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“Braga é das cidades mais reguladas do ponto de vista arqueológico”
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“Braga é das cidades mais reguladas do ponto de vista arqueológico”

Entrevistas

2022-05-21 às 06h00

Rui Serapicos Rui Serapicos

Investigadora da Universidade do Minho, que entrou há dias para a Academia Portuguesa de História, realça normalização das intervenções em Braga após a criação pelo município, em 1992, do Gabinete de Arqueologia.

Citação

“Braga é uma das cidades mais reguladas do ponto de vista arqueológico, uma situação que resultou de uma longa aprendizagem decorrente da cidade ter sido a primeira a conhecer um projecto de arqueologia urbana, a partir de 1976 e da acção do Gabinete de Arqueologia da Câmara, criado em 1992, o qual teve um impacto muito positivo na normalização dos processos de intervenção arqueológica na cidade e na definição de áreas de protecção que foram vertidas no PDM”, afirma a arqueóloga Manuela Martins.
Em entrevista que teve como ponto de partida o seu recente reconhecimento pela Academia Portuguesa de História, a docente e investigadora da Universidade de Minho refuta que esta distinção beneficie projectos que tenha em curso ou esteja em vias de lançar na região. “A minha entrada na Academia Portuguesa de História, como académica de mérito, decorre do reconhecimento feito pelos pares da minha carreira de 40 anos enquanto historiadora e arqueóloga, ou seja, reporta-se a algo já feito, não ao futuro”, refere.

P - Manuela Martins foi chamada a intervenções em obras de construção, às quais chegou já após terem sido destruídos vestígios de ocupações antigas. Em que locais observou danos maiores para o estudo dos achados? 
R - A situação que vivi mais decepcionante ocorreu, em 1987, nos terrenos traseiros ao Convento dos Congregados onde foi destruída uma enorme área da necrópole da via XVII, antes das máquinas terem sido paradas para que fosse escavado o que ainda restava.
Nesses tempos, ainda não havia sido criado o Gabinete de Arqueologia da Câmara Municipal que foi fundamental para se evitarem situações de destruição como a ocorrida, na então designada Cangosta da Palha. Eram outros tempos. Desde então muito mudou na gestão da arqueologia no espaço urbano.

P - Dos trabalhos que efectuou, em Braga e envolvente, deparou com achados que por revelarem novos dados sobre o passado a surpreenderam?
R - Todos os trabalhos arqueológicos que realizei, quer nos castros do vale do Cávado, na década de 80 do século XX, quer na cidade de Braga, ao longo dos últimos 30 anos, foram importantes e forneceram achados de vária natureza, muito revelantes e surpreendentes. Muitos deles alimentaram as colecções do Museu D. Diogo de Sousa, integrando a sua exposição permanente. Outros, de natureza urbanística e arquitectónica têm permitido reescrever a história da ocupação pré-romana do território onde foi fundada a cidade de Braga, bem como conhecer o primeiro grande ciclo da história bracarense, correspondente à cidade romana e tardo-antiga, entre a fundação 13/12 a.C. e o século VIII.

P - O Teatro Romano de Braga está bem como está ou deveria ser qualificado, como em Espanha o de Mérida?
R - O Teatro Romano de Braga foi descoberto em 1999, tendo sido objecto de uma primeira fase de escavação até 2008. Desde então, aguardam-se as condições necessárias para garantir a conclusão das escavações e a implementação de um programa de valorização, do monumento, com o qual o Município de Braga está comprometido.

P - Termas do Alto da Cividade, Ruínas das Carvalheiras, a Fonte do Ídolo, necrópoles no Largo Carlos de Amarante e Cangosta da Palha: algum destes lugares oferece ainda questões a quem os estuda? 
R - Os sítios arqueológicos são, por natureza, locais susceptíveis de serem objecto de estudos continuados, pois a arqueologia é uma disciplina interpretativa e os sítios (termas, domus, ou necrópoles) são como os livros. Estão sujeitos a reinterpretação. Por vezes, é o próprio avanço do conhecimento que sugere novas questões, ou modos de olhar os sítios. Noutros casos, é a descoberta de outros sítios similares que potencia novas narrativas. Os sítios arqueológicos, enquanto fragmentos do passado, nunca estão definitivamente decifrados, porque sabemos sempre pouco do muito que ainda podemos descobrir.

P - Há nesta região, do ponto de vista da arqueologia, muitas incógnitas?  Está já estabelecido como é que os romanos (que consumiam muita água), abasteciam Bracara Augusta? 
R - A temática do abastecimento de água à cidade romana foi abordada do ponto de vista geológico e arqueológico, tendo-se reconhecido que as características hidrológicas da zona das Sete Fontes seriam as adequadas para abastecer a área urbana, tendo em conta o que se sabe sobre o modo como os romanos conduziam a água. Esta interpretação foi publicada em vários trabalhos. Supomos que, de algum modo, o actual aqueduto terá seguido o caminho da água na época romana.

P - As novas gerações de estudantes dispõem de novos meios de que a estudante Manuela Martins não dispôs. Dispõem também da mesma vontade de conhecer? 
R - Quando em 1972 ingressei na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, para cursar História, a Arqueologia era ainda um ‘continente distante’ no nosso país. Mas ao longo dos 5 anos do curso tive oportunidades de trabalhar com equipas e em projectos que fizeram de mim uma arqueóloga. O facto de terem de ser os estudantes a procurar sítios para trabalhar em arqueologia concedia-nos uma grande liberdade, mas também uma maior responsabilidade e maturidade.
Hoje, os estudantes têm a vida muito mais facilitada, mas não percebem isso, pois só conhecem a sua própria experiência. Quanto à vontade de conhecer há de tudo. Os alunos têm hoje um mundo impressionante de conhecimento à sua disposição, ao alcance de um simples click. Só precisam de querer mergulhar nesse mundo e crescer”.

P - Podemos saber que projectos tem, em concreto, para os próximos tempos? Mantém, após décadas de trabalhos, sonhos profissionais por cumprir? 
R - Projectos tenho muitos, pois sou uma pessoa irrequieta e inquieta. Alguns traduzem-se em propostas concretas, outros implicavam que pudesse começar tudo de novo.
Dentro dos sonhos plausíveis coloco a concretização do projecto de valorização das Carvalheiras e o arranque de uma nova etapa do projecto do teatro. Também estou muito empenhada nas questões da digitalização da informação arqueológica e da gestão dos dados, um assunto que já me desafiava em 1992, quando iniciei o processo de criação de um sistema de informação para gerir as intervenções arqueológicas de Braga. E são muitas.
A complexidade dos processos, a gestão dos dados e a interoperabilidade dos mesmos são assuntos que me acompanham há 30 anos e em que a Unidade de Arqueologia tem um histórico importante e reconhecimento internacional.

P - Teve na sua actividade profissional jogos de forças com outros poderes, económicos, políticos e académicos. Que balanço faz?
R - A minha vida profissional foi e é ainda uma vida profissional académica, que integrou três componentes muito importantes: a docência, a investigação e a gestão. Em todas essas dimensões tive múltiplos desafios e bastantes opositores. Globalmente, ambos me ajudaram a crescer como pessoa que sempre ambicionou a excelência e ser melhor docente, melhor investigadora e melhor gestora. Por isso, o meu balanço entre as perdas e ganhos é muito positivo.

P - Qual a sua percepção dos problemas (por exemplo em termos de acesso ao emprego e evolução na carreira) que as novas gerações de arqueólogos enfrentam?
R - As novas gerações de arqueólogos enfrentam graves problemas de proletarização do seu trabalho, por vezes em condições muito pouco éticas por parte das empresas que os contratam. Não é um problema da arqueologia é sim um problema da sociedade, que afecta muitas áreas profissionais. Hoje há muitos jovens formados, mas poucos a encontrar um emprego com salário justo, ou a fazer aquilo que gostam.

P - Nasceu no Algarve e com 25 anos era professora na Universidade do Minho. O que a trouxe para o Minho? Volvidas décadas de trabalho, ainda considera ter sido a sua melhor escolha?
R - Entrei na Universidade do Minho, em 1979, por concurso, vinda de Lisboa onde morava, trabalhava e havia estudado. E concorri para a universidade porque leccionar no ensino superior era uma forma de poder dedicar-me à arqueologia, pois na altura não existia profissão de arqueológo. Nessa altura, era já professora de História no ensino secundário e no ano que concorri para a universidade concorri também para fazer estágio pedagógico e poder ser professora efectiva no secun-dário. Por isso, o que me trouxe para a Universidade do Minho foi mesmo a paixão pela arqueologia e, volvidas mais de quatro décadas, não estou nada arrependida. A Universidade do Minho e a sua Unidade de Arqueologia foram e serão sempre a minha casa criativa. Tem sido uma experiência vibrante e cheia de surpresas.

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