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Verão sem inocência

Nós e os outros… ainda mais!

Ideias

2010-09-02 às 06h00

Isabel Estrada Carvalhais Isabel Estrada Carvalhais

Há muito que nos habituamos à ideia de que o mês de Agosto não é um mês para se levar a sério. Mês de Verão, mês de férias, mês querido. Mês enfim em que sendo todo o disparate político permitido, o melhor é sempre nada fazer já que até actos sérios correm o risco de se colarem à espécie de idade da parvalheira urbano-burguesa que desperta nessa época e que justifica porque é ela a ‘silly season’.

Eu costuma achar engraçado que a transição desta época marcada por uma expressão anglo-saxónica, ficasse a cargo de um termo francês, a rentrée, quase sempre também ela aplicada à vida politica da nação. Talvez fosse da língua francesa, mas o certo é que havia um quê de elegância e sobriedade associado à palavra de tal forma que eu tinha para mim como inconcebível que qualquer tontice pudesse entrar no espaço arejado e sereno da sua significação.

Mas isso era o que eu pensava quando era miúda… há muitos anos portanto. Talvez seja a tradição, que já não é o que era, ou talvez sejam os meus olhos que já não se conseguem refugiar na segurança desta compartimentação semântica. A verdade é que cada vez mais ocorrem factos graves na sua dimensão política e social em sentido mais lato, durante a silly season, ao passo que as tradicionais rentrées partidárias, por exemplo, perdem brilho e o fulgor de outros tempos, com a mesma velocidade com que parecem ter-se perdido ideias e carismas.

Destaco aqui, e quem me conhece sabe que de modo algum poderia deixar de o não fazer, as deportações dos ciganos búlgaros e romenos que ocorrem neste momento em França sob a chancela de Nicolas Sarkozy. O que é que isso tem a ver com o tema deste artigo? E o que é isso tem a ver com a sociedade portuguesa? Em resposta à primeira questão, eu diria que à primeira vista, para algum cidadão menos atento, o caso parece ser mesmo típico de uma farta silly season, plena de tolices políticas hilariantes. De facto parece algo para não ser levado a sério!

Que disparate? Quem se lembraria de um populismo tosco destes em pleno século XXI de uma Europa que enche a bica a dizer que é multicultural e que aí reside a sua maior força?
Mas o facto é que as deportações são reais, não havendo nada de menos silly do que a estigmatização e a hostilização declarada de uma minoria étnica, convertendo-a em bode expiatório de todos os males sociais, desde o crime ao desemprego. E tudo isto às claras, no seio de uma sociedade democrática e perante o olhar mais ou menos apreensivo, mais ou menos calado, mais ou menos atordoado, mas nem por isso de repúdio enérgico, do espaço europeu.

Nesta fase do texto quem achar que ainda é devida resposta à segunda pergunta, então é porque ou está ainda em plena silly season e não enxerga o óbvio, ou então, as suas agendas de valores talvez estejam necessitadas de alguma reflexão.

A verdade é que enquanto cidadãos de sociedades democráticas marcadas por uma crescente diversidade cultural, não podemos achar normal o que está a ocorrer em França, nem o que tem ocorrido em Itália; do mesmo modo é um erro pensar que se tratam de actos isolados apenas imputáveis aos respectivos governos excessivamente personalizados e que não terão seguimento em outros países europeus. E será com certeza também um erro pensar-se que tais comportamentos políticos enquanto actos isolados não podem ser lidos sob a mesma cartilha de erros do passado que mergulharam a Europa no abismo de ódios misantrópicos. O pior que podemos fazer é banalizar, achar que nada disto é assim tão importante, que nada disto nos afecta. Banalizar e calar não é assim tão diferente de consentir e legitimar.

A verdade também é que muito boa gente dentro e fora da sociedade francesa até acha bem que se reencaminhem estas gentes para as suas terras de origem (mesmo que ninguém saiba ao certo como será feita a sua integração nesses países …). e de facto, parece de repente que condenar as deportações é discurso dos ‘maus’, ou seja, de uma esquerda intelectual conspirativa que passa a vida a atentar contra os interesses da segurança europeia e que na realidade não tem alternativas práticas exequíveis para se resolver ‘o problema’. Da mesma forma, entender a necessidade das deportações passa a ser o discurso dos ‘bons’, ou seja, dos que já são suficientemente adultos para saber o que é e não é sensato que se faça numa sociedade.

Não cabe aqui hoje olharmos para o modo como esta acção de Sarkozy se enquadra afinal nos objectivos da União Europeia de ‘recondução de irregulares’ e de auxílio a repatriamentos financiados e mais ou menos voluntários. Do mesmo modo não tenho hoje espaço para falarmos das agendas negociais que obviamente estão a permitir que países como a Bulgária e a Roménia recebam os ciganos deportados de França.

Por agora sublinho apenas que é fácil cair em uma de três tentações: a de olhar para a deportação dos ciganos como um assunto de ordem interna francesa que não nos diz respeito; a de olhá-la como um facto político de segunda linha empolado pelos media e por uma esquerda europeia contrária à lógica de salvaguarda dos interesses dos Estados; a de olhá-la como acto político que visa libertar a sociedade francesa do fardo de gentes habituadas a subsídios estatais e à pequena criminalidade, que colocam em causa a segurança nacional e europeia. E porque é fácil cair numa destas 3 tentações? Porque, como a história bem nos ensina se a conhecermos e respeitarmos, é sempre mais fácil justificar o preconceito que sustenta o estereótipo, do que desmontá-lo, até porque ao primeiro basta o silêncio, ao passo que o segundo não ocorre sem acção.

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