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Braga, sexta-feira

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Zonas 30 e Maquiavel

A saia comprida

Zonas 30 e Maquiavel

Ideias

2020-02-18 às 06h00

João Marques João Marques

Segundo números oficiais (de 2018), mais de 93% dos acidentes com vítimas ocorridos no distrito de Braga registaram-se dentro das localidades, sendo que do total de acidentes com vítimas mortais, quase 83% deram-se também nas mesmas zonas.
Podemos seguir o silogismo mais básico e concluir que, se é dentro das localidades que mais pessoas existem e mais veículos circulam, então é normal que seja aí que se encontre o grosso dos acidentes e dos números das lamentáveis vítimas.
Só que essa presunção não passa na evidência simples, mas elementar do esforço de sobrevivência pelo qual a espécie humana é conhecida. Ou seja, como podemos aceitar acriticamente que a esmagadora maioria dos acidentes rodoviários com vítimas ocorra onde mais seres humanos coexistem diariamente, quando seria aí que, por instinto, mais cuidados teríamos para evitar tais infortúnios? A resposta não é fácil e conjuga-se com vários fatores, desde a qualidade dos traçados, até à idade média do parque automóvel, passando por fatores culturais que vão sendo assimilados e tidos por bons, ainda que signifiquem comportamentos que raiam a pura estupidez.
Se é difícil mudar comportamentos por via da formação e educação, o que, por si só, não pode significar a desistência desse fator, menos custosa será a implementação de soluções que obriguem a que os ditos comportamentos de risco diminuam significativamente.
Lembro-me do apelo do movimento “Braga Zero Atropelamentos”, em julho de 2019, na Assembleia Municipal de Braga, exortando os agentes políticos locais a implementar, sem demoras, as famigeradas “zonas 30”, onde a circulação automóvel não devesse exceder os 30 km/h. Esse apelo foi acompanhado de uma estatística impactante, referente aos dados dos últimos 20 anos – em Braga, a cada três dias regista-se um atropelamento.
Perante este facto, a autarquia não poderia ficar de braços caídos, normalizando aquilo que não pode deixar de constituir uma anomalia grave numa comunidade como a nossa.
Essa ação traduziu-se nas obras de requalificação de quatro dos mais populosos quarteirões do concelho (Makro, Torre Europa, Quinta da Fonte e Montélios), justamente para criar as reclamadas “zonas 30”, aproveitando-se a oportunidade para pontuais e relevantes rearranjos urbanísticos de passeios e lugares de estacionamento.
O resultado final está prestes a conhecer-se, sendo já públicos dois tipos de reações: a primeira, na zona da Makro, é de alguma preocupação com o fim de lugares de estacionamento que existiam, fruto dos referidos rearranjos. Esse ceticismo às soluções implementadas deverá decair com o tempo e a habituação a um novo paradigma de mobilidade, permitindo tornar um conjunto de obras num propósito político estratégico. Para tanto haverá que contar com a via aberta do diálogo franco e consequente com a Câmara Municipal, devendo admitir-se correções, caso se demonstre o desacerto do projeto inicial;
Já o segundo tipo de reações, é precisamente o oposto. Soube-se, durante a visita de uma delegação da CDU à zona de Montélios, que aí os moradores pretendem ainda mais ambição por parte do município, reclamando um aumento da zona de intervenção e requalificação. Em duas palavras, um sucesso retumbante.
Estes dois tipos de avaliações dão conta da dificuldade do exercício do poder. Saber congregar soluções absolutamente idênticas, destinadas a um objetivo valioso, aceite pela comunidade, mas cuja concretização gera reações tão díspares, é muito complexo.
Claro que as mais-valias dos projetos não podem ser aferidas apenas pela subjetividade destas vozes públicas, mas se a vontade em ser reeleito fosse a única e determinante matéria para quem está no poder, mandava a lógica maquiavélica que o “Príncipe” impusesse a sua vontade e forçasse a sua ideia sobre qualquer manifestação de repúdio popular.
O “Príncipe” do século XXI não tem a retalhada Itália como pano de fundo, nem as guerras fratricidas e fidagais entre poderosos como preocupação e pode, até, recorrer à ética (republicana e não só) para orientar o seu juízo. Ainda assim, essa amenização da vontade dos mandantes, popularmente sufragados, não deve significar o abandono de uma boa ideia e de uma prioridade que visa salvar vidas, regular o trânsito automóvel e desincentivar o uso da viatura particular, apenas por receios eleitoralistas.
Para o bem e para o mal, Braga não é Florença.

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