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Viver sem e-mail: um imperativo existencial?

A tempestade perfeita!

Viver sem e-mail: um imperativo existencial?

Escreve quem sabe

2021-10-16 às 06h00

João Ribeiro Mendes João Ribeiro Mendes

O primeiro e-mail foi enviado no dia 29 de outubro de 1969 por Leonard Kleinrock, investigador da Universidade da Califórnia. Reza a lenda que o sistema informático de que se serviu para o fazer foi abaixo quando ia a meio da mensagem que estava a escrever e só chegou ao seu colega Douglas Engelbart “LO”, os dois caracteres de “LOGIN”.
Apenas no final de 1971, porém, é que o engenheiro informático Ray Tomlinson enviou a primeira mensagem de e-mail através de uma rede, usando o conhecido sinal “@” para separar os nomes do utilizador e da máquina. Por curiosidade, o caracol, para os italianos, o macaco, para os holandeses, a arroba, para nós, foi usada pela primeira vez em 1345 por um tal Constantinos Manasses, cronista do Império Bizantino, num texto em grego, onde aparece a substituir o “?” (alfa) inicial da palavra “ámen”. A mensagem enviada por Tomlinson há 50 anos dizia: “Enviei uma série de mensagens de teste para mim mesmo de uma máquina para outra”.

Atualmente calcula-se que cerca de 3,5 mil milhões de pessoas têm uma conta de e-mail, metade, portanto, da população do planeta. Porém, como acontece com outras ferramentas tecnológicas, esse utilitário está a perder o seu caráter de utilidade e a tornar-se monstruoso, cumprindo o que parece ser uma espécie de lei de evolução teratológica da tecnologia. Para um número cada vez maior de pessoas a balança de vantagens e desvantagens do seu uso começa a pender para o negativo. Entre os problemas mais conhecidos encontram-se os do “spam” – que humoristicamente alguns consideram ser um acrónimo de “stupid pointless annoying messages (mensagens estúpidas, sem propósito e irritantes), do “phishing”, uma técnica fraudulenta de aquisição ilícita de dados pessoais, e do espiolhar furtivo das caixas de correio de funcionários pelos seus empregadores.

Interessa-me aqui, todavia, a questão da perda de tempo. Como tantas outras pessoas, cada vez gasto mais tempo diário a ler, triar, responder a e enviar e-mails. A abertura matinal do e-mail está a tornar-se penosa, porque me faz enfrentar uma boa centena de mensagens ou mais. A maioria delas é “lixo”. Por vezes, recebo patéticos e-mails a alertarem-me para o facto de não ter respondido ao e-mail anterior enviado, imagine-se, uns 10 minutos antes. Abreviando o assunto, o uso desta ferramenta está a tornar-se insuportável, mais não seja porque afeta a nossa produtividade.

O agravamento da situação fez-me pensar se seria possível simplesmente desistir do seu uso. Depressa ouvi que já não podemos hoje viver sem ele. Alguns, porém, mostram-me que talvez possamos. O romancista britânico Jon McGregor, por exemplo, fez a experiência de desligar o seu e-mail durante um ano inteiro (entre 2012 e 2013). Na peça que escreveu sobre a mesma no The Guardian (4.10.2013) afirma que não somente a sua vida pessoal e profissional não acabou por causa dessa sua decisão, como até melhorou significativamente com a criação de tempo disponível para as coisas que realmente dão sentido à existência. Um segundo exemplo encontrei-o em Cal Newport cuja obra mais recente, Um mundo sem e-mail, acabou de ser traduzida para o nosso idioma. Este professor estadunidense de ciências informáticas parece ser claramente uma pessoa muito ocupada, de modo que se ele recomenda que deixarmos de usar o e-mail nos dá a oportunidade de readquirirmos tranquilidade, criatividade e genuína sociabilidade perdidas, sinto-me tentado a acreditar. Como espirituosamente sugeriu, se precisarem contactá-lo, enviem-lhe uma carta ou batam à porta do seu gabinete.

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