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Uma pequena luz no regresso à escola

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Uma pequena luz no regresso à escola

Voz aos Escritores

2020-10-02 às 06h00

Fernanda Santos Fernanda Santos

(...)
Uma pequenina luz bruxuleante e muda
como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Apenas como elas.
Mas brilha.
Não na distância. Aqui
no meio de nós.
Brilha.
Jorge de Sena

Os regressos já são muitos, mas sempre singulares nas novidades, nas expetativas e nos anseios.
Este, por sua vez, atípico na configuração, mas tão igual nas motivações e afetos! É um regresso virado para a educação na paz, para o respeito pelos direitos humanos e para a contínua solidariedade entre os homens.
Na escola de hoje, mais do que nunca, precisamos de ser esta pequena luz de que nos versa Jorge de Sena. Pequena e muda, mas capaz de iluminar o mundo inteiro. Uma luz que ouse enfrentar as ameaças que no horizonte se perfilam e o medo com que alguns querem que escrevamos o futuro.

Comemora-se hoje o Dia da Não-Violência e da Paz, 2 de outubro, em homenagem a Mahatma Gandhi. Não-violência, verdade e amor eram os grandes princípios deste pacifista. Triangulando algu- mas inferências sobre a importância das boas causas como a justiça, o respeito, a solidariedade, o amor, a paz, incremento cada vez mais a admiração por humanistas como este. Mesmo quando as pequenas coisas isoladas parecem ser insignificantes, juntas trazem a força da verdade e o perfume da paz.

“Assim são as flores do campo que acreditamos não terem perfume, mas que, juntas, perfumam”, pensou Gandhi. Jorge de Sena, por sua vez, louva a presença de uma pequenina luz brilhando no meio da multidão. Incerta, mas persistente. Uma luz discreta no meio da multidão que, na confusão e na algazarra do seu viver, mal dá conta dessa presença luminosa, que não se impõe, mas indefetivelmente brilha. Por isso, aquele exercício prospetivo de alguns cientistas mais perspicazes tornou-se numa realidade cada vez mais palpável e assustadora: hoje, o Planeta enfrenta consideráveis mudanças climáticas, prossegue a destruição de milhares de espécies de origem animal e vegetal, aumenta a poluição do ar e da água, multiplicam-se as montanhas e as ilhas de lixo nos mares. E como isto tudo junto não bastasse, enfrentamos ainda uma pandemia que se vem agigantando a cada dia que passa. Parece-nos que por mais que se confie no progresso da ciência e da técnica para procurar soluções para estes graves e gigantescos problemas, a sua magnitude é tal que temos razões para pensar que não bastarão os remédios que, a curto prazo, venham a ser descobertos para atenuar os efeitos dos sintomas mais visíveis. Algo de muito radical é preciso mudar na mentalidade, na organização da convivência humana e na partilha dos recursos naturais, mesmo sabendo nós dos grandes bloqueios a nível do sistema económico e financeiro globalizado que têm avançado de forma desregulada, deixando atrás de si um cortejo de situações sociais gritantes como o desemprego, a desigualdade na repartição da riqueza, que levam a estados de pobreza extrema.

Diante desta realidade dura e crua, o meu regresso à escola não teria aquela espontaneidade nos abraços, contudo eu continuava a querer ser evocada como alguém que não ensina só a ler e a escrever em bom português, mas como protagonista paciente e cuidadosa que não se assusta com a turbulência e a inquietude próprias dos mais novos. Com dedicação, havia de continuar a promover o espanto, a curiosidade e o estudo das coisas simples e belas. Juntos, havíamos de aprender a ler para resistirmos, para lutarmos, para nos libertarmos e para nos apaixonarmos:
Ler para ouvir além da voz
Ler para enxergar além do horizonte
Ler para sentir o coração
Ler para percorrer o mundo
sem levantar os pés.

É neste vaivém que os nossos olhos se cruzam com as lembranças de outros olhares, de outras emoções. Então, damo-nos conta que este regresso nos pede um sonho novo, um desafio poético traçado lado a lado nas linhas dos sucessos e das adversidades. Parafraseando Jorge Luís Borges, “todos os caminhos vão levar à morte. Perca-se.”
Uma pequenina luz com que cada homem e cada mulher, em sua casa, no seu trabalho, na sua cidade ou aldeia, junto dos amigos, na escola, nos centros de saúde ou nos transportes públicos, nas redes sociais ou na comunicação social, assume, transfigura e recria tudo quanto está ao alcance de todos e de cada um.
Seja essa pequenina luz, capaz de iluminar o mundo inteiro!

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