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Vida para além da crise

O futuro depois do COVID 19

Escreve quem sabe

2012-11-16 às 06h00

Rui Marques Rui Marques

Neste momento assistimos ao definhamento progressivo da economia do nosso país.
Todos os dias somos bombardeados com notícias negativas que fazem com que a maioria dos portugueses, e em especial os empresários, percam o ânimo naquilo que fazem, percam a esperança num amanhã mais próspero; resignando-se a uma espiral recessiva que vai fustigando diferentes sectores de actividade económica e eliminando milhares de empresas e de postos de trabalho.

São notícias sobre austeridade, défice, crise, impostos, retracção do consumo, quebra de vendas, despedimentos, insolvências, falências, desemprego, que geram um estado de depressão colectiva, que faz com que simplesmente deixemos de acreditar.

Entre outras funções, as Grandes Opções do Plano e o Orçamento de Estado servem, ou melhor, deveriam servir, para definir políticas financeiras, económicas e sociais de fomento do desenvolvimento económico, de criação de emprego e de promoção do equilíbrio das contas públicas. Dizem-nos que sob o programa de assistência internacional que Portugal está sujeito, este Governo, e provavelmente qualquer outro que lhe possa suceder, não tem margem de manobra para prosseguir uma política económica e fiscal forte, de estímulo à actividade económica, ao investimento e à criação de emprego.

Nas empresas, julgo que é chegado o momento de dizer “basta”. Há vida para além do orçamento ou da crise. Foquemo-nos no nosso negócio.
Se é que se pode falar em benefícios que a crise tenha causado, a importância e atenção que os empresários hoje dedicam à gestão e controlo rigoroso dos seus custos é provavelmente um dos ganhos que, com certeza, no futuro vai tornar as empresas muito mais rentáveis e eficientes. Hoje, a racionalidade económica sobrepõe-se a qualquer outra motivação na hora do empresário tomar decisões.

Muitos empresários estavam habituados a uma gestão mais folgada da sua tesouraria e não prestavam, num passado recente, uma atenção minuciosa à componente custos do seu negócio. Era o advento do crescimento das vendas. A prioridade era aumentar o volume de negócios e as estratégias de gestão apontavam quase sempre para um plano de acção que visasse o aumento da facturação. Agora, com a retracção do consumo, o foco de atenção estendeu-se também à diminuição dos custos.

Na realidade, em muitos casos não se prestava a atenção que era necessária aos chamados custos fixos - aqueles que as empresas incorrem de forma periódica e independente do nível de actividade económica. No contexto actual, as empresas não se podem dar a esse luxo. E a verdade é que o benefício de afinarmos os custos de funcionamento das organizações vai perdurar no tempo e propiciar uma rentabilidade muito maior às vendas futuras.

Os exemplos de poupança são diversos. Chamo especial atenção para aqueles que se podem obter nos fornecedores/serviços onde a concorrência é mais aguerrida. Os seguros, tarifas de multibanco, comunicações fixas e móveis, são áreas em que uma negociação bem sucedida pode resultar em poupanças da ordem dos 50%.

Mas, poderá ir para além desta renegociação de preços, a correcção de pequenos gestos e procedimentos no dia-a-dia das organizações no consumo de electricidade, água, combustíveis ou nos consumíveis de escritório, podem igualmente gerar poupanças assinaláveis.
Renegociar é a palavra de ordem. Rever os contratos de financiamento junto das instituições financeiras será com certeza uma missão que poderá gerar uma diminuição de custos, caso se consiga baixar o preço dos contratos, mas, sobretudo, que poderá gerar uma maior capacidade de tesouraria, na medida em que se adeque o serviço de dívida às reais possibilidades da empresa. Racionalizar o pro-cesso de compras no sentido de optimizar a gestão de stocks é também prioritário.

As alterações ao código do trabalho flexibilizam também algumas áreas fundamentais com os custos com pessoal, nomeadamente ao nível da compensação dos trabalhadores pelas horas extraordinárias trabalhadas.
Por outro lado, é fundamental estarmos atentos às oportunidades que vão surgindo. A mais óbvia será a saída de cena de alguns operadores que deixam ao mercado a disputa pela conquista dos clientes da empresa que desaparece. A conquista destes clientes tem de ser encarada de forma pró-activa.

Para além disso, é crucial, pararmos para pensarmos o negócio. A falta de tempo é utilizada sempre como desculpa para os empresários não reflectirem sobre o seu negócio. De facto, o tempo é o recurso mais escasso da nossa sociedade. Ao contrário do dinheiro, tempo ninguém nos pode emprestar. Bem sei, que nas micro e pequenas empresas o empresário tem ao seu encargo as compras, as vendas, as relações com fornecedores, bancos, estado e clientes, mas precisa de assumir um papel que ninguém poderá fazer por ele - o papel de gestor, pensando estrategicamente o seu negócio. Todos os empresários deveriam parar para pensar sobre o seu negócio pelo menos uma hora por dia.

Este momento é fundamental para pensarmos a fundo o nosso negócio: o conceito, o posicionamento, a política de preços, o sortido de produtos/serviços, os fornecedores com que trabalhamos, a localização, e após uma análise profunda introduzir as alterações necessárias para revigorar a sua empresa.

Apelo aos empresários para que não caiam na tentação de baixarem de forma muito significativa os seus preços de forma a gerar movimento nas suas lojas. É verdade que temos de ser mais agressivos na política de preço e promoções porque o mercado interno está muito sensível à questão do preço. Mas o que se tem verificado em muitos casos é que os empresários baixam preços para valores insustentáveis.

É verdade que é desesperante fechar o caixa com o mesmo valor com que se abriu, e isto acontece a muitas empresas, muitos dias por mês, um pouco por todo o país. E os empresários naturalmente gostam de ver movimento nas suas lojas, gostam de agradar ao cliente, gostam de o servir. Mas cair no erro de fazer promoções diria eu quase escandalosas, que criam obviamente boas oportunidades para os consumidores, mas que desvirtuam o mercado e criam uma concorrência que não é sadia, no limite pode levar à falência do próprio sector.

Tenho assistido a algumas guerras de preços que sinceramente não percebo e que considero que não valem a pena, está-se a desvalorizar o trabalho feito pelas empresas, a desvalorizar o serviço e a qualidade do produto. Acredito que em muitos casos, as empresas sem se aperceberem disso estarão a vender com margens negativas, porque não monitorizam e mapeiam todos os seus custos.
É fundamental que as empresas tenham capacidade de resistência, porque no final desta caminhada, as empresas vão estar muito mais bem preparadas para serem bem sucedidas e serem vencedoras.

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