Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Verão em Braga - O de 1975 foi muito quente

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Ideias

2015-09-13 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes

Um dos períodos de maior agitação e tensão social que atingiu o nosso país viveu-se exatamente há 40 anos, no célebre “Verão Quente” de 1975.
Esse período ficou marcado por episódios de grande violência, nomeadamente a ocupação de terras no Alentejo, manifestações e revoltas nas empresas, ocupação de casas, assaltos vários, ocupação da Rádio Renascença, manifestações religiosas e políticas e atentados bombistas a sedes partidárias.

Braga foi dos locais mais quentes desse verão de 1975, uma vez que os roubos a automóveis eram diários, sendo vários os registados nesses meses. Quando não conseguiam levar o automóvel, os larápios roubavam tudo o que de valor existia no seu interior, chegando ainda a roubar as rodas dos veículos. Estes eram assaltados em frente às residências dos seus proprietários, mesmo nas principais ruas do centro. Bicicletas e motorizadas eram também matéria de furto constante.
Junto ao mercado, os assaltos a pessoas eram permanentes, mesmo à vista de todos. Perante estes ataques, poucos ousavam defender as vítimas, nem sequer as autoridades policiais que por lá se encontravam.

O “Verão Quente” de 1975 ficou ainda marcado pela tentativa de ocupação de casas, aparentemente desocupadas. Uma delas, situada na rua Conselheiro Januário, n.º 37, em S. Vicente, foi ocupada por uma família que vivia numa casa em condições precárias. Os argumentos apresentados para a apropriação desta casa, transmitidos pelo Partido Revolucionário do Proletariado/ Brigadas Revolucionárias” (divulgado a 13 de julho de 1975) é que os proprietários desta habitação viviam no Algarve, e quando vinham a Braga, ficavam alojados num hotel e não na sua própria habitação!

A nível de incêndios, registaram-se vários nesta região, principalmente nos montes de Fraião, Santa Marta, Sameiro e Bom-Jesus. Muitos deles foram considerados de origem criminosa.
Os conflitos entre pessoas e freguesias vizinhas atingiam situações de pânico. Para além da ocupação de casas, de assaltos e de ataques e agressões, verificou-se um episódio curioso quando, na noite de 22 de julho de 1975, um grupo de pessoas de Cabreiros assaltou a Casa do Povo de Sequeira sujando, com excrementos, a placa que dizia “Casa do Povo de Sequeira”, colocando por cima desta outra a dizer “Casa do Povo de Cabreiros”!

Outro problema que afetou o pós 25 de abril de 1974, e que teve grande incidência no “Verão Quente” de 1975, foi o retorno dos portugueses que viviam nas então colónias. Só no distrito de Braga, no verão de 1975, encontravam-se cerca de 40 000 a necessitar de ajuda urgente. Diariamente recorria à Comissão Distrital de Retornados, que se situava na rua de S. Margarida (na Vigararia do Apostolado dos Leigos) centenas de retornados desesperados. Esta Comissão foi formada por elementos retornados do Ultramar e residentes em Braga. Deste grave problema ocuparam-se outras entidades, como o Governo Civil, a Câmara Municipal, a Cruz Vermelha ou a Caixa de Previdência. A ajuda aos retornados era de tal forma urgente, que a assistência foi descentralizada por concelhos e por freguesias de Braga.

Ainda neste âmbito, eram permanentemente concedidos donativos para os reformados. A “Comissão de Apoio aos Reformados do Ultramar” recebeu, nos últimos dias de setembro e primeiros de outubro de 1975, donativos das freguesias de Urgeses (32.515$30), de Ronfe (13.700$00) e de S. Salvador do Souto (6.012$50); da empresa “Corais&Aguiar, L.da” (5.000$00); dos Professores Primários (16.045$00); dos trabalhadores do Banco Espírito Santo (1.450$00) e da “Fábrica Francisco Pinto Lisboa (2.160$00). Para além de dinheiro, várias freguesias contribuíam com géneros para apoiarem os retornados que se encontravam em Braga.

A situação em Portugal, e em Braga, neste “Verão Quente” de 1975, era de tal forma explosiva, que até o célebre Embaixador dos EUA em Portugal, Frank Carlucci visitou esta cidade, no dia 6 de novembro de 1975, tendo reuniões com o Governador Civil de Braga, Eurico de Melo, e ainda reuniões na Câmara Municipal (recebido por José Ferreira Salgado) e no Arcebispado de Braga.

Ainda neste contexto de relações com os EUA, vários jornalistas americanos defenderam publicamente a anexação dos Açores pelos EUA, uma vez viviam mais açorianos nos EUA do que nas próprias ilhas dos Açores e ainda com o argumento de que a economia deste arquipélago dependia quase exclusivamente dos EUA. Por outro lado, segundo os americanos, os açorianos tinham o seu próprio idioma, os seus próprios costumes e a sua própria música, e consideravam-se abando- nados pelo Governo Português, que os tratava como “cidadãos de segunda”!

De referir ainda que existiu uma tensão máxima entre a Igreja Bracarense e partidos políticos, nomeadamente alguns de esquerda. Um dos pontos máximos dessa tensão ocorreu a 13 de julho de 1975, no aeroporto de Lisboa, quando o arcebispo de Braga, D. Francisco Maria da Silva, se preparava para embarcar no aeroporto de Lisboa, com destino ao Brasil, onde iria participar no Congresso Eucarístico de Manaus. Uma denúncia anónima avisou as autoridades de que o arcebispo se preparava para abandonar o país, levando com ele uma considerável quantia em dinheiro. Perante estes dados, o arcebispo foi cercado no aeroporto por militares armados e obrigado a despir-se para inspeção, situação que indignou a Igreja.

No dia 31 de julho de 1975, depois de uma reunião na Vigararia do Apostolado dos Leigos, o Clero do Arciprestado de Braga enviou protestos ao ministro da Administração Interna e ao Núncio Apostólico, contra o “vexame” a que foi submetido o arcebispo. Dessa reunião nasceu o movimento “Maria da Fonte” no qual o Cónego Eduardo Melo Peixoto desempenhou um papel ainda hoje muito dúbio. Nas semanas seguintes, foram mais de cem os ataques às sedes do PCP do norte e do centro do país!

No dia 10 de agosto desse ano ocorreu em Braga uma manifestação de apoio D. Francisco Maria da Silva, com cerca de 100 mil pessoas. Nessa manifestação, o arcebispo referiu que “há valores maiores do que a própria vida: Deus, a Sua Igreja, a Pátria”!
Durante esta manifestação, a tensão atingiu o ponto máximo, quando se verificaram conflitos e tiros entre apoiantes do arcebispo e elementos que se encontravam no interior da sede do PCP, em Braga.
Este enorme contraste de ideologias, que originou os episódios quentes nesse verão de 1975, teve o seu culminar com os acontecimentos ocorridos a 25 de novembro desse ano e que posteriormente serão recordados.

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