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Braga, quinta-feira

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Vice-versa

Eu, Fausto.

Vice-versa

Ideias

2019-05-26 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

Estivemos em campanha eleitoral, estação em que os candidatos mostram o pior, segundo o que julgam os oponentes. Um remoque do Costa – candidato in absentia – me desperta interesse: o do «engraçadismo» das frases do Rangel.
Ser «engraçado» é como ser «fotogénico». O engraçado larga umas larachas, mas não presta para governar ou representar-nos em parte alguma, tanto como o «fotogénico» escapa, por assim dizer, sob o ângulo certo e a luz apropriada, podendo ser feiinho de todo.
O remoque do Costa ao próprio se aplica, em teoria. Vale para todos, bem vistas as coisas – ele há lá político que singre sem o rastilho da frase bombástica!
Viso mais alto que a farpa do Costa ao Rangel. A realidade não cabe numa frase de belo efeito, de onde quer que provenha. E podemos interrogar-nos se, ao invés, uma tirada particularmente engenhosa não cumpre objectivo pernicioso, servindo para mascarar um mostrengo, para protelar o imobilismo, para induzir em erro.
Ouvimos e repetimos citações, aderimos e ampliamos análises do momento, escolhemos uma elite, um grupo, e vamos no rancho, gritando «hurras» e «abaixos». Que uns são o amparo e consolo da Europa, diz-se, e que outros a querem deitar a perder.
Fere-me, a fast food da ideologia transitória, o prête-à-porter da ética andadeira. Que sei eu? Que nos enterramos no chão que pisamos, sucumbindo ao nosso peso? Se um inimigo mina sob os nossos pés, não deveríamos nós ter consolidado o terreno, mantido sob vigilância o que nos é caro?
Perdi-me, já não sei o que é a Europa. Será a anciã donairosa, mas caquéctica, ou a bebé apressada, padecente da precocidade de quem corre, antes de conseguir andar, antes de ser capaz de caracolear, travando com o tempo necessário, poupando o nariz a dores e sangramentos?
Não sofrerá a Europa de indigestão, pelo que comeu e aspira a comer, entroncando no distúrbio alimentar, de quem engole e logo mais vomita? Perdoem-me a imagem. Como poderíamos querer uma Europa de unanimidades, de unanimismos, quando tando nos separa, ainda.
Será possível uma Europa à chinesa, ou à americana, isto é, centralizada, monolítica, ousada nas metas e consequente nas acções? Tão custosos os consensos! A menos que, como se augura, outra entidade não aspire a ser, que um caldo de nações e cidadãos, um preparado em que o bem-estar de um luxemburguês, por exemplo, não entre pelos jejuns de um português, e tantos eles são de cá partidos.
Trocadilhos lindos, e aquele do Kennedy, o que arenga em torno do que fazemos nós pela Nação, quando reclamamos e nos indignamos pelo quanto ela não faz por nós? Por aplicação à eurolândia: o que posso eu fazer pela Europa? Isso é que era bom! E o que pretende a Europa fazer por mim? Eles, os do alto, que se ponham de acordo quanto à forma de bem nos tratar, e nenhum atoleimado se lembrará de fortalecer extremistas.
Sou eurocongruente, com adversativas e caderno de encargos. Acomodo a moeda única, a circulação de pessoas, bens e capitais, mais uma política de estrangeiros e fronteiras comum, um orçamento partilhado, uma arquitectura de taxas e impostos, um proclamado exército… No fundo, aceito tudo o que torne obsoletos os governos nacionais, e que seja carne da peça para todos, não chicha para engravatados, e ossos para a maralha: ou assim não vale?
Talvez respondam que tudo virá a seu bom tempo. Nesse caso, que os custos emparceirem com as vantagens, mas de modo transversal. Quanto a filigranas verbais, que ponham a circular umas quantas que favoreçam os da base. É que, aos do topo da pirâmide, já pesam as farturas.

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