanitária luta para contrariar carência de voluntários

“Grande desafio é a transferência do conhecimento académico para a realidade das pescas”

Entrevistas

2022-07-25 às 06h00

Joana Russo Belo Joana Russo Belo

Eurodeputada Isabel Carvalhais liderou a Missão da Comissão das Pescas do Parlamento Europeu, em Portugal, que passou pelo Porto, Aveiro e Peniche, com o intuito de conhecer as reais condições de trabalho das comunidades locais dependentes do sector da pesca, desafios e as dificuldades. Comitiva visitou alguns projectos inovadores financiados ao abrigo do Fundo Europeu dos Assuntos Marítimos e das Pescas (FEAMP). Desafio de futuro no sector é aliar a inovação académica à realidade tradicional.

Citação

CM - Depois de três dias de visitas, que balanço se pode fazer da Missão da Comissão das Pescas do Parlamento Europeu, em Portugal?
IC - Esta missão foi uma proposta inicial minha e do Manuel Pizarro e tentámos fazer um roteiro que pudesse mostrar aquilo que são os desafios e as dificuldades do sector, mas também aquilo que estamos a fazer de bom, de diferente, de inovação, tudo na linha da sustentabilidade, procurando mostrar o máximo de Portugal. Foram três dias muito intensos. Tivemos connosco o presidente da Comissão das Pescas do Parlamento Europeu, Pierre Karleskind, e mais quatro eurodeputados, para que vissem in loco aquilo que muitas vezes falamos, que estamos a fazer uma aposta muito forte na transição digital, na modernização da nossa área das pescas, mas, ao mesmo tempo, que temos um sector ainda muito tradicional, temos pescadores ainda muito habituados à pesca tradicional e que temos de respeitar.

CM -?Esse é o caminho?
IC - A questão é como é que nós fazemos isso. Como conseguimos levar estas pessoas e esta pesca artesanal, muitas vezes com embarcações de pequeníssima dimensão, de 8 ou 9 metros, na onda da transição digital, que sejam levados para a inovação e para a sustentabilidade. Isso implica ver se já estão a acontecer trabalhos e projectos de investigação e nestas visitas vimos alguns muito interessantes, que ajudam à detecção e identificação da localização correcta dos cardumes para evitar, por exemplo, que os pescadores despendam combustível desnecessariamente para irem a uma zona onde acham que está um cardume. Existir projectos desta natureza é muito importante.

CM -?E há essa receptividade dos pescadores?
IC - Claramente, foi bom para eles também o contacto com a comitiva. Há muitas vezes a ideia de que o pescador quer é ganhar o seu pão e não tem grande flexibilidade à transformação, mas eles são os primeiros a preocuparem-se com as questões da sustentabilidade, porque pensam: eu se pesco hoje tudo, e se amanhã não tenho, o que adianta estar aqui a investir para que os meus filhos sigam a minha arte? Foram os primeiros a mostrar que tinham de caminhar no sentido da preservação da nossa biodiversidade marinha e é gratificante, porque percebem que há um espaço para todos crescerem e que esta transformação de mentalidades é necessária.

CM - Que preocupações é que foram transmitiram?
IC - Foram apresentadas duas grandes dificuldades. A primeira é uma dificuldade conjuntural, que se prende com os preços dos combustíveis, sobretudo da gasolina no caso das pequenas embarcações com menos de 12 metros e que não têm o mesmo sistema de apoio, nem de comparticipação que têm os barcos a gasóleo, por exemplo. É uma queixa que tem de merecer reflexão e as autoridades nacionais terão de pensar nesta questão. A dificuldade mais estrutural que apontaram prende-se com a renovação geracional, nós encontrámos algumas pessoas que eram armadores e pescadores e que diziam que os filhos querem continuar a arte, mas, na generalidade, o problema é encontrar gente jovem que sinta atracção pela actividade do mar e pela pesca, porque a pesca continua a ser uma actividade muito difícil.

CM - E qual é o grande desafio?
IC -?Há aqui um grande desafio e, de alguma maneira estamos no bom caminho, era bom que se acentuasse agora este processo: a transferência do conhecimento académico fantástico, que está a acontecer nas academias, laboratórios e institutos de investigação, para a realidade das pescas. Em alguns casos, já vai havendo essa ligação, mas é um caminho claro a ser feito. É necessário investimento público, investimento privado e todos os pescadores com quem contactámos destacaram a importância dos fundos europeus e comunitários para alavancar os seus projectos.

CM - Esse caminho da transferência de conhecimento já está a ser feito em alguns dos projectos que visitaram?
IC - Fomos a alguns centros de investigação, à Universidade de Aveiro, ao CEiia, em Matosinhos, projectos apoiados em Peniche pelo Instituto Politécnico, na área da aquacultura, da monitorização de indicadores das ondas e condições dos portos de pesca, de construção de embarcações eléctricas, que reduzem a pegada carbónica e ajudam ao cumprimento dos princípios da sustentabilidade e da circularidade. Todos estes projectos apostam muito na reciclagem, na reutilização, na ideia da economia circular. O Nave Safety, da Universidade de Aveiro, já está a ser aplicado no terreno, permite a monitorização das condições dos portos, até mesmo em condições meteorológicas extremas e está a ser aplicado num dos portos mais difíceis que temos, na Figueira da Foz, um porto tradicionalmente que desafia o próprio conhecimento empírico dos pescadores. No CEiia, existe um projecto de aquacultura de Corvina, que responde aos grandes desafios da aquacultura: garantir o bem-estar animal. É um projecto piloto e está a precisar de ganhar escala. Em Peniche, verificámos um muito interessante com uma componente de inclusão social, que está a tentar desenvolver soluções para a recolha das redes de pesca, envolvendo a CERCI de Peniche, que são limpas e transformadas, por exemplo, em cadeiras de escritório, mobiliário, porta-chaves, num material altamente resistente e que resulta da reutilização das redes. Outro caso de grande sucesso é um excelente exemplo da ligação do que é o conhecimento científico e a transferência para o sector económico, que é a Lota Digital, permite que o leilão tradicionalmente feito na descarga do peixe, seja feito por forma digital, existindo uma valorização do próprio pescado e uma rentabilidade para o próprio pescador.

CM - Todos estes projectos permitem também que o sector se renove, aquele que é outro dos grandes desafios em termos de futuro?
IC - Esta missão das pescas tinha este propósito, mostrar como é que um país de pesca e de mar se consegue reinventar e conseguimos passar uma mensagem positiva, de que temos um enorme potencial para a economia azul, aliás, isso ficou muito claro para as pessoas do Parlamento Europeu e estamos a trabalhar numa ligação entre esse potencial dado pela tecnologia e transformação digital para o mundo concreto dos pescadores. Em Portugal, o sector das pescas cria cerca de 25 mil postos de trabalho directos, fora os indirectos e tudo o que está envolvido. É importante apostar na modernização do sector, porque é a única forma de conseguir captar as novas gerações. Nestes espaços onde esta transferência de conhecimentos já está a acontecer, há uma percepção e compreensão correcta de que a aposta é na circularidade, na redução da pegada carbónica, na sustentabilidade ambiental, porque estamos a falar de recursos marinhos importantes para o seu sustento.

CM - O que é importante e urgente fazer?
IEC - Um aspecto fundamental, que tem que ser encarado muito seriamente no curto prazo, prende-se com a questão da gestão do espaço marinho. Portugal tem um compromisso, assumiu-o publicamente na recente Conferência dos Oceanos, de criar 30 por cento de áreas marinhas protegidas até 2030. As áreas marinhas protegidas são essenciais, mas elas têm que ser bem definidas, temos de saber exactamente o que é que estamos a proteger, o que é que vale a pena proteger e isso implica dados, implica ciência a colaborar e a ajudar. Mas esta definição não pode acontecer fora de um contexto, tem que ser acompanhada de uma visão integrada da gestão do espaço marinho para garantirmos que conseguimos ter áreas protegidas, mas, ao mesmo tempo, compatibilidade com o sector das energias renováveis, com a própria pesca, temos de conseguir acomodar diferentes áreas económicas, desde tecnologia azul aos offshores das energias renováveis, a pesca recreativa, o turismo, conjugar todas estas actividades económicas que trazem riqueza para o país com a necessidade de preservação dos espaços marinhos. Porque uma coisa é protegermos 30 por cento de uma área marinha de um país como a Bélgica, outra coisa é falarmos de 30 por cento da área portuguesa, uma das maiores do mundo. Temos que a conhecer, mapear e a aposta na ciência é fundamental. Estamos no bom caminho dessa reflexão no caso português.

Deixa o teu comentário

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login Seta perfil

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a Seta menu

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.

Bem-vindo ao Correio do Minho
Permita anúncios no nosso website

Parece que está a utilizar um bloqueador de anúncios.
Utilizamos a publicidade para ajudar a financiar o nosso website.

Permitir anúncios na Antena Minho