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'A Perdiz e o Sacrifício': quarto capítulo do livro de José Manuel Cruz
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'A Perdiz e o Sacrifício': quarto capítulo do livro de José Manuel Cruz

Braga

2021-06-14 às 19h02

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

Página inicial do quarto capítulo, que alguns terei que saltar. Vida fora de rotinas, vida pontilhada a medos. Homem de Fé que não pode ignorar as provações a que é sujeito, e menos ainda a angústia constante de não conseguir defender ou prover os que tem a cargo. Diálogos que consciência vigilante impõe – a ele, a nós.

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Chuva que se intensificara, ou afoiteza que diminuíra. Não seria uma da tarde quando reganhamos a estrada. De então para agora, que vimos de ultrapassar a estação de Casal de Carreiros, nos dizem que pouco cresce das duas. Aperta-se o tempo e as pernas não vão lá só de boa vontade e por piedosa obediência. Onde quer que cheguemos, mais vale que o façamos em santa companhia. Inicio a reza do terço. Reclamo alguém que me ladeie, para que passe as contas, enquanto procuro esticar o passo, para que cada ave-maria renda mais meio pé, para que a cadência induzida circunscreva a chuva na sua exterioridade, e para que nós, magnetizados, sejamos a oração cíclica que proferimos – soberana, cortante, impermeável, como pano encerado de veleiro.

Uma metáfora, uma súplica, uma oração íntima: «Senhor, navegamos em tua direcção, e que arrais fazes de mim! De uma mão controlo vela desfraldada, de outra manobro a cana do leme, para que avancemos, como quer que os elementos disponham na sua natural combinação e imprevisibilidade. Que percebo eu destas marinharias! Quiçá nos aumentes o tormento, para que de nós se condoa quem de outro modo nos ignoraria. Quiçá nos atrases, para que por alguém sejamos encontrados. Insondáveis são os teus caminhos, impenetráveis as tuas determinações.»

Rezo, eu, para que em pensamentos não me disperse, para que não malbarate o alento. Que anseia um caminheiro, senão chegar?

De válido, de gratificante, que regista um peregrino, senão a prece que o liga ao espírito que o impulsiona? Que regista um fugitivo, senão a distância que lhe aumenta a vantagem sobre quem o persiga?

De ambos, que relata um ou outro que demandemos, por pausa imposta em jornada de chuvas pegadas? A paisagem? Ocasional encontro com ilustrativa palestra de personagens que se desvendam? Pouco ou nada vê quem marcha determinadamente, fustigado por aguaceiros, e com ninguém se encontra, se por hipótese exceptuarmos quem atravesse os mesmos trabalhos.

Convívio que não cresce de desditas confluentes que arfam em paralelo. Cruzarão incentivos? Trespassarão vergonhas, protelando a desistência para lá de volúvel e reformado ponto entrevisto, como se após aquele cabeço, aquele valado, aquela penedia ou renque de árvores, se anteveja a tão aguardada pousada?

Fôramos um rancho de mocetões desafogados de gozo em gozo, ou de braçais de jorna em jorna, cada um igual ao outro, cada um responsável por si, ou nem por si. Quanto eu não confie no meu Deus, há este temor que não cessa de me abalar. A nada quis atrever-me, a dignidade alguma ascender, convindo-me a pacatez, o anonimato, a invisibilidade, para que a oração fosse o meu pináculo e mantimento.

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