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Entrevistas

2020-04-20 às 10h00

Rui Miguel Graça Rui Miguel Graça

Carla Salomé Rocha é uma das atletas que já tem o bilhete mágico para a capital nipónica. O?passaporte foi carimbado há quase um ano (29 de Abril) em Londres, com uma marca que a tornou a terceira portuguesa mais rápida de sempre na Maratona.

Chegaste ao Campeonato do Mundo de Doha com marca de qualificação para os Jogos Olímpicos de Tóquio. Naquela altura, quais foram as tuas maiores preocupações?
Saber que se tem ‘mínimos’ gera sempre uma sensação de alívio. Naquela ocasião a preocupação era mais com a recuperação, porque os Jogos Olímpicos estavam a um ano de distância. Sabíamos que as condições a nível de humidade seriam em Doha semelhantes às que iríamos encontrar em Tóquio, por isso aquela maratona também era um teste. Apesar de ter feito um treino que teve uma componente muito forte de aclimatização, durante a prova comecei a aquecer muito e, apesar de ter estado sempre completamente lúcida, a temperatura, a humidade e a sensação térmica foram brutais.

Depois de se ter chegado a anunciar a tua desistência, eis que foste a 16.ª a cortar a meta entre 40 atletas das 68 que partiram. O que é que te fez continuar?
Estamos a falar de uma maratona e para que haja um grande resultado tem tudo de estar a 100%, sendo que todas as maratonas são difíceis e nenhuma é igual. Uma maratona dói. E em Doha foi muito difícil, porque estava a aquecer muito e houve vezes que tive de ir a passo, mas não desisti porque não senti nenhum sinal do meu corpo suficientemente forte para parar. Continuei firme até ao fim, até à meta.
Como é que foi recuperar desta experiência, na altura ainda a pensar em Tóquio 2020?
Não vou esconder que foi muito difícil. Logo a seguir foi preciso estabilizar o corpo e travar a desidratação. Nos meses seguintes a luta foi física e psicológica, mas com a ajuda do meu treinador e do psicólogo da Federação Portuguesa de Atletismo, o Prof. João Lameiras, consegui equilibrar-me. Quis estar preparada para responder à convocatória para o Campeonato da Europa de Corta-Mato, em Dezembro, e por isso fui fazer o Cross de Alcobendas, em Espanha, em Novembro. Após essa prova percebemos que as coisas estavam a alinhar-se a nível físico [alcançou o quarto lugar]. A nível psicológico foram estabilizando, com muito trabalho com o João, que ainda hoje me liga para saber como está tudo.

Quando começaram a chegar as primeiras notícias de que os Jogos Olímpicos de Tóquio possivelmente teriam de ser adiados, que inquietações é que isso suscitou em ti?
Eu e o meu treinador [Rui Ferreira] sabíamos que o momento era delicado e ele manteve a sua postura de ter sempre os pés bem assentes na terra e disse-me para não sofrer por antecipação. Continuámos a treinar como se os Jogos fossem uma realidade este ano, até haver uma posição oficial.

Posição essa que primeiro confirmou o cancelamento, depois avançou uma nova data e depois anunciou as regras no que diz respeito à qualificação. Como é que reagiste a este novo cenário?
Temos de compreender, porque estamos a atravessar um momento complicado e o mundo inteiro está a sofrer. A decisão foi tomada e agora é mudar o foco para 2021. As minhas colegas ainda vão tentar as marcas e acho bem que lhes seja dada a oportunidade, porque quase todas as maratonas previstas foram canceladas ou adiadas para Outubro e Novembro e é preciso que todas possam fazer essa tentativa. É justo.

A nova data e o novo período para obtenção de marcas de qualificação fizeram-te pensar novamente nos 10 000 metros?
Eu nunca abandonei os 10 000 metros, até porque esta distância é uma forma de progressão para e na maratona. E porque acho que “eles [os 10 000 metros]” ainda me devem uma [risos]. Agora não vai ser fácil, porque tenho 32m05s aos 10 000 metros e a marca de qualificação é de 31m25s, sendo que tirar 40 segundos nesta disciplina não é como chegar a uma maratona e tirar cinco ou dez segundos ao tempo anterior. Por isso, para Tóquio o meu foco vai estar na maratona.
Apesar disso gostava de bater a minha marca pessoal e tenho também o meu compromisso com o clube e os 10 000 metros são importantes para esses objectivos.

A realização dos Jogos em 2021 ‘empurra’ os campeonatos do mundo para 2022. O que é que isto te obrigou a repensar?
O futuro é uma incógnita neste momento. Eu e o treinador vamos ter de fazer um novo planeamento e não vai ser fácil. Para já sabemos que os Jogos Olímpicos são em 2021 e estamos a trabalhar para isso.

Como é que estás a adaptar o teu treino?
Na cidade onde moro [Vizela] somos 23 mil pessoas e não temos muitos casos (53). É uma cidade pacata e o presidente da Câmara Municipal tomou logo medidas de prevenção, deliberando o encerramento, por exemplo, de cafés, mesmo antes de ter sido declarado o Estado de Emergência. A direcção do Vizela Futebol Clube deixa-me usufruir das instalações, neste caso dos campos sintéticos, para poder treinar em segurança. Vou treinar lá de manhã cedo, mas não posso fazer um treino normal, claro. Faço períodos curtos de corrida e depois durante a tarde faço exercícios de reforço muscular em casa com o acompanhamento por videochamada do meu treinador e da preparadora, para tentar não perder tudo. Como já trabalhamos juntos há muito tempo não tem sido tão difícil, mas tenho a clara noção de que é preciso um foco muito maior em tudo, incluindo na alimentação e no descanso.

O que é que a realidade actual te mostrou e te está a ensinar?
Esta realidade não é fácil para ninguém. Mostrou-nos que podemos controlar-nos, mas que não controlamos o que está à nossa volta. É como na competição: Eu controlo a minha prova, mas não a das minhas adversárias, que também fazem a sua preparação. É preciso pensar que estamos saudáveis e no que realmente interessa.
Para perceberam o impacto desta realidade num atleta, refiro que estou a preparar estes Jogos Olímpicos de Tóquio desde que terminei a minha participação nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016. A preparação é feita ao longo de quatro anos e só o facto de não poder correr nem sair à rua, no mínimo vai fazer com que vá engordar. Fazendo umas contas rápidas, imaginemos que engordo dois a três quilos. Uma atleta, que já é magra, para perder esse peso demora cerca de quatro meses. Depois, a preparação para a maratona leva outros quatro ou cinco meses. Ora, se o mundo parar por completo é preciso um ano para preparar uma maratona. Por isso, temos de continuar da forma que podermos, sem parar.

Como é que estás a gerir o dia a dia?
Neste momento vivo sozinha e os meus pais estão em casa deles com a minha avó, que tem 92 anos. Para a proteger, os meus pais não saem e eu não vou lá a casa. Nos dias em que vou treinar de manhã cedo – não o faço todos os dias – depois do treino paro o carro à porta da casa dos meus pais e eles e a minha avó vão à janela, que é no segundo andar, e é assim que nos vemos e falamos a essa distância cerca de cinco, dez minutos.
Depois quando chego a casa tenho de tirar toda a roupa e ir logo para o duche. Além do treino e do descanso, entre cozinhar, fazer as refeições e tratar da roupa e da casa não resta muito tempo, até porque tenho reuniões com o clube e com os patrocinadores através de plataformas de videoconferência.

Que mensagem gostarias de deixar a todos aqueles que têm a paixão pela corrida e que a tiveram de reinventar ou de a colocar em stand by?
Quero dizer que sei que não é fácil, que estamos todos a sofrer, mas que felizmente estamos num país no qual as medidas foram tomadas atempadamente e que, ao que tudo indica, não vamos passar pelo mesmo que aconteceu em Espanha e em Itália. Vamos cumprir o que nos foi pedido e, com isso, contribuir para que seja possível voltar mais rapidamente à normalidade.

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