Correio do Minho

Braga, terça-feira

Varejo e retalho

O bolo alérgico

Ideias

2018-04-16 às 06h00

Álvaro Moreira da Silva

Vareja é ovo de inseto díptero, redução de varejeira, mosca azul ou verde-metálica, devoradora de carnes e causadora de não poucas doenças. Não consta que o macho se chame varejo, designação reservada para o ato de bater ou sacudir com uma vara, de realizar inspeção fiscal ou vistoria de mercadorias. Em nenhuma destas circunstâncias se talha ou se retalha, razão por que devemos investigar em outros universos semânticos a relação existente entre as palavras varejo e retalho, designadoras de um mesmo facto comercial, no Brasil e em Portugal. Não sabemos se no Brasil ficam varados com isso, mas sabemos que o Eça, na Relíquia, o Almada Negreiros, em Nome de Guerra, e até Fialho de Almeida, em A Ruiva, ficaram varados, isto é, muito admirados, com outros aconte- cimentos, assim como que trespassados por uma vara de marmeleiro. A vara, para além de insígnia antiga, circunscrição judicial ou autoridade conferida a outrem é, como bem se sabe, ramo de árvore ou peça com que, não poucas vezes, se educava o povo. E é, ainda, uma antiga medida de comprimento nos sistemas metrológicos português e brasileiro. Varejar significa, neste contexto, medir às varas, geralmente objetos tecidos.

É com certeza deste âmbito semântico que devém o varejo como tipologia comercial em que a venda de um produto é concretizada diretamente, sem intermediação, portanto, a um comprador final, assim se distinguindo da venda por atacado, ou em grandes quantidades. Isto no Brasil, porque em Portugal a designação do mesmo facto percorre outros caminhos. Forma regressiva de retalhar (de re+talhar), a palavra retalho aparece já a partir do século XII sob grafias diversas, como, por exemplo, retalu ou rretalho. Na atualidade, no plano fonético, há, por vezes, confusão paronímica entre retalhar e retaliar, bem como entre formas verbais correspondentes a diversos tempos (retaliávamos vs. retalhávamos, por exemplo).

O elemento compositivo antepositivo talh-, advindo do latim, baseia o italiano tagliare, o espanhol tajar, o português talhar, bem como acontecimentos em outras línguas, e encontra-se em múltiplas palavras do português, do atalhe ao atalho, do entalhador ao entalhado, do retalhista ao retalho. Talhar significa, basicamente, fazer talhos, cortar, esculpir, e daí deriva, certamente, a palavra retalho que, na sua origem, mais não é, substantivamente, do que o pedaço, o fragmento de alguma coisa. Retalhar significa, pois, cortar em fragmentos que, em economias curtas e fechadas, são a priori, vendidos individualmente. Comprar ou vender a retalho significa, hoje, comprar ou vender à unidade, a miúdo, em porções pequenas, e difere da compra ou venda por atacado, em grosso, isto é, em grandes quantidades. O nome retalho designa, hoje, este comércio à unidade ou em pequenas quantidades, que tanto pode ser realizado em pequenas como em grandes superfícies. Seja retalho ou varejo, este tipo de comércio é essencial nas sociedades modernas, dá fluência à distribuição de variadíssimos produtos e dá trabalho a muita gente.

* como apoio de J.M.S, José Moreira da Silva, linguista e escritor. (josemoreirasilva1954@gmail.com)
Retalhos do Retalho é um projecto de livro que se concretizará em artigos a publicar no Correio do Minho ao longo do tempo.

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