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Ideias

2017-10-01 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

Ilustrado ou idiota, por direito divino chegava um monarca ao exercício do Poder. Era uma fatalidade contra a qual nada se podia, já que o Todo-poderoso assim o determinava. Golpes palacianos, guerra intestinas entre cabeças reinantes aparentadas costumavam resolver a desdita.
Nos dias de hoje, ilustrado ou idiota, por direito sufragado em urnas, alcança um político ou um magnata os cargos cimeiros de Estado. Por reis, kaisers, czares ou arquiduques, não tinham os súbditos de então a menor das responsabilidades. Outro tanto não se pode dizer da vista-grossa de que fazemos gala, das demissões, quando elegemos quem manifestamente melhor ficaria em casa, a brincar com uma linha de caminho-de-ferro ou a folhear revista escaldante.
Com uma semana de desfasamento recupero a Nâmbia, cantinho que o Trump bem conhece, e para onde será nomeado embaixador, logo que dele se desembaracem em Washington. Nada que o homem diga alterará a imagem que dele fazemos na Europa. Vale dizer: a presente calinada não ultrapassa em idiotice as precedentes, nem o mote dá para as que venham por diante - o cavalheiro é assim, já o era, e não é de crer que mude. Ninguém muda, de facto.
Quão maior é a Nâmbia, como passo em falso, do que um pedido de Costa, o nosso, a Bruxelas, para que de lá investiguem os preços dos combustíveis em Portugal? Como? Importa-se de repetir, senhor Costa! O que é que Bruxelas têm a ver com os preços ao consumidor num estado membro? Desde quando é que semelhante matéria releva de isentíssimas directivas comunitárias? Talvez nos quisesse fazer crer que nada tinha o Governo com o assunto. Bruxelas à toa com o referendo catalão, e o Costa com as gasolineiras. Francamente! E se pedíssemos a Bruxelas para investigar os ordenados em Portugal?
Os catalães - maioritariamente (?) - aspiram a um referendo e à autodeterminação. Não podia estar mais de acordo. Será, ao presente, o integrismo ibérico uma utopia, ou um passatempo reaccionário? Bem sei que dei um salto, mas a autodeterminação da Catalunha só faz sentido como passo preliminar de uma recomposição na Península Ibérica, Andorra aí incluída. Políticos há que, procurando causas fraturantes, o poderão avançar. Mas, bem vistas as coisas, melhor aludido vem sendo o tema por ensaístas e escritores, Saramago e Pérez-Reverte, para não ir mais longe.
No contexto europeu, quão mais relevante não seria uma União Ibérica do que uma simples concertação de esforços entre Portugal e a Espanha? Quão mais não ameaçaríamos nós, ou disputaríamos, o status quo de franceses e alemães? Em nenhum imediato cabe semelhante ideia, embora ela seja tão auto-evidente, que até mete dó que não avance. É óbvio que de prosa apressada não sai esboço político, mas haja vontade.
Dentro e fora da Espanha, há uma ordem política a quem não convém o referendo catalão. Não convém, desde logo, aos Bourbons e aos titulados por aí abaixo. Talvez não convenha à França, pelo fantasma do Rossilhão, perdido pelos catalães para a coroa francesa, em tempos que já lá vão, embora se mantenham as afinidades. Não interessa a franceses, por razão acrescida, já que à autodeterminação da Catalunha se seguirá a do País Basco, muito certamente, e aí bem mais notória é a identidade entre as vascongadas. Não interessa aos poderes instituídos em Bruxelas, acomodados ao eixo franco-alemão, e que, mediante a emergência de uma União Ibérica, muito teriam que reconfigurar na geopolítica interna da União Europeia.
Não interessa, também, aos puristas entre nós, esses que em desespero de causa se agarrariam à bandeira da carbonária e à padeira de Aljubarrota, protestando uma singularidade que não existe, ou que menor sentido faz. Entretanto, dá gosto ver um catalão ou outro a trautear a Grândola… E quem não gostar do referendo na Catalunha, que vá para a Nâmbia.

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