Correio do Minho

Braga, sábado

Uma palhaçada pegada!

Plástico - Pequenos passos no caminho certo

Ideias

2013-05-26 às 06h00

Carlos Pires

1. O Presidente da República decidiu convocar o Conselho de Estado, que decorreu na passada 2ª-feira. Da ordem de trabalhos constava o tema a debater: Portugal pós-troika. Isso mesmo, caro leitor, não está equivocado: parece de facto o guião de um daqueles filmes hollywoodescos que versam episódios apocalípticos algures no futuro, aparentemente desligados do presente.
Portugal vive hoje e agora um dos momentos mais difíceis de que há memória, pautado por crescentes níveis de desemprego e recessão, vendo partir para outras paragens, em debandada, muitos dos seus nacionais - a maior parte altamente qualificada -, em busca de “ganha-pão”. Pudera: não é preciso ser adivinho para perceber que a crise por cá teima em aprofundar-se, o mercado interno em minguar, o desemprego em aumentar, o Estado continua a perder receitas fiscais, a nossa dívida pública continua a subir. Estamos cada vez mais longe do fim da crise. O Governo de Portugal, por sua vez, vive um clima insustentável e uma extraordinária confusão em relação às medidas que apresenta, anunciando ora a sete vozes que irá inverter o caminho da austeridade para passar apostar no investimento, sem contudo revelar de forma inequívoca em que é que essa mudança se materializa. Parecemos um barco à deriva, no meio de uma tempestade que parece não ter fim.
Contudo, para o Senhor Presidente, este presente parece perfeitamente corriqueiro e normal, não merecendo qualquer debate ou discussão pelos notáveis que compõem o órgão consultivo que convocou.
Não podemos afirmar que o futuro não é importante. É certo. Só que o futuro está a decidir-se hoje. A reforma do Estado e na administração pública são uma parte fundamental do que será o País depois da troika. E é sobre as decisões que estão a ser tomadas hoje e agora, e não sobre as que serão tomadas daqui a 1 (um) ano, que Cavaco Silva deveria ouvir os conselheiros (e, porque não, os portugueses?).
O que vivemos hoje são situações extremas. Não faz pois sentido falar no “pós”. O Conselho de Estado não passou de um ritual mediático e uma perda de tempo; um não-evento, uma frustração provocadora de um maior desgaste da pessoa do Presidente da República..

2. Os portugueses, no momento atual de profundo descrédito das instituições do Estado e dos políticos, precisavam de um Presidente que lhes conseguisse mostrar que, no meio da desgraça, alguém está atento, vigilante e que não receia intervir sempre que é necessário. Infelizmente nada disso tem acontecido: Cavaco Silva teima em entender o cargo em que está investido como um magistério, com a autoridade formal de ter sido eleito mas despojado de autoridade política. E com isso tem-se colocado como “parte do problema” e não, infelizmente, como “parte da solução”.

Sejamos pois realistas: o nosso Presidente não tem sido o porta-voz dos portugueses. É o porta-voz do Governo. Mas até isso tem sido feito de forma confusa e contraditória. Na verdade, se no discurso que proferiu, no último 25 de Abril, Cavaco Silva alertou para a inutilidade de qualquer alternativa a este primeiro-ministro e às suas políticas, por outro lado, no que respeita a tudo o que diz respeito à situação dos reformados, tem pugnado pela inadmissibilidade das medidas anunciadas, parecendo estar mais preocupado com a intocabilidade da sua pensão do que com a resolução dos problemas da segurança social.
O Presidente teima em defender uma visão restritiva dos poderes presidencialistas, como se de figura decorativa se tratasse. Acontece que ninguém esqueceu que foi Cavaco quem no passado recente “inventou” as escutas feitas pelo anterior governo a Belém e que, na sua tomada de posse (segundo mandato), apelou à revolta nacional contra os sacrifícios impostos pelos sucessivos PEC, ataques que José Sócrates ainda hoje faz questão de lembrar com rancor e ódio visceral…Ou seja, quando quis, quando lhe interessou, Cavaco Silva foi muitíssimo interventivo. Até em demasia.
E é por esta total falta de coerência que Cavaco é também o Presidente que goza da mais baixa popularidade que algum outro já conheceu na nossa democracia.
Depois queixa-se de quem “ousa” chamar-lhe “palhaço”…

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