Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Uma viagem sem retorno

A União Europeia e os Millennials: um filme pronto a acontecer

Escreve quem sabe

2013-04-23 às 06h00

Cristina Palhares

A grandes passos para a última parte do livro de Reboul, que me impressionou muitíssimo: para uma pedagogia da competência. E de uma viagem sem retorno. De uma forma sublime e apaixonante, sintetizadora de tudo o que até aqui foi explanado o autor define competência como o fim do ensino ultrapassando portanto a informação, os saber-fazer e até os saberes puros.

“A competência distingue-se do saber fazer, aptidão a agir, e do saber puro, aptidão a compreender, pelo facto de ser uma aptidão para julgar. Acrescentemos que esta aptidão não existe sem saber e sem saber-fazer, mas ela ultrapassa-os pelo próprio facto de os integrar.”

Ensinar é então criar uma capacidade de investigação, criando espaços de reflexão participada e colaborativa dos alunos e professores que, diariamente, vivenciam os problemas reais colocados no e pelo processo de ensino-aprendizagem. A aprendizagem significativa, iniciada por Carl Rogers em psicoterapia e transposta para o ensino é aquela que vai provocar alterações, em que o conhecimento adquirido existe principalmente para ser utilizado, não já, mas daqui a pouco...

E o que é então isto senão competência? É também competência o que a psicologia humanista refere em relação às caraterísticas das pessoas adequadas e que partilho de sobremaneira: “Percebem-se de maneiras essencialmente positivas e, como consequência, são livres e abertas à própria experiência, capazes de se aceitarem e aceitarem os outros, e capazes de se identificarem ampla e profundamente com os outros seres humanos. Pessoas adequadas sentem-se suficientemente fortes e seguras para lidar com a vida de maneira aberta, direta, com um mínimo de medo e ameaça.”

É ou não é também competência? São ou não são pessoas competentes? Reboul distingue três ní-veis de competência: primeiro, a competência fundamental, a que cada criança adquire para deixar de ser apenas uma peça de uma máquina humana e tornar-se num ser completo, em segundo, a competência especial, aquela que cada um tem na sua profissão, nas suas atividades sociais e até nos seus lazeres e finalmente a terceira, a competência em ser, o adulto que em todos os domínios é capaz de julgar por si próprio. Esta competência em ser é paralela, na pirâmide de Maslow, ao nível da autorrealização e, na perspetiva humanista, à pessoa adequada.

O ensino prepara então para a competência em ser, mas não a cria. “Todas as informações, todos os saber-fazer, todos os saberes puros, que um ensino permite adquirir são outras tantas ocasiões para aprender a ser; mas ser não se ensina, e cada um tem que o aprender por si próprio, duran-te toda a vida, até à hora da morte.”

As palavras finais de Reboul, são de tal modo espantosas que apetece citá-las por inteiro. Algumas, no entanto, percorrem todo o livro e não as citar era de algum modo retirar o prazer que tive nesta leitura: “Pois o que é aprender, em todos os domínios, senão “desaprender” alguma coisa, deixar um hábito ou uma certeza no mais íntimo de nós próprios? (...) E o que é compreender, se-não abandonar as pseudo-certezas, afastar os “obstáculos epistemológicos” devidos à tradição e à experiência ingénua, (...) o que é aprender a ser, senão aprender a mudar, a renunciar corajosamente ao conforto e ao conformismo em que uma pessoa estava instalada como em sua casa, para vir a ser, enfim, ela própria. Aprender realmente é sempre “desaprender”; para vencer o que nos paralisa, nos encerra, nos aliena. Para ficar jovem!”.

Para uma pedagogia da competência, na busca de excelência em matéria de educação. Só assim conseguiremos olhar para os nossos alunos, ajudando-os na descoberta dos seus talentos e na certeza porém que, qualquer aluno, seja ele como for, tem o seu talento. E ta-lento não é capacidade, é competência.

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