Correio do Minho

Braga, quarta-feira

'Volátil', por Maria Aida Araújo Duarte

‘Tu decides’ e o AE Maximinos move-se pela cidadania

Conta o Leitor

2012-07-16 às 06h00

Escritor

Volátil era um anjo todo branco, vestido de luz, de olhos de vidro feitos de um vitral. Trazia nos olhos transparências molhadas, da côr da nuvem, ao amanhecer.

De tanto olhar a Terra, o olhar de Volátil perdeu altura, ganhou um brilho celestial. Do Céu à Terra, o anjo arguto fez-se a caminho, deu luz aos homens, ganhou o Céu.

Na Terra, a chuva ficou mais densa, tapou a vista de um anjo assim! Os homens queriam, porém não viam a luz molhada do olhar do Céu. Traziam olhos todos vendados, não conheciam aves nem estrelas, nunca pisavam senão o chão. Só o dinheiro movia os homens, só mesmo a Terra lhes dava pão. Olhos vendados, seguiam lentos, era caminho aos tropeções. Alguém havia que os escutasse, alguém podia dar-lhes a mão? Estar preso à Terra era um destino, vendar os olhos, uma ilusão.

Então, o anjo pôs-se a caminho e fez-se nómada, sem Deus saber... De cima abaixo, o nosso anjo somava léguas, ficava exausto! - Que não podia ver lá de cima, que a Terra fria estava a chorar... - Nunca pecara, contudo os olhos haviam feito o anjo mudar! Deus tão perfeito, Deus, nosso Pai, bem poderia fechar os olhos à rebeldia de um anjo assim... Vida de anjo, é lá no Céu, porém Volátil desceu, subiu, ficou andante, sempre na mira de homens sofridos, de olhos vendados, alma à deriva. Não viam anjos, não enxergavam olhos divinos de um anjo bom! Faltava a luz, faltava a força, presos à vida, afeitos às trevas, à escuridão...

E o nosso anjo, de tão audaz, ergueu um plano sem Deus saber. Era um menino todo brejeiro, um pouco arisca, para ser do Céu... Voava longe, corria alegre e, na utopia, ele era um ás! Cogitou, cogitou, fechou as asas e adormeceu. Amanhecia e ele tranquilo, na paz dos anjos, na paz do Céu. Sonhava alto, quando uma estrelinha lhe deu nos olhos, com sua luz. E ele sonhava: homens e anjos bem poderiam trocar algures alguma ideia, cruzar caminhos e dar as mãos...

Volátil tinha um sonho antigo, feito de laços para unir as mãos. - Que Deus não queria, que homens e anjos em confusão, quebrava a ordem, traria o caos... Que a rebeldia de um simples anjo tinha remédio, era esperar...

Porém, o anjo pôs-se a caminho, foi anjo errante, foi caminheiro. Deixou alturas, desceu à Terra, voltou a casa buscar mais luz, trazer a PAZ. Quis ter na alma um lado de homem, quis dar ao homem um lado seu! Cumpria um sonho. Mudou de nome. Tornou-se PAZ.

Deus perdoou... E a luz que o anjo trouxe de casa clareou noites, vidas sombrias, brilhou na Terra, viu-se do Céu. E o anjo errante foi caminhando, foi vagueando, a dar aos homens um lado seu. Como era branco, feito de luz, Volátil temia o lado humano de alguns da Terra, homens sem fé. Temia o anjo, o anjo bom. Homens daqueles, menos chegados, rompiam vestes de anjos do Céu. Queimavam vidas, de olhos vendados, espalhavam sombra, ofuscavam a luz... Leve como era, de olhos molhados, corria riscos, um anjo assim!...

Chegou o vento. Soprou tão forte, que o nosso anjo, leve, no ar, ficou desfeito, com suas vestes feitas em trapos, de meter dó! Então o anjo, esfarrapadinho, ficou parado, lembrava os homens sem PAZ nem pão...

Nessa aventura tão inocente, a todos dava um pouco de si. Pouco mudavam, alguns humanos, contudo o sonho não tinha fim! Esmorecer, não era de anjo; asas divinas planam no Céu... Rasgar caminhos, seguir a estrela, dá força aos anjos, clareia a vida... Volátil queria trazer para a Terra luzes de estrelas para a aquecer. A Terra, fria, toda molhada, perdera o norte, perdera a fé!

Então, o anjo teve uma luz, teve um clarão tão repentino, que até tremeu... Na Terra, um homem, ao ver o anjo, um homem novo, cara-de-pau, rosto fechado, medonho e austero, com voz segura, dissera assim:
— Anjo inocente, vai-te a voar! Voa depressa, foge para o Céu! A Terra é nossa, queremo-la assim!... Segue o teu rumo, anjo de Deus!

Do outro lado, vinda de cima, alguém mais doce, a sussurrar, ia dizendo, muito baixinho:
— Anjo divino, ergue a utopia, remexe a Terra, agita os homens! Fecha essas asas, ouve o teu sonho! E não desistas de ti!.

E a voz calou-se. Ecoou longe e fez-se ouvir. O anjo errante não deu ouvidos à voz do homem, dono da Terra. Estremeceu, só de o ouvir, voz de trovão, alma danada. Então Volátil levantou voo, sempre no encalce da voz do Céu. passara o susto, do encontro humano. Chegou cansado de dar à asa, mas un sorriso se abriu no rosto, serenidade, nunca faltou.

E o que vira? - Nossa Senhora, de azul vestida, manto de seda, cheio de estrelas, rosto macio, imaculado, sem uma marca, toda pureza. Num gesto doce feito ternura, num gesto lindo como de mãe, quis dar ao anjo força de vida. Falou-lhe, doce, para o guiar. O anjo arisca tinha de ouvido aquela voz que ele conhecia... Quis ficar certo, então seguira o rasto dele, , só para ver de quem viria uma voz doce a saber a Céu.

Palavras ditas, foi-se o momento. Sumiu-se a imagem, calou-se a voz. Nossa Senhora arrastou o manto, foi caminhando já combalida. Era a incerteza de ver o Filho em boas mãos. E foi pedindo muito baixinho, mas sempre agindo com as próprias mãos. Ergueu-as, firme, suplicou luz. Depois olhos para baixo, a Terra. Passou as mãos na nuvem branca e então benzeu-a, benzeu a Terra.

Não a queria como os humanos: tristes e sós. O seu menino seria Homem, teria frio na Terra assim. Ó Mãe bendita, como pudeste pensar no teu e nos outros também? Deus feito homem, era algo assustador, mas urgente. E a mãe sabia. Sabia tudo. Atá da sorte de haver um anjo, um caminheiro, amigo, irmão. Rosto divino iluminou-se. Era de fé.

Daí a dias, já nasceria o Deus-Menino, igual aos homens. Nossa Senhora muito temia pelo seu filho, em Terra fria, molhada e triste! Se acaso o anjo lhe desse ouvidos, tudo seria mais de feição... Talvez os homens viessem leves, de alma lavada, a abençoar o Deus-Menino, feito Jesus. Lembrou-se então do nosso anjo. Volátil tinha um sonho antigo. Cumpri-lo-ia, ou talvez não?

Nossa Senhora, Virgem Maria, acreditava num anjo bom. Um anjo errante, tão caminheiro, teria algures mudado a Terra? Humanizá-la ou destruí-la, seriam planos a pôr de pé... Ninguém sabia que o anjo, um dia, tivera sorte, fizera a PAZ! A Terra inteira acordaria, só em Dezembro, para aquecer. Homens com alma receberiam da mão do anjo, alguma luz. Sem ela, os tristes não chegariam leves, olhos sem sem venda, ver o Menino.

Por fim, Volátil levantou asas , fez-se a caminho para Belém.

E, transparente, feito de luz, guiou as almas, fez-se de estrela, viu o Menino. E na lapinha, lá de Belém, mudou de nome e fez-se humano. Chamou-se PAZ.

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