Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Vitela assada é marca identitária de Fafe

Por mais cultura do treino e treino baseado na ciência

Ideias

2014-10-19 às 06h00

Artur Coimbra

1 O fim-de-semana passado levou ao conhecimento do país o ícone maior da gastronomia fafense, no âmbito da realização do I Festival da Vitela Assada à Moda de Fafe, um projecto com vários anos, que finalmente viu a luz da concretização.
Trata-se de uma iniciativa do município presidido por Raul Cunha, o qual tem surpreendido positivamente, pela sua postura singular, pela capacidade de diálogo, pelas novidades que tem introduzido na forma de gerir a máquina autárquica, pela valorização do que Fafe de melhor possui e por realizações que hão-de colocar a cidade na rota dos grandes eventos nacionais.
Uma das propostas inovadoras que o autarca quis implementar foi exactamente o festival dedicado à vitela assada e que se saldou por um êxito estrondoso, que superou a mais optimista das perspectivas, dadas as naturais reticências que este tipo de iniciativas suscita quando se realiza pela primeira vez.
De sexta-feira à noite a domingo à tarde, foram servidas 8 mil refeições e vendidos 2500 kg de carne de vitela, além de outros produtos locais, como doces, vinhos, fumeiro e artesanato.
A presença da televisão, na tarde de sábado, com o programa “Aqui Portugal”, da RTP, também ajudou à promoção e ao sucesso de um evento, que intenta conseguir a certificação do conhecido prato tradicional fafense.

2 Sobre a iguaria que identifica este município e que ninguém consegue encontrar, com esta textura, este aroma, estes acompanhamentos, estes segredos, em mais lado nenhum, gostaria de deixar algumas palavras, para informação dos leitores.
A vitela assada projectou a gastronomia fafense, desde pelo menos o século XIX. É a coroa de glória dos comeres locais. Há outros pratos, naturalmente, mas o mais típico e apreciado é, sem dúvida, a “vitela assada à moda de Fafe”, em defesa e promoção da qual foi criada uma confraria gastronómica em 2013, da qual me honro de fazer parte.
Na verdade, o concelho de Fafe, além das afamadas bandas de música, da Senhora de Antime e da polémica «Justiça», é conhecido a nível nacional pela saborosa vitela.
No último quartel do séc. XIX, escrevia José Augusto Vieira que «é afamada a vitella de Fafe», notando-se que neste local «é grande relativamente aos outros concelhos, a matança de vitellas, e que até se exportam, pela fama que têm, por outras localidades». O autor de O Minho Pittoresco enaltece, por mais do que uma vez, num texto com quase 130 anos, a «deliciosa vitella, que torna Fafe uma celebridade entre os amadores da carne tenra e branca».
Outros autores, nacionais e locais, no último século, glosaram o tema, em textos em poesia ou em prosa.
Um deles foi um prestigiado fafense, Thomaz D’Alvim (1886-1965), que fez a sua carreira diplomática e de advocacia em Santos, no Brasil, sendo um dos “brasileiros” mais influentes do concelho.
Num soneto de saudade sobre a sua terra natal, escrito em 1924, aquele autor escrevia:

Fafe, meu lindo berço de saudade,
Operosa colmeia com abelhas.
Torrão do Minho, cheio de uberdade,
Ó Monte-Sinai das “Tábuas Vermelhas”!

(…)

O pão-de-ló, vinho verde e vitela,
Na farta mesa desta cidadela
São notas coloridas da paisagem!...

Os melhores restaurantes da cidade servem o apetitoso manjar, assado em forno de lenha, lentamente e servido em nacos, acompanhado de batata e grelos e regado com o famoso vinho verde da região.
É o prato típico das Feiras Francas de Maio e das quartas-feiras, dia de feira semanal.
A famosa vitela de Fafe provém de vitelas aleitadas, para consumo dos restaurantes e casas de pasto, com idades até aos 9 meses e peso entre 70 e 80 kg.
Ao longo do século passado, existiram em Fafe diversas casas da especialidade mas de todas sobressaía a “Pensão Zé da Menina”, na Avenida 5 de Outubro, “rainha da vitela assada à moda de Fafe” e autêntica lenda viva na história da gastronomia fafense, tendo recebido vários prémios nacionais e internacionais. Durante décadas aproveitou a sua proximidade da estação dos caminhos-de-ferro para servir o prato icónico da gastronomia fafense.
Por esta “catedral da gastronomia fafense” passaram, provando a melhor vitela de Fafe, individualidades ilustres do mundo do espectáculo, da cultura e da política, como as cantoras Tonicha, Hermínia Silva e Simone de Oliveira, o professor Freitas do Amaral, o general Soares Carneiro, a ministra Elisa Ferreira, entre muitas outras pessoas, sobretudo numa altura em que o comboio parava mesmo ao lado do restaurante. Em 2010, a “Pensão Zé da Menina” recebeu a Medalha de Prata de Mérito Concelhio atribuída pela autarquia fafense.
A designação oficial da lendária casa foi, durante toda a vida, “Pensão Vista Alegre” e se deve ao facto de os primeiros proprietários venderem louça daquela marca.
O comboio deixou de chegar nos anos 80 e a casa acabaria por fechar já este século.
Outros restaurantes, obviamente, continuam a boa tradição da melhor gastronomia local.

3 Já agora, de evidenciar que o pão-de-ló é outra das «especialidades» gastronómicas do concelho, também já mencionada por José Augusto Vieira, em 1886. Em S. Romão de Arões e Fornelos reivindica-se a confecção do mais delicioso pão-de-ló, doces e biscoitos regionais, cuja fama ainda hoje se estende pelo país, havendo muitos apreciadores que se deslocam propositadamente a Fafe para o adquirir.
É de realçar ainda a saborosa fruta da região com que se completa o «bouquet» da gastronomia fafense.
Outros pratos e outros sabores também por aqui se confeccionam mas sem a «especialidade» da tradição fafense.

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