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Varsóvia: o centro numa periferia (quase) feliz

Liderar Gerações Por Portugal

Ideias

2011-09-15 às 06h00

Isabel Estrada Carvalhais Isabel Estrada Carvalhais

Estar em Varsóvia é estar numa das mais enigmáticas capitais da Europa, onde por detrás da delicadeza arquitectónica da Baixa, da teatralidade dos edifícios da era comunista ou da exuberância da construção pós-comunista, se esconde uma história de enorme sofrimento e destruição. Varsóvia é desconcertantemente atraente sem ser bela, nem tão-pouco convidativa para o visitante sem tempo. Varsóvia exige que o visitante seja um verdadeiro turista, com tempo e paciência para descobrir os seus recantos e encantos. Luxo a que não me posso dar.

Varsóvia está longe de ser um dos mais belos locais que já tenha visitado, mas impõe respeito. E impõe-no ainda mais quando penso que é hoje a moderna capital do único pais da União Europeia que não entrou em recessão aquando do eclodir da crise na Europa em 2009, cujo PIB espera em 2011 um crescimento a rodar os 4%, e em que o rendimento per capita quase quintuplicou em pouco menos de uma década (de cerca de 3 000 para quase 14 000 Euros em 2010). Poucos farão melhor nos dias presentes (com excepção dos países bálticos, mas também aqui algumas leituras cuidadosas se impõem, como oportunamente escrevi num artigo de Maio deste ano). Ninguém diria que há 20 anos, entre 1990 e 92, sob a terapia de choque de ajustamento ao Capitalismo, o PIB da Polónia desceu mais de 30%.

A cidade vive hoje um alvoroço de novas construções, todas marcadas pelo gosto megalómano das arquitecturas de outros tempos. Embora continue a ser o edifício mais imponente da cidade, com um magnetismo que nos persegue para onde quer que olhemos, o Palácio da Cultura na Praça Defilad (uma ‘oferta’ de Estaline, segundo o próprio, ao povo Polaco) é hoje rivalizado por muitas outras construções, desde hotéis de luxo, a múltiplos espaços de serviços, bancos, centros comerciais, estações...

Às portas de receber o Campeonato Europeu de Futebol de 2012 (em parceria com a Ucrânia), a cidade vive aliás um frenesim que já tão bem conhecemos de outros (os nosso) carnavais … Chamados em breve às urnas para eleições legislativas a 9 de Outubro, os Polacos parecem inclinados a dar a vitória à Plataforma Cidadã (ou Plataforma Cívica), reconduzindo assim a um segundo mandato o executivo de centro-direita liderado por Donald Tusk, o que a acontecer, será a primeira vez na história da Polónia pós-comunista. A tendência de voto parece ser pois no sentido de privilegiar a estabilidade política, a paz social e a prosperidade económica.

Por estes dias, os polacos têm razões para se sentirem quase felizes. Um olhar mais atento, porém, obriga-nos a refrear expectativas. Numa europa em convulsão económica, ninguém vive isolado de ninguém, logo, ninguém está a salvo da desgraça alheia. Com mais de 30% das suas exportações direccionadas para o mercado alemão, a Polónia rezará com certeza para que nada de mal aconteça à economia de Angela Merkel. Até porque pensar no mercado interno não seria salvação.

Pese embora os seus cerca de 38 milhões de habitantes, a Polónia sofre, à semelhança de todo o Leste Europeu, de um rápido envelhecimento demográfico, problema para o mercado interno no médio e longo prazo, a que de imediato se juntam outros dois: as taxas de desemprego relativamente altas (cerca de 12%) e de pobreza, com 17% da população ainda a viver abaixo do limiar da pobreza. As fortes desigualdades sociais serão aliás um dos seus maiores desafios. As diferenças salariais no sector empresarial dentro da Polónia, por exemplo, são enormes.

Em Varsóvia a média salarial pode rondar os 1 300 euros, mas em outras partes do país não irá muito além dos 500. O poder de compra dos polacos está longe de elevado quando comparado com o norte da Europa, mas sobretudo, está longe de socialmente bem distribuído. Esta desigualdade de rendimentos faz com certeza com que o custo de vida de cidades como Varsóvia tenha significados bem distintos para o cidadão. Se por um lado um bilhete de autocarro para 40 minutos não custa mais de 3,60 zlótis (cerca de 85 cêntimos) e se se pode almoçar uma excelente baguete em qualquer café simpático da baixa antiga, por apenas 7 zlótis (cerca de 1,65€), já as lojas de marca que se encontram por todo o lado, exibem os preços com que somos confrontados em qualquer outra cidade europeia. Vestidinhos ridiculamente banais custam 800 zlótis como custam 190 euros em Madrid pu Paris.

Sendo que nada está garantido para o futuro de nenhum país, a verdade é que os tempos de relativa prosperidade que a Polónia hoje conhece não a deverão fazer esquecer-se dos desafios que terá de enfrentar a médio e longo prazo, alguns dos quais bem nossos conhecidos nas ressacas já vividas da Expo 98 e do Euro 2004.

Mas todos nós sabemos como custa pensar no amanhã que (enganosamente) tarda quando os dias são de sol e de bonança. Assim se explica que, num ambiente de optimismo económico, a Polónia esteja prestes a reconduzir ao poder o mesmo Governo, pese embora os seus escândalos de tráfico de influências em 2009; os seus reveses no cumprimento do programa de criação de infrastruturas (de que é exemplo a dificuldade que será concluir a ambiciosa rede de auto-estradas a tempo do Euro 2012); e da ausência de respostas capazes de reverter o já certo abrandamento económico.

É que é sempre mais fácil perdoar erros e omissões em tempos de prosperidade. Quanto à ausência de alternativas políticas credíveis, também os tempos de bonança permitem que que tal não seja visto como dramático. O tempo o dirá.

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