Correio do Minho

Braga, terça-feira

Uma viagem ao outro lado do mar, por Mariana Azevedo Gomes

Desprezar a Identidade, Comprometer o Futuro

Conta o Leitor

2010-07-13 às 06h00

Escritor


Era uma vez um polvo que vivia nas águas do Oceano Índico. O polvo adorava aquele sítio, porque nenhum pescador conseguia lá chegar e, é claro, não matava os peixes que lá viviam. Aquele local era isolado de tudo, mas era o centro do mundo para o polvo.
Eram vários os amigos do polvo, mas o seu maior amigo era uma foca que também gostava imenso de ali viver.
Um dia, alguém lhe tinha dito que do outro lado do oceano estavam a matar os animais e, como esses animais estavam em vias de extinção, o polvo pensou em deslocar-se para esse local, para os ajudar. A melhor forma que encontrou para os ajudar, foi tentar convencê-los a acompanhá-lo para junto da sua casa, que era um local mais seguro.

- Tu não podes ir! É muito longe. - Disse preocupada a foca.

- Eu sei, mas temos de os salvar - respondeu o polvo. Se não os salvarmos, nunca mais teremos espécies desses animais no planeta, porque estarão todos mortos!

- Bem, talvez tenhas razão. Mas não podes demorar mais de dois dias, porque nós precisamos de ti aqui, respondeu a foca. Tu és um polvo, tens muitos braços e é fácil para afastar os inimigos que, com o tempo, também nos poderão atacar - acrescentou a foca.

- Está bem, partirei amanhã, de manhãzinha, logo ao nascer do sol.

E assim aconteceu: no dia seguinte, o polvo decidiu partir para o outro lado do mar.

- Boa sorte! Tu és corajoso, mas promete que não te metas em nenhum sarilho. - Desejou a foca com muita ansiedade.

- Terei cuidado e prometo que não me irei meter em nenhum sarilho. Não se preocupem. Quando eu chegar vão ver que trarei os peixes a salvo e todos teremos novos amigos. Adeus! - Despediu-se o nosso herói.

O polvo foi seguindo um rumo perigoso até ao outro lado do mar. Foram horas e horas a nadar, sem parar. De repente, e quando já tinha anoitecido, o polvo avistou um pescador, pensando de imediato que estava a chegar ao local que procurava.

Com um entusiasmo redobrado, nadou ainda mais depressa. Foi então que viu um peixe assustado a ser levado por uma rede de pesca. Reparou que no local existiam muitas redes e por isso tentou ultrapassar esses assustadores obstáculos. Seguidamente, o polvo avistou algo que lhe parecia ser um castelo. Cheio de curiosidade, decidiu aí entrar.

- Onde é que pensa que vai? - Perguntou um tubarão, com uma voz grossa e grave?

- Bem … eu vim visitar este magnífico castelo para poder falar com o Rei deste lado do oceano.

- Então o senhor polvo é do outro lado do oceano, certo? - Continuou o guarda.

- Sou sim - respondeu o polvo. Quando me disserem que este lado do mar estava a ser atacado pelos pescadores eu decidi ajudar os peixes que estavam em perigo!

- Muito bem, pode entrar que eu vou levá-lo até ao Rei. Mas isto não é um castelo, é uma nau portuguesa que se afundou em 1543, quando regressava de Goa para Lisboa, carregada de ouro, prata e especiarias.

Entusiasmado, o polvo disse ao guarda que conhecia muito bem a história desse reino que se chamava “Portugal”, que se situava na longínqua Europa Ocidental e que era habitado por um povo de corajosos marinheiros, que desejavam conhecer novas terras, novas gentes, divulgar o Cristianismo e, claro, procurar riquezas. Mas no meio desta conversa, o polvo reparou que estava perante o Rei!

- Está aqui um polvo que quer falar com Vossa Majestade. Pode entrar? - Questionou o guarda.

- Muito bem! - Respondeu o Rei, acrescentando - Qual é o assunto que o traz até aqui?

- Vossa Majestade, o que me traz até à vossa presença é a tragédia que os nossos amigos peixes estão a sofrer, uma vez que morrem aos milhares nas redes dos pescadores!

- Muito bem. Pode deixá-lo - disse o Rei.

O guarda - real foi-se embora quando o polvo começou a falar.

- Sua Alteza, queria falar-lhe da morte de alguns peixes. Eu sou do outro lado do mar e informaram-me que algumas criaturas estão a ser mortas por pescadores e decidi vir cá, para ajudá-lo a levar estas espécies para o outro lado do oceano, onde me encontro. O que é que pensa?

- Bem, essa é uma óptima ideia. Mas esse lado do mar não tem pescadores a matar os animais, como acontece aqui?

- Não, não tem. Esse lugar é muito isolado e lá estaremos em paz. Mas se queremos ajudar os peixes temos de começar a viagem o mais rapidamente porque o percurso é longo.

- Muito bem, vamos começar já a preparar as coisas - acrescentou o Rei. - Vamos ter de informar todos os peixes acerca do nosso plano. O melhor é organizarmo-nos em grupos, onde haverá um responsável por os orientar no longo caminho - afirmou o Rei. - Guardas, avisem todos os peixes que encontrarem para se prepararem rapidamente para a longa viagem! - Ordenou. - Vamos lá! O polvo vai à frente comigo para nos indicar o caminho. Pode ser?

-Claro, claro! - respondeu o polvo entusiasmado.

Saíram do castelo, ou melhor, da nau portuguesa, e começaram a longa viagem a caminho do outro lado do mar! Nadaram horas e horas e, quando estava a anoitecer, avistaram uma rede de pesca enorme! O polvo ficou assustadíssimo, ao ver o desastre que poderia acontecer. Foi então que pediu ajuda aos guardas do Rei!
O Rei não hesitou em dar ordem aos guardas para cortarem a rede. E como muitos desses guardas eram “peixes-espada”, conseguiram fazer um buraco enorme, por onde passaram todos os outros peixes!
Entusiasmados, os peixes nadaram mais algumas horas, até que atingiram o outro lado do mar, destino que tanto desejaram.
Como já era noite e estavam cansados, os peixes não puderam conhecer a sua nova casa. Só no dia seguinte, à luz do dia, todos os peixes puderam visitá-la, tal como os seus novos amigos. Mas surgiu um problema: onde alojar Sua Majestade?
Não há problema! Sua Majestade fica alojada um pouco mais à frente, numa nau portuguesa, que se afundou em 1501, sugestão do polvo, muito conhecedor da história marítima portuguesa. Era uma nau importante, uma vez que nela morrera Bartolomeu Dias, junto ao cabo da Boa Esperança. Depois deste navegador português ter ultrapassado o Cabo das Tormentas, em 1488, integrou uma nova viagem à Índia, liderada por Pedro Alvares Cabral. Mas, ironia do destino, morreu no local que lhe deu muito protagonismo.

- O bom filho à casa volta, e neste caso Bartolomeu Dias voltou, para morrer! - Disse o polvo, um pouco triste.

Deixemo-nos de tristezas - disse o Rei. - Vamos adaptar esta nau e fazer dela o meu novo palácio!

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