Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Vou deixar de ver filmes de terror

A União Europeia e os Millennials: um filme pronto a acontecer

Conta o Leitor

2014-07-19 às 06h00

Escritor

Cristóvão Gomes Soares

Cada vez que vejo um filme clássico de terror, é sempre a mesma história. Não falha... É sempre uma dúzia de adolescentes que decide alugar uma casa isolada do resto do mundo, situada numa pequena ilha deserta, cercada por águas sombrias e coberta por um estranho manto de nevoeiro. Uma espécie de Mont Saint-Michel em versão Satânica.
Estão a ver o ambiente da coisa? É exactamente o tipo de lugar onde nenhum de nós iria, mas este grupo decide alugar a casa.

Por pouco ia-me esquecendo de um pormenor, mas que todos já suspeitavam: há 40 anos atrás, ocorreu um massacre sangrento naquela casa. Pois, claro! Mas, pelos vistos, aquela malta está-se nas tintas para isso! Têm todos por volta de 20 anos, querem armar-se em frente às meninas, e toca a andar, alugam a casa.

O próprio preço da casa deveria chamar à atenção... Digamos que cheira a estrilho: 20 euros por um fim-de-semana, numa casa que tem 30 quartos… É que nem sequer dá 1 Euro por quarto... Deveria alertar para algum tipo de problema, não? Mas que se lixe, alugam o raio da casa.
Bem, poupo-vos os pormenores em relação ao velhote que leva esta malta toda de barquinho para aquela ilha. Supostamente, o homem devia ficar com eles na mansão mas, no último momento, ao cair da noite, o velhote pega nas suas perninhas e põe-se a mexer. Estranho, não é? Se há pouco cheirava mal, agora fede…

Mais estranho será ainda a hora à qual a noite cai: 14h30! É a dita “noite de terror”, aquela escuridão propícia a qualquer acto paranormal e violento, simplesmente iluminado pela clareza de um triste luar. Com certeza, já repararam que, neste tipo de filmes, anoitece a qualquer momento (até várias vezes ao dia se for preciso). Basta ver o filme Drácula. Neste, está mais que visto que quem vai para aquela zona não pode ter bronzear como objectivo. O sol nasce sorrateiramente às 11h e a noite cai brutalmente às 12h30! Enfim…

Vinte minutos após o início do filme, ninguém ficará surpreendido por saber que já há oito cadáveres espalhados pela casa! Nenhuma constipação, gripe ou queda nas escadas... Não, nada disso! São pessoas que morrem queimadas na chaminé principal da mansão, de pernas para-o-ar, acorrentadas, com as tripas a escorrer pelo corpo. São, no mínimo, 200 litros de ketchup e pedaços de carne humana espalhados por todos os cantos, gritos estridentes de dor, mais as frases satânicas desenhadas nas paredes com os dedos dos torturados. Um verdadeiro massacre...

Com esta visão de horror, o mais lógico seria instalar-se, no mínimo, um pouco de ansiedade entre os jovens… Digo eu… Mas não, que ideia... Não se passa nada. Tranquilos da vida, está a ser um fim-de-semana espectacular. Enquanto houver cerveja e meninas, está tudo bem!
Relembro os números para os mais distraídos: dos 12 membros do grupo inicial sobram 4 pessoas.

É exactamente neste momento que o fisicamente mais dotado, o mais Rock’n’Roll, aquele que tem a fashion atitude, que geralmente é capitão da equipa de futebol da escola, se lembra de dizer aos outros três:
“Pessoal, ouvi barulho no sótão... ou talvez na cave, que tal fazermos dois grupos de dois?”
Lamento, mas não! Ninguém faz grupos de dois nestas circunstâncias. Já houve oito mortos caramba! Isto de fazer grupos de dois fica para outra altura…

Não é por mal, mas se o meu grupo de 12 amigos se transformasse num grupo de oito cadáveres, eu não me armava em gringo. Juntava mas é todo o pessoal na mesma divisão da casa, de costas uns para os outros, à volta de uma mesa, e com as lanternas todas ligadas (pois, entretanto a luz avariou… Avisei que era um clássico). Nestas circunstâncias, será difícil o cameraman não apanhar o assassino...

Ah pois é… Queria aproveitar este momento para criticar quem está por trás da câmara, ou seja aqueles incompetentes, incapazes de filmar o homem por completo. É que, geralmente, só se vê uma mão a desligar a luz, uns pés a descer pelas escadas, uma sombra fugitiva… Se eu tivesse um cameraman desses num filme meu, seria logo despedido. Eu nem peço um zoom mas, pelo menos, uma vista de corpo inteiro.

É por causa de tudo isto que, nesse momento do filme, levanto-me e passo-me ao fresco. E gostava que toda a gente fizesse o mesmo.

Bem, não sei como acabou o maldito filme, mas imagino que os dois que estavam na cave foram assassinados de forma horrível, com ferramentas de jardinagem (pregos espetados nas mãos, nos joelhos, estrume enfiado pela garganta abaixo com minhocas a sair pela boca e pelas orelhas), e que os dois outros que estavam no sótão, por ouvir barulho, ou na cave, ou na garagem, decidiram fazer dois grupos de um, e morreram… Digo eu…

Agora, só nos resta esperar uns 40 anos para que outra cambada de adolescentes com vontade de fornicar um fim-de-semana inteiro se lembre de alugar aquele casarão e teremos então outra carnificina e o segundo volume da história. Porque nesses filmes há sempre uma parte 2, não percebo porquê.
Enfim por causa disso tudo, vou deixar de ver filmes de terror. Fui claro?

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