Correio do Minho

Braga, terça-feira

Verbos defetivos

Cidadania de circunstância

Escreve quem sabe

2019-06-16 às 06h00

Cristina Fontes

Numa crónica intitulada “Esperança gramatical”, publicada na revista Visão, em 2012, Ricardo Araújo Pereira diz-nos o seguinte: “O facto de o verbo falir ser defectivo faz com que, no presente, nenhum português possa falir. Não é possível falir, presentemente, em Portugal. "Eu falo" é uma declaração ilegítima. Podemos aventar a hipótese de vir a falir, porque "eu falirei" é uma forma aceitável do verbo falir. E quem já tiver falido não tem salvação, porque também é perfeitamente legítimo afirmar: "eu fali". Mas ninguém pode dizer que, neste momento, "fale".”
Os verbos defetivos são verbos que apresentam uma conjugação incompleta, porque não se usam em todos os tempos ou em todas as pessoas.

Há ainda a considerar algumas particularidades nestes verbos. Os verbos defetivos pessoais usam-se apenas em alguns tempos e pessoas, por serem de desagradável pronúncia. Só se empregam as formas em que subsiste o (i) final do tema nos verbos defetivos (ex.: colorir - pintar com cores qualquer objeto; extorquir - obter de alguém qualquer coisa pela força; falir - deixar de pagar por não ter com quê; florir - florescer, estar em flor; retorquir – responder.
Nenhum destes verbos tem as formas do presente do conjuntivo. As outras formas do presente do indicativo são as seguintes: colorimos, coloris; extorquimos, extorquis; falimos, falis; florimos, floris; retorquimos, retorquis.
Os verbos defetivos unipessoais exigem um sujeito específico e, portanto, são utilizados apenas na 3.ª pessoa do singular e do plural. Regra geral, estes verbos exprimem vozes de animais (ex.: o cão ladra, o cavalo relincha, as rãs coaxam).

Obviamente, podem ser conjugados noutras pessoas num sentido figurado ou literário (ex.: Chilreio no teu ouvido palavras doces. – verbo chilrear)
Há, ainda, verbos defetivos impessoais que apresentam um sujeito nulo expletivo, pelo que apenas se conjugam na 3. ª pessoa do singular, salvo quando usados em sentido figurado (ex.: amanheço nos teu braços.).
Regra geral, estes verbos exprimem fenómenos atmosféricos: amanhecer (ex.: amanheceu às 6 h), chover (ex.: choveu muito esta noite), nevar (ex.: neva no inverno), trovejar (ex.: trovejou ontem?).
O verbo “haver” quando significa existir também é impessoal (ex.: havia muitos problemas no país). É erro dizer e escrever: *haviam muitos problemas no país. / *houveram muitos problemas no país.
Boa semana.

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