Correio do Minho

Braga, terça-feira

Uma ofensa à memória dos portugueses

Tancos: falta saber quase tudo

Ideias

2012-01-30 às 06h00

Artur Coimbra

O Governo anunciou a semana passada que vai propor à concertação social a eliminação de quatro feriados - dois civis e dois religiosos. Como quem deita os dados num tabuleiro e sem qualquer critério, propõe a supressão do dia da Restauração da Independência (1 de Dezembro) e o dia da proclamação da República (5 de Outubro), além de duas datas religiosas que, curiosamente, ainda não se sabe quais são, nem quando serão oficializadas.

O país abre a boca de espanto quando o risível ministro Álvaro Santos Pereira, que ficou com a pasta da negociação dos feriados, admite que o corte das duas celebrações civis aconteceu porque (citando o seu português canadiano) 'o governo aceitou a condição que a Igreja disse'.

Porque, alegadamente, a Igreja Católica impôs que o corte do pretenso excesso de feriados em Portugal fosse dividido de modo equitativo - duas datas religiosas, duas civis, embora o número de feriados religiosos seja maior - e o Governo, submissa e cristãmente, dobrando a cerviz perante a hierarquia católica como faz perante a ditadura alemã, concordou.

Mas afinal quem manda no Estado laico que presumivelmente é o que vigora neste país: o governo ou a Opus Dei?

Os portugueses que votaram no PSD, votaram também na igreja para mandar no país? E quem perguntou aos portugueses em geral os feriados que queriam suprimir?

É ridículo pensar que a economia do país vai crescer substancialmente quando se extinguem quatro feriados (parece que o problema não são os feriados, mas as “pontes”…). Não é por aí que se vão resolver os grandes problemas nacionais de produtividade e competitividade, com toda a certeza.

O que aconteceu é que o governo fez mais uma vontade aos patrões, inventando mais um instrumento para aumentar o trabalho gratuito e reforçar o horário de trabalho, para além do que há pouco tinha promovido no conciliábulo da chamada “concertação social”, altura em que os outorgantes se comprometeram a eliminar 'três a quatro feriados'. O Governo optou, como sempre tem feito, sistematicamente em prejuízo dos trabalhadores e em benefício do empresariado, para satisfazer interesses estranhos aos portugueses, por maximizar os sacrifícios.

Em vez de obrigar o patronato a melhorar a organização das empresas e a elevar a qualificação da maioria dos empresários; em vez de diminuir drasticamente os custos com a energia, os transportes e sobretudo com a fiscalidade, que é o que deveria fazer, como reclamam justamente os empresários, o governo diverte-se a acabar com feriados, que não passam de um amendoim no contexto do repasto dos governantes e dos empregadores.

O inenarrável Álvaro diverte-se a proclamar que o 10 de Junho (Dia de Portugal) não foi escolhido porque, 'nestas alturas de crise', é preciso haver um maior sentimento patriótico. Mas qual “sentimento patriótico”, quando Portugal está vendido à tróica e tem o seu futuro hipotecado à Europa pelo “bloco central de interesses”?…

Outra manifestação do humor negro do “estrangeirado” ministro da Economia é a sua explicação de que, sempre que os feriados civis de 5 de Outubro ou de 1 de Dezembro, agora abolidos, calharem a um dia útil, serão celebradas no domingo imediatamente a seguir.

Mas em que país pensa que está o ministro Álvaro? Comemorar o feriado civil a um domingo, por que carga de água? O homem deve estar louco!...

O que está em causa é que, num país cujo regime reinante é exactamente a República instaurada em 5 de Outubro de 1910, e que ainda há menos de dois anos foi palco de grandes comemorações nacionais, esta decisão lamentável é no mínimo uma ofensa à memória dos combatentes da Rotunda que contribuíram para mudar Portugal e instaurar a modernidade deste país.

O mesmo se diga do 1º de Dezembro, homenagem à restauração da independência de Portugal.
A eliminação dos feriados contribui para a perda da memória dos portugueses, fazendo esquecer marcos e datas fundamentais da sua História, mais recente ou mais remota. São símbolos evocativos da história e da cultura de um país; perdê-los contribui para o empobrecimento e o esquecimento dos cidadãos, o que é sempre lamentável.

Um povo que perde a sua memória, como estes governantes pretendem, é um povo sem leme, sem rumo, desnorteado. Um povo sem chão, despojado de identidade e de cidadania.
Como refere, e bem, o monárquico José Adelino Maltez, os feriados “são símbolos culturais, políticos, históricos, religiosos. São a maior riqueza de Portugal”. Suprimi-los é seguramente um crime!

Aliás, um bispo emérito, D. Januário Torgal Ferreira, há pouco referia, certeiramente: “fica-se alarmado com a pequenez destas medidas. Não é com quatro ou cinco dias que vamos salvar o país. É um gesto perfeitamente mercantilista”.

Um recado para o governo, para a tróica, para os “mercados”, para quem de facto manda nesta “choldra de país”.

Enfim, roubam-nos o presente, assaltam-nos o ordenado, os subsídios, as férias, os direitos constitucionais, a estabilidade, a segurança no emprego, a independência colectiva, num regabofe assassino de que não há memória no Portugal Democrático!

Agora até a memória dos feitos grandiosos nos querem roubar, os pobres vendedores do passado!

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