Correio do Minho

Braga, terça-feira

Braga Media Arts é projecto de crescimento da cidade
Porta do Mezio vai ter reserva para observar as estrelas até ao final de 2019

Braga Media Arts é projecto de crescimento da cidade

Bruno Silva bisa e garante reviravolta do Prado sobre o Cabreiros

Entrevistas

2019-02-02 às 06h00

José Paulo Silva

Braga é uma referência internacional reconhecida pela UNESCO no domínio das Media Arts. Um projecto que cruza a arte com a tecnologia e envolve a investigação cientifica e o mundo empresarial. Um quadrado virtuoso na opinião de Cláudia Leite, coordenadora de Braga Cidade Media Arts, em entrevista à Rádio Antena Minho e ao Correio do Minho.

P - Como é que os bracarenses se podem aperceber do que é ser cidade criativa na área das media arts?
R - O facto de Braga estar desde há alguns anos a apostar no desenvolvimento tecnológico, a destacar-se pelas empresas nas áreas dos media e alta tecnologia, a destacar-se pelos seus centros de investigação e pela criação artística, motivou a candidatura a cidade criativa. Mais do que ostentar um título, Braga passou a integrar uma rede internacional de cidades que colocam a criatividade, nas suas mais diversas formas, como motor de crescimento e desenvolvimento . Estamos a falar de um quadrado virtuoso em que temos as media arts associadas à criação artística local, à ciência e à investigação desenvolvida por universidades e institutos, associadas á componente empresarial e à forma como as novas tecnologias são integradas socialmente.

P - Estaremos a falar - através da aposta nas media arts - da criação de novos públicos, para o futuro, que se enquadrem na Estratégia Cultural 2030 da Câmara Municipal, que quer ser Capital Europeia da Cultura em 2027?
R - Eu acredito que já está a criar novos públicos. O projecto do serviço educativo visa propiciar uma maior aproximação á arte digital, mas incentivar também o consumo artístico. A vertente das media arts será certamente um dos eixos estratégicos de uma candidatura a Capital Europeia da Cultura. É uma dimensão da cidade que está em desenvolvimento e que tem de ser valorizada.

P - O envolvimento do tecido empresarial bracarense mais virado para as novas tecnologias já se sente neste projecto de cidade criativa nas media arts?
R - O envolvimento acontece desde o início da preparação da candidatura à UNESCO. As empresas não estão todas envolvidas no apoio directo à criação artística, participam também em tudo aquilo que se encontra associado a essa mesma produção. O Laboratório Ibérico Internacional de Nanotecnologia (INL) desde o princípio que acompanhou este projecto e já há dois anos que temos no Gnration uma galeria em que trimestralmente são apresentados projectos de artistas que estão em residência no INL.

P – É um projecto que vive muito de cooperação internacional. Estamos a falar de uma rede de cidades. Braga é a única cidade criativa na Península Ibérica neste domínio das Media Arts?
R – Sim

P – No contexto europeu, continuamos a ser periféricos...
R – A situação periférica aqui não tem grande importância. Desde que integrámos a rede temos tido um contacto permanente com todas as outras cidades que fazem parte da rede de cidades criativas e já foram vários os projectos em que fomos desafiados a participar. Neste momento estamos a desenvolver duas candidaturas com diversas cidades estrangeiras para trabalhar as media arts e impacto na cidade, sobretudo no seu património histórico e cultural.

P – O reconhecimento da UNESCO é uma marca importante. mas estamos a falar de financiamento do Município de Braga e do meio empresarial.
R – A integração na rede de cidades driativas da UNESCO não tem uma linha de financiamento associado. Permite no entanto, a apresentação de um conjunto de projectos aos programas europeus no contexto da cultura e investigação e também ao Horizonte 2020. Não existindo um financiamento directo associado, o facto de estarmos a trabalhar em parceria com outras cidades permite-nos candidatar um conjunto de projectos e muitos deles com financiamento a 100 por cento.

P – Em 2018, o trabalho foi mais de bastidores, mas nota-se já algum incremento a nível local neste domínio das Media Arts? Há artistas que olham para esta arte numa perspectiva de futuro?
R – Algumas instituições locais têm apostado mais nesta área ao nível da criação. Alguns dos projectos desenvolvidos na cidade têm marcado presença em apresentações internacionais como foi o caso dos de Cristina Mendanha ou do João Martinho Moura. Temos procurado dar algum apoio a artistas que na cidade trabalham a área das media arts e que procuram apresentar os seus projectos.

P – A rede internacional de cidades permite dar visibilidade a esses projectos?
R – Permite uma circulação. A ideia é também que, ao longo dos próximos anos, exista um apoio específico ao desenvolvimento de projectos em coprodução, elaborados por artistas das diferentes cidades e em diferentes residências e que depois possam circular entre as cidades.

P – Essa partilha é um dos aspectos diferenciadores da rede de cidades criativas?
R – É um dos objectivos da UNESCO. A rede deve ser um espaço de partilha de boas práticas, um espaço de divulgação dos trabalhos desenvolvidos pelas diferentes cidades, um espaço de projecção daquilo que são os artistas das cidades, o trabalho que eles desenvolvem e também todas das instituições que aplicam a tecnologia no seu desenvolvimento.

P – Braga está a dar os primeiros passos no sentido de atingir o objectivo anunciado com a candidatura a cidade criativa, que é ser uma referência internacional nas media arts? Estamos a falar de uma realidade muito próxima?
R – Braga quer criar as condições para se destacar, pelo menos a nível nacional, no contexto das media arts.

P - A candidatura de Braga Cidade das Media Arts foi aceite no final do mês de Outubro de 2017. Como é que se está a delinear a estratégia de afirmação deste projecto junto dos bracarenses?
R - Temos um plano de acção para quatro anos que inclui um serviço educativo, a ligação com o património através da componente da arte digital e como é que esta pode ser trabalhada do ponto de vista turístico, o apoio à criação de projectos artísticos, o apoio à internacionalização de empresas que trabalham na área tecnológica e o apoio aos investigadores que desenvolvem projectos no contexto das media arts, dentro do sistema cientifico de Braga. O ano passado foi mais dedicado a fechar parcerias, apontar projectos e preparar o futuro. No serviço educativo foram integradas novas valências. Em 2017, o projecto-piloto implementado em algumas escolas do concelho de Braga foi o ‘ 0 + 1’ que se revelou um sucesso. A ideia é que agora possa acontecer de forma generalizada em todos os estabelecimentos de ensino de Braga. Vai ser replicado o ‘road show’ com alunos da Universidade do Minho, do IPCA e da Universidade do Porto que foram às escolas explicar de uma forma mais prática as media arts. Este ano introduzimos mais dois projectos: a formação de professores nas media arts e a divulgação de ferramentas tecnológicas que possam apoiar o ensino e o ‘mini mapa sonoro’. Através dele, alunos de oito escolas de Braga estão a desenhar o seu mapa da cidade, associando-lhe elementos sonoros de locais que consideram emblemáticos.

P - Como é que a classe docente, por vezes acusada de ser pouco receptiva a introduzir novas tecnologias nos métodos de ensino, recebem esta formação?
R - Está a ser acolhida com bastante entusiasmo. Em 2019 desenvolvemos uma formação específica para professores bibliotecários.

P - Este envolvimento das comunidades educativas nas media arts pode mais tarde influenciar a oferta do ensino?
R - Penso que vai dar ferramentas aos professores para estimularem a criatividade dos alunos. Acredito que o projecto ‘0 + 1= som’ possa ter contribuído para esta apropriação das tecnologias dado que foi desenvolvido em algumas escolas de Braga

P - Quer explicar o que é esse projecto?
R - É um ciclo de ‘workshops’ que tem lugar em quatro escolas de Braga por trimestre e que visa um contacto das turmas do 1.º Ciclo com a criação musical usando uma ferramenta tecnológica que é de livre acesso e que se encontra disponível na internet. Permite às crianças criar uma composição musical. Mesmo depois do projecto ter terminado nas escolas, os alunos continuam a aceder com regularidade à plataforma e a utilizá-la.

P – Um dos projetos a pôr em prática já neste ano, no âmbito da cidade criativa media arts, passa por aproveitar o Festival de Música Semibreve para lançar as bases para uma bienal de Media Arts...
R – Um dos projectos que nós assumimos na candidatura à rede de cidades criativas foi o desenvolvimento de uma bienal no contexto das media arts. Este ano, associado ao Semibreve iremos avançar com um projecto-piloto em algumas das áreas que pretendemos vir a trabalhar na bienal: o pensamento e o conhecimento com um conjunto de conferências associadas a esta temática ,assim como algumas performances nacionais e internacionais. Umas delas vai ser desenvolvida especificamente para este evento.Também prevemos a apresentação de instalações e de algumas performances em espaço público, para permitir um contato da população com as medias arts.

P – O ex-cinema S. Geraldo será o Media Arts Centre que vai permitir aos bracarenses aperceberem-se de que Braga é uma cidade criativa da UNESCO?
R – O S. Geraldo será um dos componentes do que nós apelidamos de Centro Media Arts. O objectivo é que na cidade existam diferentes espaços a contribuir para esta área. O GNRation tem a componente expositiva, o Theatro Circo que pode vir a receber alguns projectos de palco. A ideia ao regenerar e criar outras valências no S. Geraldo é permitir que possam existir espectáculos no palco e na plateia, usar diferentes tipos de projecção, a nível da apresentação de espectáculos, mas, também no espaço ‘blackbox’ que se prertende desenvolver, para que tenha uma função multicanal e permita ser quase uma experiência imersiva e multifuncional.

P – O S. Geraldo pode ser importante numa perspectiva de promoção turística de Braga como cidade criativa nas media arts?
R – Eu penso que é importante apostar em espaços que permitam estimular a criação artística, seja qual for o contexto da produção artística na cidade. Uma das componentes mais importantes para estimular o desenvolvimento dessa componente cultural e artística é apoiar a criação, é criar espaços, ferramentas para que os artistas sintam que têm em Braga um ecossistema onde podem desenvolver os seus projectos, onde têm condições físicas, humanas e tecnológicas, mas também de exibição dos seus trabalhos.

P – O salto em frente no desenvolvimento do projecto Braga Media Arts passa pela realização das obras de recuperação do São Geraldo?
R – O facto de ser possível ter um espaço de criação pode ser um salto em frente para a cidade, porque estamos a acrescentar uma valência que Braga não tem, sendo que eu acho que o projecto vive de diferentes componentes. O serviço educativo é muito importante, o trabalho com os criadores ajuda ao desenvolvimento de projectos em produção na cidade, criar redes de circulação desses projectos a nível nacional e internacional é fundamental para que possam ser sustentáveis, a ligação com as empresas e com o sistema cientifico é também importante para que não perca esta visão integrada que motivou a candidatura de Braga à UNESCO. O S. Geraldo é uma dimensão importante mas não é a única.
Queremos criar condições para receber os artistas em residência e que possam eles próprios ter um conjunto de outras ferramentas disponíveis para o seu trabalho criativo. O projecto que foi apresentado para o S. Geraldo prevê a criação de um espaço multicanal que permite simular diferentes realidades, ambientes sonoros e visuais. Se for implementado tal como está pensado, está a criar-se um espaço de residência com características únicas a nível ibérico. Se assim for estaremos a atrair para a cidade artistas que podem vir a ter um espaço único para desenvolver os seus projectos. Esta possibilidade é muito positiva não apenas a nível artístico, mas também no plano da investigação e é apelativo para as empresas que trabalham os componentes electrónicos, visuais e de som.

P – Há aqui perspectivas de negócio para muitas empresas tecnológicas de Braga e não só?
R – Com certeza. Se instalarmos este espaço de residência no S. Geraldo vamos ter quase que uma espécie de montra da tecnologia das empresas que queiram apoiar o projecto. Há exemplos em outros países em que tudo aquilo que foi instalação sonora e visual foi apoiado por grandes empresas que aproveitaram também para fazer uma mostra daquilo que é a sua tecnologia de ponta.

P – A Câmara Municipal de Braga apresentou quatro propostas de intervenção no S. Geraldo. A Cláudia Leite manifestou preferência pela mais arrojada, que é também a mais cara para os cofres do Município. Não teme que isso possa atrasar o projecto, atendendo a dificuldades de financiamento?
R – As propostas apresentadas tinham como objetivo disponibilizar ao Município de Braga diferentes opções para que fosse tomada uma decisão informada. No contexto das media arts, a última das opções é a mais interessante. As propostas estão todas disponíveis ‘on line’ na página da Câmara Municipal de Braga. Em matéria de racionalidade económica e optando por uma aposta nas media arts, parece-me que a quarta opção é a melhor porque permite a utilização do espaço em contínuo para a apresentação artística, sem comprometer a criação. Se está a pensar-se também em rentabilizar o S. Geraldo, abri-lo á comunidade e receber outro tipo de projetos, estamos a optar por uma solução que oferece multivalências.

P - O financiamento externo e o da própria autarquia não está a condicionar o avanço do projecto?
R - Há situações que são necessárias ultrapassar e que estão a ser trabalhadas pelos serviços do Município. São questões prévias em relação às matérias relacionadas com o financiamento e por isso, neste momento, não existe qualquer condicionamento do projecto por razões financeiras.

P - Enquanto coordenadora geral do projecto Braga Cidade Media Arts está a trabalhar sem uma perspectiva de quando poderá contar com o São Geraldo?
R - O Município de Braga está a desenvolver trabalhos preparatórios necessário á contratualização e ao desenvolvimento da obra. Durante este ano creio que ainda será possível avançar para o concurso de adjudicação da recuperação e requalificação do São Geraldo.

P - Quando é que os bracarenses vão começar a apreender que Braga é uma Cidade Media Arts?
R - Eu acho que já existe essa noção. Na ‘Noite Branca’ praticamente todos os projectos artísticos trabalharam a temática das media arts. A componente do serviço educativo tem contribuído muito para a sua divulgação. Vamos lançar uma agenda trimestral que irá permitir a percepção do que está a acontecer na cidade, para além do lançamento de outros elementos de comunicação numa brochura ligada a este projecto e que estará presente em tudo o que são eventos que possam ser associados a Braga Media Arts. Estes novos elementos de comunicação que estão a ser preparados vão permitir perceber que cada um dos projectos pertencem a um todo que é muito maior do que um projecto específico.

P - A alteração dos estatutos do Theatro Circo é uma decisão importante no âmbito daquilo que é a estratégia cultural de Braga?
R - A alteração dos estatutos vai permitir ao GNRation e ao Theatro Circo trabalharem de forma mais articulada, mantendo a identidade e aquilo que são os seus projectos artísticos. Não é a questão artística que está em causa, mas é um planeamento estratégico que pode trazer iniciativas para a cidade e permitir que as duas entidades, como uma só, possam trabalhar outras áreas da cidade desenvolvendo projectos transversais. O GNRation, que é a residência da equipa do Braga Media Arts, tem uma ligação quase umbilical ás media arts e vai continuar a ser nesse contexto uma instituição de referência. O Theatro Circo vai ter mais projectos nas media arts e, por outro lado, vai estreitar as ligações como esses projectos artísticos e trabalhar ao nível do serviço educativo e em alguns projectos para famílias.

P - Ser Cidade Criativa da UNESCO não é um estatuto temporário, é algo que vem para ficar, sendo que vai haver uma avaliação periódica para saber se os objectivos estão a ser cumpridos.
R - É um desafio mais interessante para Braga porque trata-se de um compromisso a longo prazo que vai sendo renovado de uma forma quase orgânica. Neste momento existe um plano de acção a quatro anos do qual Braga dá conta todos os anos à UNESCO. No final do actual plano de acção, Braga tem de apresentar um relatório do que desenvolveu. Mesmo o próprio conceito de Capital Europeia da Cultura (CEC) já não é igual ao do tempo de Guimarães 2012, um projecto mais focado para um ano de iniciativas. É por isso que estamos a desenvolver o Braga Cultura 2030, uma estratégia a dez anos. O que a Comissão Europeia pretende com as novas capitais de cultura é que a cidade planeie a sua estratégia cultural para um horizonte temporal mais alargado. Braga Media Arts e Braga 2030 devem perspectivar o seu impacto a longo prazo na cidade.

P - O projecto Braga Media Arts pode ser decisivo numa vitória da candidatura a Capital Europeia da Cultura?
R - Braga Media Arts é um projecto importante no contexto de uma CEC, porque é uma perspetiva diferente e única a nível nacional. Braga Media Arts não é unicamente um projecto cultural, mas é também um projecto de crescimento da cidade. Nós tivemos já uma série de ‘workshops’ ao longo das últimas semanas que visam pensar a Cultura e como é que ela pode trabalhar as áreas do Ambiente ou do Turismo, como é que Cultura se deve envolver com as diferentes áreas estratégicas da cidade e quais são os seus principais constrangimentos e apostas.

Deixa o teu comentário

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.