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Ideias

2019-01-06 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

Facto: finais dos anos setenta, ordenado mínimo uns sete contos e quinhentos; vencimento de um encarregado concreto de carpintaria na casa dos nove contos; vencimento de uma professora do primeiro ciclo da ordem dos dez contos.
Facto: momento presente, ambos vivos e de boa saúde, reformados, ela com uma pensão três vezes superior à do operário especializado.
Facto: a professora nunca deixou de conhecer progressão salarial, enquanto que a remuneração do carpinteiro de primeira não cessou de estagnar e regredir.
Facto: um trabalhava para o Estado, o outro não.
Facto: são os dois cidadãos de pleno direito, embora se possam fitar como desconhecidos, provindos de planetas diferentes. – Olhó marciano!
Acusem-me de populismo, só não me digam que isto não aconteceu, que isto não está a acontecer, que eu não quero incomodar, nem o mestre do formão e da plaina, nem a mestra da tabuada e da ortografia.
Acusem-me de populismo, tomem-me por alvo de tomatada, mas tranquilizem-me: digam-me que o nosso Portugal é intrinsecamente justo; digam-me que o 25/4 instaurou uma igualdade substantiva, que o 25/4 dignificou o Trabalho, assim, de maiúsculas, como um todo.
Reclamai, pois, professores, enfermeiros, e demais castas subvalorizadas de megafone, mas não reivindiqueis por vós, apenas. Batei o pé por todos, ou não acreditais na Divisão Social do Trabalho e na igualdade essencial dos seres humanos? Ou dar-se-á o caso de os vossos sindicalistas serem reaccionários? Eu sei que cada um puxa a brasa a seu carapau, o problema é que, por aí, muito há quem não tenha como chegar a carapau que se cheire, servindo a metáfora para uma série de miminhos, como calçado confortável, cuidados dentários, aquecimento doméstico… Vale a pena continuar, ou já vos oiço os prantos fungosos? Ou serão resmungos?
Ai, Marcelo, Marcelo, quanto não incentivas a que abramos o olho, a que participemos criticamente na construção do nosso destino colectivo. Estou que não me aguento de exaltação patriótica. Eu percebo as tuas apreensões, eu sei que tu queres que o boçal lusitano não desembeste e se passe de armas e bagagens para partido absurdo. Porém, pudesses tu explicar, a esse Tonho embrutecido, que os partidos que temos não são absurdos. Onde andaram os obreiros dos 20% que sobrevivem abaixo do limiar da pobreza? A quem endossar esta vergonha? Há quantas décadas não politicais? Todos, menos o Cavaco, bem-sabido, que nunca foi senão rato adestrado de gabinete, um técnico torturado de trazer pela Baixa.
Não! Não precisamos de trumpes, nem de bolsonaros, nem de parente fabricável por frankenstein gaiteiro de ceroulas roxas. Precisamos de uma so-ciologia política positiva, de um humanismo que adopte e torne imperativa uma igualdade no acesso às condições essenciais de vida. A pessoa em concreto pode ser preguiçosa, pode ser viciosa e malbaratar os recursos colocados à sua disposição sob a forma de salário… É tudo verdade, mas isso é problema dela. Não pode, porém, o Estado, a Sociedade – que todos integramos, até os professores, até os enfermeiros –, eximir-se à obrigação de defender o interesse geral. A riqueza é de todos, e eu nem quero invocar a parábola dos trabalhadores pagos por igual, independentemente da jorna cumprida. A riqueza é laicamente de todos, e o quinhão que uns levam por cima é crime antropológico, que não desemboca em inferno ou cadeia, embora esfacele o existir em comum. É chato, mas não é menos verdade. E, quanto ao resto: é para mudar, ou é para forçar a coisa de jaquetão amarelo inorgânico e barrete frísio?

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