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Vestir a máscara de estudante... Sabe bem!

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Vestir a máscara de estudante... Sabe bem!

Voz às Escolas

2021-04-21 às 06h00

Flora Monteiro Flora Monteiro

“Desejo que todos estejam serenos com o vosso regresso ao ensino presencial!” Estas foram as minhas palavras há cerca de um ano atrás, convicta de que seria a única vez que as escreveria. Ao fim de quase um ano tive que me repetir, mas com o desejo e a esperança de que seja, efetivamente, o nosso último confinamento. Há muitos sinais de esperança como a testagem e a vacinação. Queremos acreditar que brevemente deixaremos esta anormalidade.
Dia 19 de abril de 2021, abriram-se as últimas salas de aula que ainda aguardavam ansiosas a presença dos seus habitantes. No mês passado regressaram os nossos mais pequeninos do pré-escolar e do 1º ciclo, seguidos dos adolescentes do 2º e 3º ciclos. Agora, todos os portões, todas as salas, todos os espaços estão prontos e habitados - todos os ciclos estão cá, todos nos sentimos mais completos.
Os espaços de aula renovaram-se, os professores reinventaram-se! Os professores chegaram também com os seus legítimos receios, com inseguranças, mas com as certezas de quem gosta de preparar e lecionar num espaço de proximidade, mais humanizado, mais aconchegante, de falar e sorrir sem obstáculos físicos na comunicação.
Os nossos assistentes, em todas as frentes, em todos os locais, em todos os setores… responderam também um redondo sim! Ansiosos, como me diziam, por ver os nossos alunos.
Este terceiro período presencial é fundamental para a consolidação, recuperação e aquisição de aprendizagens. É preciso assumir o papel de estudante de forma assertiva. Pedimos a todos os alunos que se dediquem, se apliquem, que sejam empenhados e positivos na construção da aprendizagem. É fundamental que trabalhem muito e com motivação. Todos os anos de escolaridade são muito importantes para a construção das vidas futuras. Há muito para recuperar que naturalmente não cabe neste terceiro período. Mas, em cada dia de escola/aulas, o desempenho e o esforço são cruciais para que não se perca mais. Como tenho dito a todos, não nos vamos acomodar. Vamos aprender mais e melhor. É necessário vestir esta máscara, este papel de estudante e sê-lo na essência.
Vestir a máscara de estudante é sempre um desafio que nos enriquece e nos motiva para um melhor desempenho das nossas tarefas e da concretização das nossas missões.
Esta é a mensagem que temos que passar para os nossos alunos. Todos aprendemos, todos temos o dever e o direito de procurar aprender mais e melhor. Tenho tentado passar-lhes o meu testemunho.
Embora as funções de gestão escolar tenham passado a representar um papel importante na minha profissão e na minha vida, sempre procurei acompanhar reflexões e ler os autores que pensam sobre Educação pois sei que estes estudos nos proporcionam uma maior preparação, do ponto de vista técnico, reflexivo e pedagógico, para o desempenho de cargos de gestão e administração de uma escola. A “labuta” diária de um órgão de gestão nem sempre deixa espaço para algo que considero essencial que é a grande tarefa de estudar a Escola, de ler e debater os assuntos da Educação.
Assim, considero estes momentos fundamentais para manter o equilíbrio entre as práticas quotidianas e as práticas reflexivas que tanto nos ajudam. São momentos únicos, de grande enriquecimento profissional, embora reconheça que, no dia seguinte (às vezes na própria noite), eles são ultrapassados pelos problemas diários que enfrentamos nas escolas e até passem para um segundo plano. No entanto, sinto que ficam sempre muitos e valiosos ensinamentos, sobretudo de alguns dos grandes pensadores da Educação descomprometidos das agendas políticas.
Recentemente, estava eu a fazer a minha inscrição numa formação que me interessava, quando tive de receber alguns alunos do ensino secundário para me colocarem questões sobre as suas inquietações e futuros percursos de vida. Pedi-lhes uns minutos para terminar a tarefa e fui explicando o que estava a fazer. De imediato questionaram: - Mas a professora ainda precisa de aprender? Ainda tem vontade de ser estudante? Sorri e expliquei-lhes que era um dos meus papéis preferidos! Mostrei como é bom aprender para ser melhor, como se torna fundamental na nossa vida, sermos eternos estudantes. Referi a importância que toda a aprendizagem terá no desempenho das suas profissões, mesmo após os cursos, as pós-graduações, mestrados, ou qualquer outra especialidade que poderão ter. E neste momento a aprendizagem é urgente e prioritária no presente.
É acreditando que as escolas poderão fazer a diferença, perante a complexidade social em que vivemos, com as suas diversas crises, desde a económica à crise de valores, que se parte para a vontade de conhecer mais, de partilhar opiniões e práticas. A Escola é construída com diversos atores: alunos, docentes, assistentes técnicos e operacionais, pais e encarregados de educação e comunidade, que nela deixam refletir as suas vivências. Assume também o mandato de suporte à família, de estabilizador emocional para os seus alunos. Portanto, os contextos de aprendizagem são cada vez mais vastos e abrangentes.
O contributo de cada um de nós é feito da nossa individualidade e do mundo que vamos absorvendo e construindo. Se não nos atualizarmos, não poderemos construir e ajudar a preparar a escola do futuro e os homens e mulheres do amanhã! Cliché? Nunca! A pretensão de que tudo se sabe e de que a aprendizagem é só para alguns, é um conceito obsoleto e que mantêm tudo nos lugares de conforto, que pouco ou nenhum sucesso produzem. A convicção ainda mais negativa de que o que aprendemos não nos serve de nada tem que ser desmontada nas crenças de alguns alunos.
É obrigatório parar a rotina e o preconceito de que “já sabemos tudo” para não liderarmos de modo acrítico e pouco consistente. A escola precisa do contributo dos pensadores da Educação e cada um de nós tem essa obrigação de aprender e refletir.
A acrescentar e esses nomes de referência, é vital a aprendizagem diária que fazemos com todos os colegas, com os alunos, com os pais, com os assistentes, com a comunidade.
Deixemos cair a máscara de quem tudo sabe, para nos tornarmos estudantes/aprendizes, sempre!
Para sermos melhores, adotar a máxima socrática “só sei que nada sei...” poderá ser um bom princípio.

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