Correio do Minho

Braga, terça-feira

Uma Visita Singular, por João Castelo Branco

O conceito de Natal

Conta o Leitor

2011-08-10 às 06h00

Escritor

Desde sempre ouvi dizer que a aldeia, meio pequeno e familiar, convivia melhor com os deserdados de juizinho de nascença, ou de alguma maneira tocados pelo infortúnio da doença, da desgraça familiar, do desgosto de amor, do abandono ou da rejeição.

Povoam-me o imaginário, imagens de infância de criaturas vulneráveis a que a boa vontade de vizinhos, familiares afastados que fossem, e conhecidos, faziam valer a esmolinha. A samarra, velha que fosse, aconchegante e prazenteira, os sapatos calçados na hora para remediar, o caldinho quente e reconfortante para o estômago, a manta já sem uso a que o contemplado deitava avidamente a mão. E também o gesto, o sorriso, a complacência traduzida numa palavra de amor fraterno, de solidariedade (embora a palavra não fosse de uso na época)
- Ora! vai ver que tudo se resolve, dias melhores virão!
- São os pobres que ajudam os pobres!

Foi num desses lugares meio perdidos na serra, de localização recôndita e que obrigava a percurso sinuoso. A bem dizer, mais uns vinte minutos de viagem depois de termos alcançado a vila.
Todavia, a canseira a que nos entregávamos diariamente por imperativo do ofício, era a seu modo compensada pelo aprazível do lugar e pela beleza da viagem eivada de arvoredo variado e aromático. Às vezes, fugazes e espontâneas visitas de bicharada coloriam o percurso rotineiro a que nos habituáramos.
Um esquilo saltitante e malabarista a exibir-se na ramagem abundante e retorcida, um coelho incauto e fugaz a saltar a ravina ou até ouriços-cacheiros e pegas de rabo comprido e tons negros e azulados a esvoaçar levianamente pelos ares.

Os dias corriam devagar em Falias e a escola, edifício centenário de duas salas, pouco se afastava da pequena povoação.
A população escassa e rural contava com uns poucos, já de idade entrada, umas dezenas de crianças oriundas de umas tantas famílias que ali permaneceram, e um casario rústico de construção sólida e sóbria. A emigração, proporcionara a dignidade do pequeno luxo da parabólica, da garagem individual, do assador, do alpendre e do jardim a ombrear com a mansão do abastado, e permitira a expansão da moradia que crescera generosamente, vendo os seus anexos orlar-lhe as frentes.

Fora num desses convívios locais, para o cafezinho na loja do Albino, que ouvira e vira em pessoa, aquela figura bizarra do senhor Penedos entrar “fardado”, qual capitão no activo em pleno estabelecimento.
Confesso que a primeira imagem que me ocorreu, pareceu-me retirada de um qualquer filme documental sobre a ex-União Soviética, com os seus medalhões e estrelas dos generais, marechais e afins.

O traje, a que um chapéu de pala de feição militar emprestava solenidade, era complementado pela bota de cavalaria, e só o fato de riscado coçado e velho lhe retirava verosimilhança.
Face ao meu olhar de espanto e curiosidade defronte do meu circunstante, contara-me a D. Constança, esposa do senhor Albino, que o prejuízo lhe pegara a guerra do ultramar nos idos anos de sessenta e nove, e que desde então, o homem até aí são e escorreito, passara a padecer de males do espírito a que nem as preces da ti Abília nem os medicamentos do doutor Álvaro puseram cobro.

A maleita, embora não assumisse contornos violentos e agressivos, manifestava-se desde então, embora de forma desigual, com períodos de acalmia, na manifestação de uma vontade determinada em levar a cabo qualquer iniciativa de veracidade duvidosa, mas aqui e ali com marcas de realidade.

Fora já há muito tempo, que o pobre vivente adoecera e a mu-lher, com quem já na altura tinha pegas, não o conseguia levar ao médico. Ora, as manifestações de tosse intensa e o emagrecimento acentuado e as febres altas, terão despertado a atenção de vizinhos e familiares que viram gorados os seus esforços de o tentar transportar ao hospital local.

É que o senhor Penedos negava-se, e não fora o Manuel da serração de Touviela a usar da sua peculiar habilidade e engenho imaginativo e o homem já não existia.
Prontificara-se a procurá-lo pela serrania com arrojados laivos de coragem e determinação e encontrara-o delirante, febril, num casebre abandonado, fronteiro com Molias, o concelho vizinho.

O encontro breve e eficaz ter-se-á pautado por palavras curtas e breves proferidas de forma contundente e determinada:
- Ó Penedos, tenho ordens do nosso capitão para te levar imediatamente para o hospital militar, rapaz!
Constou-se que o enfermo acenara imediatamente com a cabeça e ainda tentara fazer a continência, mas o estado debilitado e a acção pronta do Manuel e do seu ajudante, o Tobias, agira de imediato e o Penedos já mal se apercebera que entrara numa Ford Transit, a caminho do Hospital de Fonte da Vela.

Por lá permanecera seis meses a curar-se de uma pneumonia grave. Mas, sobrevivera e voltara que parecia outro: a barba impecavelmente feita, a camisinha lavada e o fato passado e limpo a par com um ar mais calmo e contido tê-lo-á aproximado mais da família e suavizado um pouco a teimosia e obstinação.
Porém, pouco tempo depois reincidira e cortara relações com a ti Alice passando de novo a dormir por onde calha, acompanhado de uma sacola e uma espécie de pasta onde guardava documentos antigos.

Um dia estando de passagem a carrinha do sardinheiro pelo lugar, e o senhor Penedos deambulando por ali, vai de acompanhar os circunstantes na compra de uma meia dúzia delas.
Para espanto de todos, ali mesmo a poucos metros do veículo, e à vista de toda a gente, tratara de fazer escorregar pela goela abaixo as sardinhas, assim mesmo, nuas e cruas, uma a uma sem qualquer calorzinho.

Face à minha indignação, ao perguntar se não houvera alguma boa alma capaz de lhe dar uma mãozinha de cozinha, res-pondera-me a Sílvia, sobrinha do Abílio:
- Quê senhor…. ele não quis… não aceita nada de ninguém!

Aí por fins de Março daquele ano, estando eu no estabelecimento educativo sem a companhia da Mariana que se ausentara a fim de consulta, começo a ouvir burburinho inabitual do átrio de recreio. Risinhos nervosos e as meninas de mão da-das a correr pela escadaria acima mais o Daniel e o Rui Manuel de ar zombeteiros e expectantes:
- Professor, o Penedos vem aqui, quer falar com a dona Mariana.

Confesso-vos que vacilei. A criançada à minha volta imbuída de uma curiosidade natural por tudo quanto é novo, ansiosa por ver a minha reacção. E depois, à porta, ali mesmo, aquela fraca figura de homem, de ar desgrenhado e grisalho, apresentando-se de papel azul de vinte e cinco linhas preenchidas em letra manuscrita, desenhada com perfeição caligráfica, e aqui e ali uma dedada a acusar mau trato ao papel. Tratava-se de um “documento” que pretendia protestar.

Devia ser apresentado a sua excelência, a senhora directora da escola, D. Mariana, para apresentar por sua vez ao senhor presidente da Câmara, a protestar por Falias ter sido preterido em relação a Corvielo para construção da nova sede da junta de freguesia. A “missiva” fora apresentada em tom sincopado e militar e com trejeitos de “ultimato”.

Não sei explicar onde fui buscar a inspiração. Perfilei-me, ouvi com atenção as palavras do homem sem interromper, e, rematei:
- Sim, senhor Penedos, a carta será hoje mesmo entregue à senhora directora e seguirá sem falta com destino à Câmara.
Missão cumprida. Tenho a sensação que lhe descobri uns sinais de alívio no seu olhar esverdeado. Afastara-se pouco depois entre o desencanto dos pirralhos ansiosos por acontecimento.
O Carlitos, de Penedo d´Além, comentou:
- Sô professor, o Sr. Penedos não faz mal, pois não?

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