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Braga, quarta-feira

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Variações

As bibliotecas e as leituras no verão

Variações

Escreve quem sabe

2024-06-20 às 06h00

Ricardo Moura Ricardo Moura

Os dias abriam os braços em preguiça. Neles estendia as manhãs e as tardes sem pressa. Tinha pouco mais de 10 anos. A primária estava feita. A maioria iria continuar a estrada das letras. Os que cortavam o cordão umbilical ao livro, já sabiam os acordes do fado que tinham pela frente. Carga no lombo, ora para carregar baldes de cimento, ora para deambular de malhada em malhada, lameiro em lameiro, leira em leira ou o que fosse. A resistência durava poucos anos. Fartos da carteira vazia e dos ralhos em casa, era vê-los a zarpar para Lisboa ou para a irresistível Paris, chão de albergue de tantos que só souberam o que era ser terra de luz, anos mais tarde.
Foi por entre este tempo que vivi um junho de pura descoberta em contraste com uma pátria a braços com uma crise económica que empurrava o país para um contraciclo com o resto da Europa, com índices de crescimento em quase todos os territórios. O bloco central no governo, com Ernâni Lopes aos comandos das finanças públicas, apertava o cinto à jovem democracia e a vida lá ia seguindo, lenta e difícil, em direção ao futuro.
Ao invés, em mim tudo era expetativa. Estava a semanas de entrar na “escola dos grandes”. A carreira e Montalegre aguardavam-me. Imagina entrar na vila como uma caça ao tesouro. A timidez não derrotava a imaginação que medrava à medida que se aproximava o momento.
Porém, até lá, muita parra deu a vindima. Tinha o meu primeiro Europeu de futebol, com oito equipas, jogado no país que me viu nascer. Os patrícios puseram os portugueses colados à televisão. Há 40 anos, no Barroso, ter televisão e a cores era como ter um passaporte vitalício para correr o mundo. Por lá entravam desenhos animados (Abelha Maia, Conan, He-Man, Dartacão, Willie Fog, Tom Sawyer, etc.), séries (Duarte & Companhia, Espaço 1999, O Justiceiro, Soldados da Fortuna, Alf, Rua Sésamo, etc.), novelas brasileiras (Baila Comigo, Pai Herói, O Bem Amado, etc.) e o meu lendário Domingo Desportivo. Não obstante a oferta, esta não superava os jogos da bola, por entre medas de palha de centeio, antes da chegada da vezeira.
Ainda não tinha descoberto o nome Futre. Nesse junho, Chalana era o astro ventilado de boca em boca. 18 anos depois da aventura inglesa que terminou com a memorável fotografia de Eusébio lavado em lágrimas no relvado do antigo Wembley, a equipa das quinas regressava a um grande palco do futebol internacional.
Embriagado pelo que vi na véspera, na abertura do Europeu, fui sacudido por uma notícia que passava na televisão. Era meio da semana e estava em Montalegre com os meus pais, na companhia de um primo afastado que, nesse mês, foi uma espécie de irmão relâmpago. Foi pela voz do Fernando que ouvi, pela primeira vez, o nome Variações. Nunca esqueci o que me disse: «que grande perda teve Portugal!».
Só anos depois entendi que o Santo António, no seu dia, passou a ter no além a companhia de outro António. Um trovão que rompeu com os cânones da época, quase toda ela formatada. Deixou um legado que tem tanto de curto como de imortal. Fez 40 anos que António Joaquim Rodrigues Ribeiro, para muitos o mais incomum artista português, colocou a freguesia de Fiscal, em Amares, do distrito de Braga, no mundo.
Variações, quinto de 10 filhos de Jaime Ribeiro e Deolinda de Jesus, passou a vida em Lisboa, Angola, Londres e Holanda. Cantou fado, dançou blues e viveu o rock.
Estávamos no meio do “boom” do rock português onde emergiam bandas como UHF, Xutos e Pontapés, GNR e Heróis do Mar.
O embrião da lenda acontece em 1981 no programa “O Passeio dos Alegres”, apresentado por Júlio Isidro. Variações é furacão na estreia do álbum “Anjo da Guarda” (1983), confirmado um ano depois com “Dar e Receber”. Morre a seis meses de completar 40 voltas ao Sol, vencido por um vírus, à época, pouco conhecido: SIDA.
Não tenho memória de um artista português tão omnipresente. A influência tem atravessado gerações. Um mito alimentado por múltiplas ações. Basta recordar o que sucedeu há 20 anos quando os Humanos – banda formada por Camané, Manuela Azevedo e David Fonseca – gravaram músicas inéditas, com nova roupagem. Mais recentemente, a vida inspirou o filme "Variações", protagonizado por Sérgio Praia, o mais visto em 2019, com quase 300 mil espetadores.
Neste Santo António, por ironia, estive em Lisboa por entre livros. Fui e vim com a música que nos deixou. Um som que, estou certo, se tivesse nascido do outro lado do mundo, teria visibilidade planetária.
Quando deu o último concerto na “Queima das Fitas”, em Coimbra, a poucos dias de partir, a debilidade física que mostrava em palco era de um animal ferido. Tombou o corpo, mas ergueu-se a alma. Para sempre.

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