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Bracara Augusta Guitar Trio sábado à noite em Ponte de Lima
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Bracara Augusta Guitar Trio sábado à noite em Ponte de Lima

Entrevistas

2022-07-28 às 12h03

Rui Serapicos Rui Serapicos

Artur Caldeira, com Daniel Paredes e Artur Gil Godinho, forma o Bracara Augusta Guitar Trio que toca neste sábado à noite em Ponte de Lima, inserido no Festival Percursos da Música.

Citação

No Parque do Arnado, em Ponte de Lima, ‘Quatro suites para trio de guitarras’ é o espectáculo que o Bracara Augusta Guitar Trio propõe, neste sábado, pelas 22 horas.
“Este concerto, em Ponte de Lima, deve-se a um convite específico do programador do Teatro Diogo Bernardes, Miguel Franco. O convite incide justamente no programa Cantares do Minho, as quatro suites para três guitarras compostas por Fernando C. Lapa a partir do cancioneiro minhoto”, explica ao Correio do Minho o guitarrista bracarense Artur Caldeira.
É um concerto inserido no Festival Percursos da Música, que coloca concertos em lugares diversos, menos habituais a este tipo de concertos. “Vai assim esta música situar-se na perfeição no coração do Minho, neste caso já do Alto Minho, num ambiente natural e aberto a um público diversificado, que pode encontrar neste programa as canções de raiz que residem no seu imaginário de infância, trazidas pela mão daquele compositor para um território habitualmente mais selectivo, mas que pretendemos inclusivo”, adianta.
Em entrevista, o músico começa por explicar por que razão o trio tem o nome em inglês:

Correio do Minho — O Bracara Augusta Guitar Trio já tocou em Braga, no Alentejo (em Serpa) e agora vai a Ponte de Lima. As primeiras reacções têm sido positivas? As encomendas estão a corresponder ao esperado?
Artur Caldeira — Antes de mais, um agradecimento pelo interesse demonstrado que se reflecte nesta entrevista. Devo, talvez, explicar o porquê do nome do Trio em inglês. Não se deve a qualquer tendência para os anglicismos, tendência que não partilho, mas antes a uma questão prática de leitura internacional.
Respondendo à pergunta: os concertos em Braga e Serpa ocorreram na sequência de encomendas de ambos os municípios e, no caso de Serpa, também do Museu do Cante Alentejano, para a composição de obras inspiradas nos respectivos cancioneiros. Através do programador Litó Godinho, o compositor Fernando C. Lapa aceitou a “empreitada”, que resultou em duas magníficas obras que reflectem a identidade das melodias populares/tradicionais de ambas as regiões, trazendo-as para o território dos palcos eruditos.
É curioso e importante referir que, populares e eruditos (com todo o espectro que os intermedeia) se têm sentido à vontade a assistir a estes concertos: os primeiros porque conseguem distinguir com facilidade as melodias que estão na base daquelas obras, os segundos porque encontram nestas obras a categoria composicional do Fernando C. Lapa. Na realidade, trata-se de um dos mais reputados criadores musicais portugueses da actualidade, que trabalha como poucos a música de raiz. Refira-se que ambas a obras ficarão editadas em partitura e gravadas em CD.
Por conseguinte, as reacções têm sido muito positivas, diria até surpreendentemente positivas. As encomendas começam a chegar de várias latitudes.

CM?— Temos público com interesse no repertório a que esta formação se dedica, que é essencialmente erudito? O interesse por este género tem vindo a evoluir?
AC?— Na realidade, dedicamo-nos de igual forma aos idiomas popular e erudito. Aliás, esta partilha erudito/popular tem gerado ótimos resultados. Não é uma ideia nova, já outros o fizeram antes. Grandes compositores da História da Música citaram ou escreveram sobre melodias populares dos seus países e não me refiro apenas aos Nacionalistas. Penso mesmo que uma excelente forma de atrair público para os repertórios mais eruditos é esta de apresentar programas heterogéneos, que se tornam mais inclusivos para os públicos. A linha que separa a Música Erudita da Popular é um constructo elitista. Nunca existiu de facto, nem deve existir. Dou continuamente o meu contributo para que se esbata cada vez mais. Este repertório personifica a não existência daquela linha.

“Músicas populares ajudaram-me mais à música erudita do que o contrário”

CM?— Havendo outros géneros em que o Artur Caldeira também pode ser fluente, como a música popular, a opção pelo erudito explica-se pelo gosto estético? Pelo virtuosismo que exige? Por uma satisfação de divulgar compositores menos conhecidos?
AC?— Como sabes, comecei a minha vida musical pelas músicas populares. O mergulho na música erudita deu-se essencialmente por dois factores: 1. a necessidade de buscar mais conhecimento, de evoluir enquanto músico; 2. neste aspecto e em Portugal, as únicas escolas com ensino formal e organizado da música, à data em que comecei os meus estudos, eram os Conservatórios.
Depois foi uma inevitabilidade. Tal como as cerejas, puxas uma obra ou um compositor e vêm mais uns quantos... E a aprendizagem de um músico nunca mais termina, torna-se contínua e eterna. Todavia, nunca deixei as músicas populares, pois todas elas contribuíram para o que sou hoje.
Aliás, as músicas populares ajudaram-me mais à música erudita do que o contrário. Para o acto de ser músico, algo cuja explicação não caberia nesta entrevista, as músicas populares foram-me fundamentais e, porque não afirmá-lo, mais importantes do que as outras. E vale a pena afirmar que os Conservatórios, salvo honrosas excepções, não fornecem aos seus alunos as experiências necessárias a uma versátil e eficaz prática musical profissional. Continuam conservadores, passe a redundância e desactualizados, privilegiando essencialmente um estudo com base no solfejo e na leitura de partituras, menosprezando o desenvolvimento da intuição musical, do entendimento e diálogo numa linguagem que, no fundo, pode chamar-se musiquês, que muitos diplomados não entendem nem dominam.

CM?— Há nos compositores portugueses uma portugalidade que se expressa na música?
AC — Não em todos, não em todos... Há os compositores que, valorizando a via académica, se dedicam a compor em determinadas linguagens legitimadas por uma estética erudita, académica, de época.
Também existem os que, mantendo-se neste panorama, valorizam rasgos de inspiração que os desviam do estabelecido, criando obras que se destacam artisticamente.
E há aqueles que não fecham a porta a nenhuma linguagem, deixando-se contaminar pelas várias estéticas e criando a sua. Temos os casos de Leo Brouwer e Dusan Bogdanovic, para citar apenas dois dos mais importantes (senão os mais importantes) compositores/guitarristas vivos, cujas obras (em sentido lato) são transversais a múltiplos idiomas musicais. Não sendo guitarrista, embora conheça o instrumento, Fernando C. Lapa situar-se-á neste último grupo, com a sua música a refletir aquela portugalidade. Mas há mais exemplos e bons.

CM — A pandemia, descontando todos os males que causou, teve para a música algum aspecto positivo?
AC — O grande aspecto positivo gerado pela pandemia foi a constatação de que a Música é um bem essencial para a nossa existência. Seja qual for todos necessitamos dela. A prova disso foi a contínua procura e partilha verificada nas redes sociais. É algo a que todos podemos ter acesso e partilhar e entender, independentemente da nossa nacionalidade ou língua materna. E a ausência de concertos foi sentido de forma angustiante pela maioria da população. Só não sentirá falta da Música quem nunca a teve.

CM — Enquanto professor, que percepção tens no momento presente da qualidade do ensino musical?
AC — Essa é uma pergunta complexa, para a qual não tenho uma resposta curta nem simpática... Começo por dizer que a maior democratização do ensino trouxe já a possibilidade do estudo da Música a mais cidadãos e a idades mais precoces. Logo, percentualmente haverá, sem dúvida, mais e melhores resultados. Se as coisas têm sido levadas da melhor forma? Claro que não. No meu entender, gastam-se demasiados recursos no ensino especializado (sem se saber exactamente o que isto significa), sendo que “especializado” se reporta apenas aos repertórios legitimados historicamente no que chamamos de música erudita, excluindo todos os outros. Depois, não se investe nada no ensino genérico, onde a educação musical deveria ter um peso importante durante todo o ensino obrigatório, começando no jardim de infância. Ou seja, todos deveríamos ter acesso a uma educação musical (não se leia formatação musical), que nos alimentasse e polisse o gosto pela música, criando em nós o espírito crítico necessário para perceber o que vale e o que não vale a pena, sejam quais forem os estilos e idiomas musicais; em todos há boa e má música. Naturalmente, sairiam daqui os interessados em prosseguir estudos musicais, esses sim devidamente encaminhados para as escolas especializadas (mas com variados idiomas) tornando-se mais tarde profissionais da Música.

Especialista em música guitarrista premiado e doutorando

Artur Caldeira é licenciado em guitarra clássica e mestre em interpretação artística pela ESMAE, Porto, na classe do Prof. José Pina.
Foi-lhe atribuído, após provas públicas, o título de especialista em música. É actualmente doutorando em educação artística na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto.
Guitarrista premiado, apresentou-se a solo, com orquestra e em diversos colectivos em vários países da Europa, África e Ásia. Realizou primeiras audições absolutas de algumas obras. Fundou o grupo ‘Som Ibérico’, para o qual escreveu arranjos de temas da música popular urbana portuguesa, gravando um CD onde assinou a produção e a direcção musical.
Produziu, dirigiu e gravou o CD ‘Clarinete em Fado’ de António Saiote. Dirigiu e gravou, com o guitarrista Daniel Paredes, o CD ‘Sefika Plays Fado’ da flautista turca Sefika Kutluer.
Tocou com renomados fadistas das últimas décadas e participou como convidado no filme ‘Fados’, realizado por Carlos Saura.
Em 2020 grava um CD com obras portuguesas para guitarra clássica, obtendo as melhores críticas. Recebeu recentemente a medalha da Assembleia Nacional de França em reconhecimento do seu trabalho em encontros culturais luso-franceses.

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