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Uma questão de civilização

Assim-assim, ou assim, sim?

Uma questão de civilização

Ideias

2018-11-05 às 06h00

Carlos Pires Carlos Pires

“Quanto à tauromaquia não é uma questão de gosto, é de civilização e manteremos como está” - a frase da nova ministra da Cultura, Graça Fonseca, na sua primeira intervenção pública. Para quem não acompanhou de perto o tema, a declaração veio a propósito do orçamento de Estado para 2019, que prevê uma redução para os 6% nas entradas nos espetáculos culturais, com a exceção do cinema, dos espetáculos ao vivo e das touradas, tendo a ministra admitido debater a taxa de todos estes, menos das touradas.

Eu desde já aplaudo a iniciativa e coragem da ministra da Cultura. Sim, é uma questão de civilização. Por que razão não admitimos hoje a escravidão, ou a violência de marido sobre a mulher, ou o racismo? Por que razão é consensual hoje a participação política das mulheres, o aborto, ou mesmo o casamento gay? Por que razão não se aceitará o casamento arranjado de miúdas de 10, 12 e 13 anos de etnia cigana, apesar da respetiva cultura o legitimar? Exatamente pela razão referida pela ministra: por uma questão de civilização! O que há um ou mais séculos atrás era “normal” admitir-se (ou proibir-se!), deixou de o ser, porque os valores mudaram, as consciências e a noção de “bem”, de “justo”, de “retidão” são outras.

Infelizmente, não creio que a ministra tenha força suficiente para avançar com a abolição das touradas. Até porque sabemos o quanto a sua frase tem gerado polémica, incluindo em alguns setores do PS, que tem nas suas fileiras vários aficionados. Contudo, não posso deixar de manifestar que esse seria o meu desiderato: que terminassem de vez com um espetáculo que eu considero repugnante.
Escusado reproduzir a habitual argumentação dos aficionados: que a tourada é cultura, é uma forma de arte, e deve ser visto como o equivalente de dança, ou pintura, ou música e, ainda, que os toureiros são qualificados e por trás de toda a pompa e ritual, o touro é de fato morto de uma forma muito digna. São, na verdade, argumentos “de encher chouriços”, que causam até repúdio na maioria das mentalidades e sobretudo nas mais jovens.

Caros leitores, conforme já referi anteriormente e neste mesmo espaço de opinião, a propósito da aprovação do Novo Estatuto Jurídico para os Animais - e através do qual estes deixaram de ser tratados como “coisas” e integraram o estatuto de “seres vivos dotados de sensibilidade”, criminalizando-se os maus tratos, dor ou sofrimento que lhes sejam infligidos -, quer ainda a propósito da legislação que passou a permitir que os animais de companhia pudessem acompanhar os respetivos donos a estabelecimentos de restauração, temos de reconhecer que estamos a atingir um novo estado civilizacional, ao qual são colocados cada vez mais exigentes desafios.
Na verdade, a par dos hábitos saudáveis de vida que procuramos promover, a par da proteção do ambiente que se impõe a todos nós, urge estabelecer-se uma mudança de paradigma na relação com os restantes seres vivos, os animais, que connosco convivem neste planeta que se pretende harmonioso, sendo que muitos deles integram a nossa cadeia alimentar. Estamos obrigados, como seres pensantes que afinal somos, a tratá-los com respeito; a dar dignidade à sua criação para abate; a não tolerarmos os maus tratos, o sofrimento desnecessário. Só assim poderemos falar em progresso.

Posto isto, a prática das touradas é inaceitável. Porque se trata de uma prática bárbara - na sua essência, a tourada é ritualmente abater um animal, sujeito a prévia, penosa e contínua dor, para pura diversão do homem. É ainda uma prática arcaica, ao invés de "tradicional" - se no passado remoto a humanidade não permitiu mais lutas de gladiadores, então por que devemos permitir nos dias de hoje a tourada? A antiguidade de uma tradição não pode servir para a justificar moralmente.
Digo isto em consciência (certo de que os meus amigos aficionados aceitar-me-ão com a minha posição, tal como eu os aceito com a deles): a abolição das corridas de touros é um processo natural de evolução de uma sociedade que se quer civilizada, e um desejo inequívoco da maioria dos cidadãos portugueses.

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