Correio do Minho

Braga, segunda-feira

Xeque, e mate

Desprezar a Identidade, Comprometer o Futuro

Ideias

2018-04-06 às 06h00

José Manuel Cruz

Em entrevista vaidosa, Hollande disse haver autorizado o assassinato de inimigos da França. No exercício das suas funções, bem entendido, e por quatro ocasiões – teve um mandato e tanto, neste capítulo. A confissão encontra-se na obra «un présidente de devrait pas dire ça».
Ainda era inquilino de Eliseu quando o livro saiu, e a polémica foi pouca. Que o facto relevaria de situação que se poria de quando em vez, pois isso era facto de que ninguém duvidava particularmente. Talvez Marcelo não se veja nestes apuros. Talvez Cavaco e Sampaio tenham sido poupados a semelhante decisão. Já por um presidente americano ninguém põe a mão, ou põe? Idem-aspas para um prime-minister britânico, para um emir saudita, para um imperador chinês, para um czar russo, ou para um chanceler alemão, para… Prerrogativa de príncipes, a de decidirem da vida da morte, e não necessariamente por gladiador em arena. Matérias de Estado. Ponto.
Declino formular opinião sobre aqueles que se indignam, que clamam, com todos os aqui-del-rei que conhecem, contra tamanha arbitrariedade, contra um tal atentado à vida humana, contra o desrespeito primário das convenções internacionais, patati-patatá. Seria vê-los, em cenário análogo de conhecida posição bíblica, a da adúltera e dos pios respeitadores da lei moisaica. Acredito que deixariam que as pedras se lhes escapassem inofensivamente por entre os dedos. E, lá está, a senhora May seria menina para abotoar o tailleur e meter viola ao saco.
Entendamo-nos: eu não estou a sugerir que a primeiro-ministro britânica tenha ordenado assassinatos selectivos, nem a fazer coro com os que dizem que Putin o tenha feito. Mas que escave, a senhora May, nos anais dos serviços secretos ingleses, que alguns penduricalhos acabará por encontrar.
Eu, já agora, tenho umas explicações com 200 anos de atraso para pedir a suas-majestades britânicas: como é que estamos do assassinato de Freire de Andrade? Eu sei que o Senhor Tenente-General foi julgado, e pronunciado culpado, mas o julgamento foi uma farsa pegada, ou a versão oficial ainda é a outra?
Muito honestamente, eu nem sei se o Freire de Andrade seria flor que se cheirasse, posto que, pelos parâmetros correntes, seria uma espécie de mercenário, ávido de campo de batalha, homem de olfacto afinado por pólvoras e de mão calhada para umas espadeiradas. Aparte isso, seria um idealista maçónico e, como genuíno portador de aventalinho cerimonial, aspiraria a uma regeneração positiva do mundo, por que não de Portugal, se mal entregue estava às disposições do marechal Beresford, verdadeiro califa no lugar do califa.
A História de Portugal tem os seus quês: tê-los-á, a Historia Universal, por maioria de razão. Freire de Andrade poderia ser um aventureiro perigoso ou inconsequente, mas mais razões lhe assistiam para sarrabiscar umas ideias sobre o futuro de Portugal, do que a esse par do reino britânico que, entre nós, melhor defendia os interesses insulares do que os lusitanos – fosse lá outra coisa de esperar.
Nenhum estado com pretensões hegemónicas ou de potência regional respeita os direitos do indivíduo, nenhum poder acossado hesita em afastar um adversário, e de vez, se tiver que ser. A História não deixa de nos surpreender com repetições do mesmo guião. Não indo assim tão longe, Erdogan, que mais a contento se vê como um paxá de outros tempos, bem à medida teceu uma manobra de diversão para se livrar de alguns oponentes, rediabolizando os curdos no mesmo pacote. E ai de quem lhe atire com os epítetos que reservamos para o Assad sírio.
Cai quem quer na esparrela das cruzadas civilizacionais pela democracia e direitos humanos. Quanto não tem a América para fazer dentro de portas? Em que é que o Iraque, a Síria e a Líbia, pré-intervenções, eram menos apresentáveis que a Arábia Saudita? E a China de partido único em que contas entra?
Voltemos ao herói português. Lutou por czares e contra czares. Esteve com os exércitos de Catarina na primeira guerra russo-turca, e saiu titulado. Lutou com franceses e contra franceses. Morreu por ordens de um inglês, que se cria vice-rei de Portugal. Houve tribunal, mas foi como se não tivesse havido. Realmente, é outra loiça ter um juiz que nos isenta do odioso de uma ordem arbitrária de morte, despachada ao pequeno-almoço, passada com um trejeito a um impedido.
Quanto ao caso presente: morre, não morre, o duplo agente triplo? Fica aleijadinho para o resto dos dias? Pessoalmente, é uma tragédia. No entanto, verdade se diga, cai como um verdadeiro operacional, independentemente de juízos de carácter sobre as mudanças de tabuleiro.

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