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Bracarenses exibem talento e ‘dão cartas’ no mundo da ilustração
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Bracarenses exibem talento e ‘dão cartas’ no mundo da ilustração

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Bracarenses exibem talento e ‘dão cartas’ no mundo da ilustração

Entrevistas

2020-11-19 às 06h00

Marta Amaral Caldeira Marta Amaral Caldeira

É um mundo colorido, imaginado ao mais ínfimo pormenor e revelador de um talento e tanto que abona apenas algumas pessoas, mas onde os bracarenses se têm feito notar. A ilustração ‘Made in Braga’ adorna já as páginas de muitos livros.

O caminho da ilustração em Braga está a ser trilhado por pessoas vindas de várias áreas profissionais e de formação, desde a arquitectura, às artes plásticas, design gráfico e até da geologia. Para os ilustradores bracarenses, a maior parte dos quais freelancers, trata-se de uma “paixão” que brota, na esmagadora maioria das vezes, do desenho imaginado ou da pintura, mas é o seu trabalho e talento se têm feito notar em muitas capas e páginas de livros, na maioria, publicações infanto-juvenis.
É precisamente este mundo colorido, onde reina a criatividade dos ilustradores, que tem sido mostrado, construído, desconstruído e partilhado no evento ‘Braga em Risco’, promovido pelo Município de Braga e que já se tornou num espaço especial de encontro entre ilustradores, mas, sobretudo, entre estes e os mais diferentes públicos.

Mas não é só na projecção do trabalho dos ilustradores que a região tem dado passos substanciais. Também no campo da formação, a ilustração tem sido valorizada, como é disso exemplo a Escola Superior de Design do Instituto Politécnico do Cávado e do Ave, que, no Minho, deu os primeiros passos na integração da disciplina no currículo da licenciatura em ‘Design Gráfico’ - algo incomum até há bem pouco tempo - e tornando-se até pioneiro com a aposta no mestrado em ‘Ilustração e Animação’.
Raquel Costa, 41 anos, dá aulas na Escola Superior de Design do Instituto Politécnico do Cávado e do Ave e diz que gosta de desenhar desde que se conhece e é o mundo da ilustração que verdadeiramente a preenche. “Quase toda a gente da minha geração que trabalha na ilustração veio de áreas diferentes e acabámos por chegar a esta área partilhando as bases e frequentando formações técnicas, mas penso que a vantagem de uma formação específica nesta área é importante sobretudo pela possibilidade da aprendizagem das boas práticas desta indústria, porque ser ilustrador é muito diferente do que ser um artista plástico”.

Ilustradora, docente, designer e artista plástica, Raquel Costa diz-se tudo isto e já abraçou várias profissões para se sustentar desde livreira à orientação de oficinas artísticas, aceitando as voltas e oportunidades que a vida lhe foi dando, a partir da única formação que tinha disponível na altura, com a licenciatura em ‘Artes Plásticas’ na Escola Superior de Belas Artes do Porto.
Deu aulas no ensino básico, mas acabou dedicada à ilustração e, fruto desse trabalho, foi contactada para dar aulas no IPCA. Hoje concilia ambas as áreas e diz que nunca teve medo.

“Sinto este gosto em desenhar e consumir os livros ilustrados praticamente desde que me lembro de ter memória de mim mesma. Mas a verdade é que havia sempre alguém que me acompanhava e que era como que uma ‘voz de incentivo’ para eu seguir este caminho, desde a minha professora da escola primária, às professoras do básico e secundário que sempre foram um factor de motivação para mim”.
Mostra o talento no site ‘Little Black Spot Studio’ - um projecto que partilha com o companheiro, Nuno Cancelinha, onde desenvolve design e branding para a comunicação de marcas, cujo primeiro cliente foi o Theatro Circo de Braga, com o livro ‘O Theatro ainda leva H’ criado propositadamente para o centenário do equipamento cultural.
“A ilustração é uma área que só floresceu mais recentemente. Mas quando temos formação artística, seja em que nível de ensino for, a verdade é que estamos a potenciar também a formação de públicos para o consumo e formação dessas disciplinas artísticas. São dois mundos que se auto-alimentam”, afirmou a ilustradora.

Pedro Seromenho diz que Braga deve “estar vaidosa”

“A nossa arte tem de ser o espelho do nosso acreditar, dedicação e resiliência”A edição 2020 do ‘Braga em Risco’ foi adiada para 2020 e o padrinho do evento, mas o escritor e ilustrador Pedro Seromenho destaca o “profissionalismo” que os ilustradores bracarenses têm, mostrando versatilidade e capacidade de criação para responder às oportunidades do mercado potenciando o seu talento e arte através das ferramentas analógicas e digitais. Seromenho destaca o trabalho dos ilustradores bracarenses, acima de tudo, pelo facto de “fazerem arte e viverem dela, sem a desrespeitar”.
“Souberam pegar no seu talento, aproveitar as potencialidades do analógico e do digital, de forma a satisfazer e a antecipar as expectativas editoriais, e reinventaram-se de livro em livro”. Diz que no mundo do livro infantil e da ilustração, não basta saber “fazer bonecos”. “A nossa arte tem de ser o espelho do nosso acreditar, da nossa dedicação e resiliência. Braga deveria estar vaidosa por poder ser vista em espelhos como estes”.

‘Made in Braga’ para colorir o mundo

‘O Avião Saltitão’ e o ‘Chapéu Telepático’ foram os primeiros livros infanto-juvenis ilustrados pelo bracarense Sebastião Peixoto e Zita Pinto tem dedicado o seu tempo a ilustrar a colecção ‘O Mundo da Inês’. Os dois ilustradores têm ‘dado cartas’ no maravilhoso mundo da ilustração e mostram-se exemplo da perseverança e do talento que promove a marca ‘Made in Braga’.
Aos 48 anos, Sebastião Peixoto divide a vida e a inspiração entre a ilustração e a pintura, já ilustrou mais de quarenta publicações e neste momento exibe o seu trabalho numa exposição patente até ao fim do ano na Biblioteca Municipal de Viana do Castelo.
Licenciado em ‘Pintura’ pela Faculdade de Belas Artes do Porto, foi também cedo que Sebastião diz ter descoberto este ‘gosto’ pelo desenho e ilustração, daí que ainda durante a frequência do 9.º ano tenha apostado no curso de ‘Artes’ na Escola Carlos Amarante. No início da vida profissional, chegou a dar aulas de ‘Educação Visual’ ao básico e secundário, mas o impulso que sentia para a criação era puxado pela veia artística.

“Comecei a interessar-me até mais pela ilustração através de uma companheira que é professora do 1.º ciclo e a ver que as minhas ilustrações caberiam naqueles livros didácticos também”, recordou. Daí a ter desenvolvido o seu próprio portfólio para apresentar às editoras foi um passo. Já lá vão mais de 15 anos e lembra com simpatia o primeiro trabalho pago: uma ilustração para a Porto Editora, respondendo a um anúncio que viu num jornal. Este foi o passaporte para o primeiro convite para ilustrar os primeiros dois livros, atrás mencionados, seguindo-se outros trabalhos. O seu trabalho pode ser encontrado na página de Facebook ‘Sebastião Peixoto illustration’, usa o desenho e a pintura e a maior parte do trabalho que faz, hoje, é pintura digital. “Sinto-me realizado q.b. pois esta é uma profissão complicada porque não é segura e a verdade é que sem rendimento fixo, o trabalho de freelancer acaba por ser muito desgastante, sobretudo à medida que se vai envelhecendo em que gostaríamos de ter outra estabilidade... gostava que existissem mais oportunidades. Em Portugal há alguns jornais que investem na ilustração, mas são ainda poucos”, disse, destacando que, actualmente, já há muitas empresas que apostam no trabalho dos ilustradores também para o desenvolvimento de marcas e sites.

Mas desengane-se quem pensar que só ilustra quem anda em escolas de formação artística. É o caso de Zita Pinto, de 40 anos. Licenciada em Geologia de Prospecção Mineira pela Universidade do Minho, área profissional onde trabalhou durante 11 anos e que lhe proporcionou conhecer melhor as regiões Norte e do Alentejo em Portugal e outros locais mais longínquos como Angola e a Irlanda do Norte.
Mas até na profissão em que encarnou o espírito do ‘Indiana Jones’, Zita percebeu que o gosto pelo desenho, que sempre sentira desde tenra idade, a continuava a acompanhar, mostrando a sua criatividade nas ilustrações científicas que criava para os seus modelos geológicos e cartografia temática, adaptados ao tipo de minério que estava a ser procurado.
“Tenho uma paixão pelos livros e pelas ilustrações desde que me lembro e recordo que, quando era mais nova, ter um carinho especial pelas pessoas que me ofereciam livros e que tinham paciência para os ler comigo. Sempre foi algo que me chamou a atenção e os livros ilustrados sempre me contaram histórias através das imagens, quando eu não sabia ainda ler”.

Foi quando se fixou em Braga, em 2013, também para estar mais perto da família, que Zita Pinto sentiu mais vontade em ‘dar asas’ à criatividade através do desenho. “Era uma área de que eu gostava imenso e que sentia que estava a ficar para trás. Decidi desenvolver esta vertente, com um curso técnico de design gráfico para ter bases mais sólidas para poder trabalhar e comecei a criar o meu portfólio”. O seu trabalho pode ser apreciado em www.behance.net/Zitapt.
Os primeiros trabalhos e convites para expor surgiram em 2014, mas a grande visibilidade veio com o convite da Porto Editora, em 2018, para ilustrar ‘O Mundo da Inês’ e, em mãos, tem já o 9.º título para adornar com os seus desenhos. Tem trabalhado em ilustração para outros ramos, mas é a ilustração editorial que a fascina.

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