Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Waldemar

‘O que a Europa faz por si’

Conta o Leitor

2017-07-21 às 06h00

Escritor

António Valente

Doutor, como vai? E a família, todos bem? Benza Deus! Posso lhe perguntar uma coisa, doutor? Sabe o que é, o senhor é advogado, não é? Entende das leis, essas coisas. Eu queria saber o seguinte: será que eu posso mudar o meu nome? É, mudar de nome. Tirar o que eu tenho hoje e botar outro. Eu ouvi falar que pode, que tem que ir no cartório, falar com o juiz de lá. Heim! Por quê? Bom, é por causa de uma cigana. Cigana, dessas que de vez em quando aparecem por aqui e querem ler a mão da gente. Eu venho pra cá todo dia, o senhor sabe, não é? Vendo minhas frutas: mamão, tangerina. Hoje tem figo, está na época, se for do seu gosto... está barato. Heim? Ah! Sim, a cigana. Pois é. Eu não sei por que eu fui fazer aquilo, deixar ela ler minha mão. Nunca deixei, nunca quis. Eu nem acredito muito naquilo não. Achava elas meio trambiqueiras, entende?

Mas não sei o que me deu naquele dia, parece até coisa mesmo do destino, sei lá. Eu tenho até medo dessas coisas, quer dizer, não é medo, acho que é respeito. Tem certas coisas que a gente não acredita muito, mas sei lá, é bom não duvidar muito não. O melhor é nem mexer com isso. Mas não sei o que me deu naquele dia e eu deixei ler a minha mão. Bom, aí ela pegou, virou minha mão pra lá e pra cá, falou um monte de coisas sobre dinheiro, sobre mulher, que eu nem prestei muita atenção. Na verdade, doutor, eu estava era de farra, não estava levando a sério aquilo não.

Até ela falar aquilo. Heim! Sobre o mar. É, quando ela já tinha terminado e até já tinha soltado a minha mão, ela perguntou o meu nome. Aí eu disse: Waldemar, que o meu nome é esse. Waldemar. Aí ela falou, séria, e já se afastando: - Waldemar, cuidado com o mar! Muito cuidado com o mar! O senhor já viu uma coisa dessas! Aquilo mexeu comigo, sério mesmo! Nunca mais eu consegui esquecer. Queria me despreocupar e nada. Não me saía da cabeça a fala da cigana. Eu fiquei, como é que se diz... Isso, impressionado.

Acontece, doutor, que eu sempre gostei do mar. É. A gente tinha uma turma que sempre ia jogar bola ali no aterro, ali na praia do Flamengo. Depois do futebol nós íamos para o mar, tomar banho, nadar, dar cambalhota, aquelas coisas. Era muito legal. O que? Não, nunca mais! Desde que a cigana me falou aquilo, nunca mais eu pus o pé no mar! O senhor está vendo que situação a minha. E olha que eu nem sei direito se a praia ali no aterro é mar. É? O senhor acha que é? Eu não sei. É que um cara - chega mais perto, doutor -, na verdade uma bicha, um travesti, entende?

Eles ficam tomando sol ali no canto, junto das pedras. Tem uns que tem até peito e ficam tudo com os peitos de fora tomando sol. Uma vergonha! Mas eu não tenho nada com isso. Cada uma faz o que quer, é ou não é? Mas um dia, depois do futebol, tinha um deles conversando com a gente, numa roda em volta daquelas carrocinhas que vendiam bolo e laranjada. O senhor se lembra? É. Vendiam uma laranjada no copo de papel, aqueles copos em forma de funil. Pois é, eu também não vejo mais essas carrocinhas por aí não.

Será por quê? Bom, mas o cara, o travesti, tava falando que ali não era mar, que era a baía, que o mar ficava lá fora, ali depois daquelas pedras da Urca. Ele dizia que tudo dali pra dentro era baía. Por isso eu fico na dúvida. Só que na dúvida é melhor não se arriscar, né? Por isso eu nunca mais pus os pés naquela água.

Mas o pior, doutor, quando eu passei a ficar mais... como é mesmo que o senhor falou? Isso, impressionado. Eu fiquei ainda mais impressionado foi depois que um meu amigo morreu no mar. No aterro? Não, foi lá na Barra. Essa era uma outra turma, não era a do futebol não. Era uma turma lá do bairro. De vez em quando a gente descia pra Barra, lá pros lados do Recreio dos Bandeirantes. Pois é. Esse nosso amigo era um anão. Heim! É isso mesmo. Um anão, um anãozinho. Aliás, é engraçado o que eu falei. Anãozinho. Todo anão já é inho, né? Era um cara legal, sempre ia com a gente.

Até que morreu lá. Digo, morreu não. Quer dizer, eu não sei e ninguém sabe. Como? É o seguinte, doutor. Acontece que ele entrou no mar, isso eu vi, todo mundo viu, e nunca mais apareceu. Deve ter morrido, não? Eu acho que morreu e as ondas levaram ele sei lá pra onde, mas um amigo meu falou uma coisa que me deixou encafifado. Ele disse que anão não morre. O senhor já ouviu falar nisso? Não? Pois é, mas tem essa conversa no meio do povo. Dizem que eles passam de um pro outro, não sei como. Mas a verdade é que eu nunca vi um enterro de anão.

O senhor já viu? Pois é, acho que ninguém nunca viu. E o senhor já reparou mesmo como todo anão é parecido. Aqui mesmo, ali do outro lado da praça, não é que um dia eu vi passar um anão igualzinho ao meu amigo! Foi. Verdade! Eu até pensei em correr atrás dele, mas estava aqui com as frutas e não pude. Mas era a cara do... Sim, eu esqueci de dizer o principal. Sabe qual era o nome desse nosso amigo anão? Lindomar! Lindomar, o senhor entende! Aí foi que eu fiquei mais preocupado com as palavras da droga da cigana. Poxa, o nome do cara era até um elogio pro mar, não é não? Lindo mar!

Daí que me veio essa ideia de mudar de nome. Eu ouvi falar que pode. Que tem que ir no cartório, explicar pro juiz. Será que pode, doutor? O que é que o senhor acha?

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