Correio do Minho

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Ideias

2012-10-16 às 06h00

Jorge Cruz

No momento em que escrevo esta crónica ainda não são conhecidas as propostas definitivas que hão-de enformar o Orçamento de Estado para 2013. Adivinha-se, no entanto, que será um documento que vai propor um enorme aumento da carga fiscal, uma proposta de OE que colocará uma tónica muito acentuada na ampliação desmesurada das medidas de austeridade.

De facto, não será muito difícil fazer uma previsão deste género. E a tarefa está facilitada uma vez que, por um lado, é conhecida a obsessão do Governo de Passos Coelho pela austeridade, por outro, sabe-se do autismo que este Executivo denota relativamente à verdadeira situação económica e social do pais e, finalmente, porque a conclusão lógica das intenções sucessivamente anunciadas pelo Governo aponta precisamente nessa direcção, deixando-nos pouca margem de erro.

Creio que já é hoje perfeitamente claro que ao Governo de Passos Coelho sobra ideologia e falta ética e moral, o que tem como consequência um alinhamento cego e acrítico com a linha “sugerida” pelos “mercados”, com os efeitos nefastos que se conhecem para os portugueses. Sobeja, portanto, muito engajamento, muito “respeitinho” pela geo-finança, demasiada insensibilidade social e também uma enorme teimosia, por vezes a roçar a insolência, como se vivêssemos num regime auto-crático, num regime de quero, posso e mando.

Portugal mudou muito nas últimas décadas. Os tempos não são de despotismo, embora aqui e além se sintam sinais inquietantes de que essa forma de governação tem os seus adeptos.
Não se compreende, por exemplo, que o Governo esconda dos parceiros sociais - com quem tem um pacto firmado, recorde-se - medidas que em última instância resultam na violação grave daquilo que foi acordado.

Também será extremamente difícil explicar a tentativa de incumprimento da legislação criada pelos próprios partidos que suportam o Governo, como ainda agora sucedeu no já tristemente célebre caso do IMI. Isto para já não falar no embuste que foram as promessas eleitorais, hoje sem qualquer correspondência com a prática política deste Governo. Ora este tipo de práxis está perigosamente mais próxima da conduta despótica dos velhos ditadores latino-americanos do que daquela que deve ser apanágio dos grandes democratas que todos nos habituamos a respeitar.

Aliás, nos últimos dias inúmeras vozes se têm feito ouvir para tentar chamar Passos Coelho à razão. E desta vez a “guarda pretoriana” e os “franco-atiradores” dispersos um pouco por todo o lado, desde os gabinetes ministeriais ao Parlamento, passando por jornais, rádios, televisões e blogues, nem podem dizer, sob pena de caírem no ridículo, que se trata de mais um ataque político da esquerda, radical ou não, e dos sindicatos.

As manifestações que já aconteceram desde que o primeiro anúncio de agravamento da austeridade foi feito juntaram até agora bastante mais de um milhão de pessoas. Curiosamente, ou talvez não, as maiores concentrações não foram promovidas por partidos políticos ou por sindicatos, mas por movimentos de cidadãos que ao verem que a sua capacidade contributiva ia ser ultrapassada, ao sentirem que as desigualdades iam ampliar-se mais acentuadamente e que a sua subsistência poderia estar em causa, esgotaram a paciência. Mais do que manifestações de carácter político, tratou-se de autênticas acções de pura cidadania em defesa do país no seu todo e dos seus valores mais perenes.

Mas para além dos cidadãos anónimos, aos quais ainda este fim-de-semana se juntou uma boa parte dos artistas portugueses, muitas outras vozes clamaram publicamente contra a política de destruição que Passos Coelho está a impor ao país. Uns diplomaticamente, como Cavaco Silva na sua intervenção através do “facebook” - o país é muito mais do que a rede social! -, outros sem grandes pruridos, como todos os anteriores presidentes da República, a verdade é que os alertas e as condenações vieram praticamente de todos os quadrantes. Aliás, algumas das mais virulentas foram produzidas precisamente por prestigiados militantes e simpatizantes do PSD e do CDS, ou seja, dos partidos que suportam o Governo, o que deveria obrigar Passos Coelho a parar para pensar. Para bem do país, esperemos que o faça.

PS1 - Os resultados das eleições regionais nos Açores podem ser um bom barómetro do estado de espírito dos portugueses, designadamente no que concerne ao repúdio das medidas draconianas impostas pela governação de Passos Coelho. Nessa medida, poderá ter-se tratado apenas de uma amostra regional do que está para acontecer nas autárquicas do próximo ano.

PS2 - Ao contrário do que se referia no final da minha última crónica, o texto não foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico. Tratou-se de um equívoco na paginação, como os mais atentos comprovaram pela leitura do texto. Aliás, aproveito a oportunidade que a situação me faculta para reafirmar a minha total oposição a um acordo que, em minha opinião, está mal feito e, também por essa razão, divide mais do que une. Continuarei, assim, a escrever de acordo com a antiga ortografia.

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